Ilha das Mulheres Peladas

Já deviam ser umas 22 ou 23 horas quando resolvi: Chega de conversa, vô dormi. Amanhã é dia de “surfar de pranchão”.

E assim foi. Recolhi as latas, desliguei o PC e, cama.

Acordei cedo. Celular, carteira, camel back e, estrada! Malandro…, tava frio. Primeiras horas do dia, baita neblina, garoa fina, ….. frio de doer…. No meio daquela situação, lembro-me de ter pensado na minha mulher …., na minha cama e nas cobertas que havia abandonado há minutos atrás. Entendo porque é tão difícil arrumar parceiro pra um bate volta. É coisa de índio. Eu sei, é mesmo. Mas, eu sempre fui um admirador da cultura indígena e, de mais a mais, tava indo pro mato e, é lá que eu gosto de estar. Por uns bons 150km, operei por instrumentos.

Já na planície costeira, o sol apareceu e, depois de um queijo quente com um copo de requeijão de café preto, a vida aconteceu! Oh boy ….! I love it! Caí por uma vicinal cheia de curvas e asfalto bom. Na paisagem, a mata atlântica cedia espaço aqui e ali. Hora pro maracujá, hora pra banana. Não demorou e cheguei no mar. Cidadezinha histórica, destas de ruelas estreitas, chão de pedras e casario colonial. Bonito. Meu destino era Ilha Comprida.

Na verdade, a região é velha conhecida (meu velho já tinha mania de “fugir” pra lá nos anos 70 e eu, tive o prazer de acompanhá-lo várias vezes) certamente já havia feito aquele mesmo trecho a bordo de um Dodge Polara ou de uma Variante. Porém, a razão do meu instinto migratório havia sido aguçada por uma equipe de enduristas aqui de SP que, volta e meia, arma uma excursão pra lá. Toda vez que via os chamados na internet, a vontade aumentava. Não sei por que comprei uma moto com pneus street. Ainda não consegui entender o que me deu na cabeça. Mas, posto que é fato, o negócio é por as gomas pra girar.

Gosto destes destinos costeiros. Há sempre uma serra e, onde há serra, há curvas. Normalmente a natureza é preservada posto que tratores não são cabritos e, quase que invariavelmente, tem água em abundancia. Pra mim, não precisa de mais nada.

Cheguei a tal da Ilha e já de cara, parei pra me localizar. Um tiozinho corretor de imóveis era tudo o que eu precisava.

Pergunta: “Até onde vai o asfalto?”. Resposta: “Mais uns 15 km, moço”. Pergunta: “E depois?”. Resposta: “Depois tem um trecho de terra” Animei! Pergunta: “Até onde?”. Resposta: “Até o fim da estrada, depois o Sr. vai ter que ir pela praia”.

Já tinha ligado e engatado, mas, complementei:

“E até onde vai a praia?” Resposta: “Diz que esta é a Ilha mais comprida do Brasil. São 70 km de praia”. Obrigado vida!

Só não beijei o tio porque tava de casco. Aquela resposta teve em mim, mais ou menos o mesmo efeito que teria tido algo como: “Daqui pra lá é praia de nudismo. Nudismo feminino. Você é o único cara que veio pra cá esse ano.”

Era a Husq, a praia e eu…

O negócio já tava parecendo sonho quando, ainda no trecho de asfalto, reconheço uma formação topográfica na orla. Era uma pista de MotoCross! Sem brincadeira. No meio do nada, uma pistinha honesta com vista para o mar e uma arquibancada cheia de mulher pelada. Tá bom…, não tinha ninguém lá, mas, nem precisava. Eu tava tão empolgado que tava até vendo coisa.

O trecho de praia era cortado de quando em vez por um riacho. Eu, marinheiro de primeira viajem e calçado com aqueles “sapatos de festa”, sem muita tração, fui cauteloso.

Cauteloso até ver um Jeep passar com água até a linha das rodas. Dali por diante, não fiz cerimônia. Fui atravessando todos e, eventualmente, seguia as marcas na areia e desviava até uma ponte armada sobre o rio, afastada da praia. Tava muito ocupado agradecendo a vida por estar ali e , confesso que ignorei os desvios que tomei. Fui indo…, só indo.

