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Quando falamos de MOTOCICLISMO, temos em mente a mais comum das definições : Nome genérico de todas as atividades esportivas disputadas em motocicletas ... ainda nos vem a mente o nome das grandes marcas e seus fabricantes.
Porem, nesta semana que temos um mês do falecimento do grande EDGARD SOARES, me vejo pensando em outros valores que os apenas intrínsecos.
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O motociclismo não são as motos, as marcas, ou ainda seus fabricantes; são todas as expressões geradas e criadas pelos motociclistas, por aqueles que viveram ou vivem de e para a motocicleta.
Tal como o Tite falou em seu editorial “O senhor da velocidade”, o bom Edgard tinha um humor um tanto quanto elástico. Lembro bem que por volta de 1974, fugíamos do colégio e íamos ver as motos na “esquina do veneno”; lembro melhor ainda do meu sonho que era uma DUCATI 400 DESMO novinha na loja do Seu Latorre, saiamos de lá e íamos à loja do Seu Edgard. Lá nunca sabíamos como nós, os pequenos ‘malas’ de carteirinha, iríamos ser recebidos, porem sou, até em nome da verdade, testemunha que o muito que eu sei hoje, foi ministrado por esse homem, com muita paciência. Tinham horas, a maioria delas, que apenas seu olhar, calavam as nossas pequenas, porem poderosas e rápidas bocas, mas sempre abrindo mais a nossa sede de saber. Outro ponto muito importante que, no meu entendimento, divide todas relevâncias, é que alem do filho, do piloto, do pai, do comerciante; perdemos um pedaço insubstituível da História do Motociclismo Nacional, da História da Motocicleta no Brasil, enfim, da Historia Brasileira. Mais uma estrela se apaga no céu da sabedoria, e a tristeza preenche o meu coração ! O que será das novas gerações ? ... onde encontraremos outros SEUS EDGARDS dispostos a dividir conhecimentos, experiências e estórias ? ... para onde meus netos irão ir em suas fugas do intervalo da escola ? ... eu me encontro um pouco só e cheio de duvidas, da mesma forma que nos meus bons tempos de Colégio de São Bento !
EDGARD SOARES A lenda do motociclismo brasileiro ! Nascido em 1928, já fazia passeios de moto com o pai "seu" Francisco e sua mãe , Dona Maria, numa Harley 1927 com sidecar. Sua família sempre foi ligada em motos.
Aos 7 anos, seu pai lhe deu uma mini moto, construída por ele mesmo. Quando seu pai morreu, foi trabalhar na oficina do tio, na Rua Barão de Limeira, onde se localizava o grande centro das motocicletas ! Lá, Edgard aprendeu muito, e aproveitava para "emprestar" algumas motos para passear no sábado à noite e no domingo ! No ano de 1944 , aos 16 anos, com a ajuda do tio Carmona e de Angelo Gaeta, inicia sua carreira de piloto ! Na corrida de estréia, pilotando uma Matchless 350 cc , Edgard venceu !! ... e acabou Campeão naquele ano !! Com pilotagens fantásticas, e um estilo agressivo, foi campeão paulista na categoria 350 cc até 1948, quando passou a correr com uma Norton 500cc. Aí, foi campeão em 49, 50 e 51 na categoria 500cc.
Na sua primeira participação nas temidas "Cien Millas Motociclistas Ciudad de Buenos Aires" em 1950, Edgard estava em segundo lugar, mas acreditava estar em primeiro ! Os dirigentes da equipe brasileira, temendo uma queda, mandaram diminuir o ritmo, sem avisar sua posição ! Cruzou a linha e só depois sentiu a enorme decepção, pois tinha todas as condições de ultrapassar o primeiro colocado !! Na edição de 1953, vinha na frente com sua Norton 500, quando o pedal de câmbio se quebrou, sobrando apenas um pedaço pontiagudo de metal ! Foi ultrapassado por dois adversários, mas continuou lutando, fazendo um buraco na bota, ferindo o pé ! Consegue novamente superar os argentinos, vencendo a prova !! Recebeu o "Troféu Eva Perón" das mãos de Juan Perón, com a bota furada !!
Em 1954, disputando uma corrida no circuito da Quinta da Boa Vista no Rio, Edgard teve vários pegas com Caio Ferreira e o carioca Arlindo Carneiro. Como não existia "zebrinha" na época, êle costumava cortar a curva passando por uma guia baixa, para ganhar tempo. No ano seguinte, no mesmo circuito, foi usar a mesma tática, mas havia então um trilho de bonde como "guard-rail" ! Resultado... um vôo de mais de 10 metros, e um calcanhar fraturado !!
Na famosa prova comemorativa, do IV Centenário da Fundação de São Paulo, em 1954, em Interlagos, os favoritos , nos comentários da "Esquina do Veneno", eram os ingleses e os italianos. Na primeira prova, Edgard só não ganhou do inglês (Ray Amm) , porque quebrou seu amortecedor, mesmo assim chegou em 5º com sua Norton "de rua"!
Na segunda prova, (foram dois finais de semana) , Edgard preparou muito sua moto, com amortecedores, escapamento, e uma vela "fria" especial, para evitar superaquecimento ! Seu estilo sempre foi de "andar mais do que a moto", como ele mesmo define. Só não chegava na frente se a moto quebrasse !! Sua carreira de piloto foi até 1958 ! Nos anos 70, em Itanhaém, litoral sul de S.Paulo, em sua casa de veraneio, sempre recebia com muito carinho e paciência, a moçadinha jovem, em férias, com suas cinqüentinhas, na maioria Yamaha F5, para, gentilmente, ensinar como resolver problemas mecânicos emergenciais pois, naquela época, não se dispunha de mão-de-obra especializada em motos japonesas, fora da capital. Em 1972, foi um dos mentores da primeira de uma série de corridas de motocross em Itanhaém, a qual, se não foi à primeira, foi uma das primeiras corridas do gênero no Estado. Para continuar nas competições na modalidade "velocidade", montou uma equipe para fazer frente à equipe oficial da Yamaha Motor do Brasil, que tinha "Tucano" e Denísio como pilotos. Contratou o talentoso e desconhecido "Jacaré", que já tinha "barbarizado" com uma Ducati do Latorre. O empresário bem sucedido, manteve sua loja no mesmo local, onde muitos motociclistas se encontram para o ponto de partida de inúmeros passeios nos finais de semana, loja essa hoje administrada por seu filho. Essa lenda do motociclismo paulista e brasileiro enquanto pode, estava sempre em plena atividade, pilotando, e dando muito trabalho nos passeios, deixando muito "moleque" comendo poeira. Num desses passeios, flagrado pelo radar em alta velocidade, foi parado pelo policial rodoviário! Ao tirar o capacete, vendo seus cabelos brancos, o guarda exclamou : "Desculpe Vovô, acho que parei a moto errada !" ... e Edgard saiu de "fininho" e se livrou da "dura" (e da multa) !!!
Dá-lhe " Vovô Edgard " * 1928 + 2006 SAUDADES
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