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Um presente de Deus
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Elas, as lágrimas, se confundiam com a chuva que caía, então, eu não tinha certeza se ainda chorava ou se já havia parado. Devem ter durado uns 5 minutos, mas valeram por uma vida toda. Depois disso, retomei o fôlego e, resignado pela situação, decidi tomar uma atitude, nesse exato momento o telefone toca... Mas, me deixem explicar o que aconteceu, já contei essa história uma vez, mas ainda não contei como me senti naquelas horas de tristeza e melancolia. 19h50minh saio do trabalho perguntando se valeria a pena colocar a capa de chuva ou não, já que as nuvens carregadas estavam indo embora, alguém me responde: não precisa, ela já está passando, mas, resolvi seguir meus instintos motociclísticos e vestir a capa, não custa nada, são 2 minutos. Chego numa avenida movimentada de São Paulo, mas, pela data, ela está até que transitável, alguns metros à frente chego até a chuva que está fraca. Sigo meu caminho, e a chuva começa a aumentar, e cada vez a visibilidade diminui, penso comigo: vou procurar um lugar para parar. Sei onde tem um lugar seguro para esperar a chuva passar. Todos estão com pressa de chegar em casa, olho no retrovisor e tem um opalão grudado na moto, abro caminho para ele, que passa igual a um foguete, atravesso o viaduto e ao chegar do outro lado, uma fila de carros. Subitamente eles param... ...lembro-me de olhar para baixo e só vi água, onde estava o asfal...? Acordei sendo engolido pela água, e, por incrível que pareça, me afogando. Levantei-me, desorientado, tinha um microônibus bem perto de mim, o motorista abriu a porta e perguntou se estava tudo bem, só pedi um segundo para recuperar o fôlego e disse que estava tudo bem que ele poderia ir muito obrigado. A moto? Bem, a moto estava no chão, embaixo da água, levantei-a e para minha surpresa o guidon estava completamente torto, parecia um bumerangue, mas novamente fui dominado pela força das águas, me desequilibrei e deixei a moto cair. A água começou a arrastar a moto, entrei em desespero, e como um urso corre para salvar seu filhote, eu joguei tudo no chão e comecei a correr atrás da minha motoca, consegui alcançá-la, mas não tinha mais forças para levantá-la, parei na sua frente, impedindo a água de tomá-la de mim novamente. Um senhor pára seu caminhão em cima do viaduto e corre em meu auxílio, mas a água não se preocupa com quem quer ajudar, ele cai, larguei a moto e corri até ele e o ajudei a se levantar, voltamos até a moto, a pegamos e levamos até a calçada, onde a água não alcançava. Mas olhem só que ironia, o caminhão do homem era um guincho, e eu pensei, estou salvo!!! - Sinto muito, eu sou padeiro e só estou trazendo esse caminhão do interior para o meu irmão. - disse ele. - Tudo bem, vá com Deus e feliz natal. - foi só o que eu consegui dizer naquele momento. Foi então que me veio uma triste realidade, ligar para quem em pleno Natal? Minha esposa não estava em casa e só voltaria depois das 21hs, pensei, pensei e nada. Quando a triste e dura realidade estava bem ali, na minha frente. Eu não sou materialista, não mesmo, mas tenho um sentimento pela minha moto que quem me conhece sabe do que estou falando. ![]() Então, comecei a chorar...
...passados 5 minutos meu celular tocou, consegui tirá-lo de dentro da
capa de chuva, ele estava encharcado:
Depois de "quase tudo" acertado, decidi sair da chuva que insistia em continuar, empurrei a moto exatamente ao local em que pretendia parar e para minha sorte, tinha uma viatura da polícia e um carro quebrado (mais uma vítima da enxurrada). A partir desse momento, meu telefone não parava de tocar, mãe, tios, tias, cunhado, irmãos, esposa, todos ligando e me acalmando, mas na verdade era eu quem estava fazendo isso com eles, em algum momento alguém disse, já providenciamos alguém para te buscar. E a moto? - eu perguntei. Arrumamos algum lugar para ela ficar hoje! - Sem a moto eu não vou! - falei com um nó na garganta. Enquanto esperava, acabei ajudando o moço do carro quebrado que estava com crianças nele. O tempo passava, o telefone continuava a tocar, afinal, pouca gente da família conhece SP e os caminhos que eu faço, então os orientei até a sua chegada. Eles chegaram e para minha alegria, junto com um caminhão, minha esposa conseguiu contatar um irmão da igreja que eu freqüento, e um disse para outro, que disse para outro, e chegou ao seu ouvido e ele se ofereceu para ajudar. Chegaram lá às 23:30hs, colocamos a moto no caminhão e depois que todos se acalmaram, me forçaram a ir ao hospital. Bem, sobrevivi, foi meu presente de Deus, no dia seguinte contei o ocorrido aos amigos, li e ouvi palavras de incentivo, encorajamento e ajuda, claro, não poderia ter sido de outra forma. Chorei sim, não tenho vergonha de dizer, pois isso não me transformou em menos homem, mas sim nos eleva os seres humanos. Mas o mais importante foi o que aprendi aqui e queria MESMO passar a vocês:
Abraço, Alexandre Patriarca. |
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