Não sei se por causa do frio ou por causa da Regis Bitencourt, mas, o fato é que não havia quase ninguém lá. Passavam-se quilômetros sem absolutamente nada na praia. Logo, começou a presepada e o primeiro ato foi dedicado ao capitulo, aceleração em linha reta no nível do mar. O Huscão performou 150 km/h resfriando as gomas aqui e ali nas poças deixadas pela arrebentação. Foi legal, nunca tinha feito isso…

Lá pelas tantas, comecei a notar elevações de areia cobertas por vegetação baixa. Em meio a este cenário, pude ver um trilho bem distinto. Ao me aproximar, minhas expectativas se confirmaram. Eram dunas! Dunas com infinitas trilhas de moto! Com aqueles “sapatinhos de baile”, me senti pelado. Já na primeira tentativa percebi que não ia ser fácil. Pneus de “pista” e aros 17 não combinam com dunas de areia. De qualquer maneira, não dava pra resistir. Tinha que cair pra dentro daquele pedaço do paraíso, nem que fosse correndo a pé, de capacete e guidão na mão! Depois de duas tentativas frustradas e, levando já uns 10 quilos de areia na moto e na “bota”, resolvi aplicar meus vastos conhecimentos da física. Velocidade + sangue no zóio é igual a cabo enrolado e seja o que Deus quiser.

Minutos depois, estava eu no meio de um vale de dunas, numa motard, sozinho, numa situação de tração muito preocupante e, FELIZ! Feliz da vida! Mais uma vez, tive que me convencer que uma motard não é uma dual. Mas, me diverti! Havia trechos rápidos onde o Huscão “decolava”. Quando a batata assava, eu saia do trilho e punha o trator pra tombar mato. Ela gostou!

Se eu tivesse uma barraca e, se não gostasse tanto da minha família, certamente teria fixado residência definitiva naquele lugar… Pico maravilhoso….!!!!

Mas, o gás já tava no limite e eu havia visto uma placa que, aquela altura do dia, piscava na minha memória como luminoso de boate: “Temos feijoada”. Caí pra praia outra vez e comecei a voltar. A previsão de dia de inverno se confirmou e, a praia estava climatizada para o motociclismo. Nem calor o suficiente pra suar, nem frio o bastante pra se incomodar. Andei de Goretex o dia todo e me senti num mundo perfeito.

Bate e volta na praia era coisa comum na minha infância e, não sei ver o mar sem dar um tigurfi. Sempre levo uma berma e uma toalha velha. Mas, desta vez foi diferente. O frio da manhã dizimou esta idéia do meu raciocínio e eu fui “com a roupa do corpo”.

Assim, desencanei do mar, apontei pra civilização e mandei mão na Husq. Como já havia dito, havia uma série de rios e riachos desembocando no mar. Na vinda, não parei pra prestar atenção em qual eu desviei e qual eu atravessei. Na volta, simplesmente assumi que voltaria pela praia e fui cruzando os canais. Já tinha até desenvolvido uma técnica: Primeira, pra não espirrar muita água, mão na embreagem (just in case) e, pés pra cima das abas do radiador, pra não molhar as meias.

Certamente faria frio na subida da serra no final do dia e eu não tava a fins de passar por lá molhado. Acontece que num destes rios, estranhamente, não havia marcas de pneus indicando o melhor local de travessia… Eu, cabação, não tive dúvida: Fiz aquela aproximação “di fianco” me posicionei, e… MERGULHEI!

O rio era fundo, bem mais fundo que os outros…

O bagulho começou a submergir como um submarino naquela água limpinha e, a ultima coisa que me lembro foi ver uma marola se aproximando , cobrindo o “bico de pato”, passando por cima do painel e descendo o vulcão do tanque em direção ao saco.

Resumindo, entrei no mar! Ou melhor, o mar entrou em mim. Devidamente salgado, segui viajem mensurando o tamanho da minha irresponsabilidade, insanidade, insensatez e incapacidade.

A água escorreu rápida e o Huscão ficou parecendo um pedaço de carne seca, totalmente envolto por uma crosta de sal seco. Isso me lembrou de outra coisa…

Por sorte, a feijoada não era lenda.

Mandei duas tigelas daquele creme negro, tomei mais um café e me desloquei por entre as curvas da planície em pé nas pedaleiras, como um urubu que seca as asas após a chuva.

Enfim, vou ser obrigado a voltar naquele lugar pelo menos mais 234 vezes na vida. Aliás, no percurso de volta, pude reparar em várias travessas de terra ligando os bairros e municípios da planície costeira. Estradas estas, sempre apontando pra algum lugar no meio da Mata Atlântica. Quando vejo estradas deste tipo, uma palavra sempre me vem à cabeça: “Dual”. Desta vez, não foi diferente, fui pensando “Dual, Dual, Dual, Dual…”, até a serra começar.

Daí pra frente, com um sorriso enorme dentro do casco, pensei: “Motard, Motard, Motard…”.

Não é uma ilha de mulheres peladas, mas o prazer , é quase igual….!!!!

MOTOHEAD

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