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2015, o que pouca gente viu

No final de 2014 escrevi um artigo (Mercado: enquanto uns choram, outros vendem lenços) onde destacava o crescimento das motos premium enquanto o segmento cub/small agonizava mais um ano de perdas. Acontece que duas imagens, uma apresentada pela Abraciclo – Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares e publicado pelo Motonline e uma tabela também publicada pelo Motonline, me chamaram a atenção. Decidi estudar um pouco mais, pois aqueles slides poderiam estar me passando uma tendência que poderia determinar o que viria a ser 2015 para as premium.

Veja as ilustrações abaixo. Os fabricantes não comentam, mas o sentimento é bem semelhante, apesar de guardarem algumas particularidades.

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Apesar das premium estarem crescendo enquanto small e cub amargam mais um ano de prejuízo, um fato é comum aos dois mercados e ele está representado na imagem ‘01’. Vejamos:

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Desde 2004 que o preço das motos vem caindo em relação ao IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Ampliado. Veja que a moto que deveria estar custando hoje R$ 7.900,00 está a custar R$ 5.800,00. Mas você diria que “estão vendendo mais e por isso os preços caíram”. Não. Desde 2011 que o mercado continua a cair na razão de dois dígitos por ano e mesmo assim os preços não foram corrigidos como deveriam. Importante registrar que isso está acontecendo com a maioria das motos produzidas no Brasil e até mesmo com algumas importadas.

Acontece que os preços estão sendo subsidiados, as margens ficando apertadas e em alguns casos a opção ‘sem margem nenhuma’ já foi considerada e usada. Tudo isso foi feito e está sendo feito apostando que o mercado chegará a um ponto de equilíbrio que justificará tamanha pressão e sacrifício sobre a rentabilidade. Você pode argumentar que esta queda no preço se deve “aos custos de produção que caíram e a alguma redução de impostos”. Pode até ter ocorrido alguma “redução de custos na produção”, mas com certeza nada que contaminasse todos os fabricantes.

Porém, quanto à redução de impostos, vale lembrar que as empresas que estão instaladas na Zona Franca de Manaus e portanto, sob o controle da Suframa, não pagam impostos de importação e nem IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados. Os impostos que incidem sobre as motos montadas em Manaus (CKD) são os estaduais, tipo ICMS, que é pago no momento da entrada da mercadoria no estado de destino e cuja alíquota varia de acordo com a política fiscal de cada unidade da federação.

O que é CKD?

CKD (Completely Knock-Down ou Complete Knock-Down, em inglês) são conjuntos de motocicletas criados geralmente nos centros de produção para exportação e posterior montagem das motos nos países receptores desses kits, geralmente fábricas menores ou com produção reduzida. Os kits visam obtenção de benefícios fiscais, principalmente na importação, uma vez que os veículos são montados no país de destino, gerando empregos, ao contrário dos veículos importados já montados (CBU); os quais, exatamente por isso, pagam, no Brasil, todos os impostos sem nenhuma isenção.

Ainda temos as peças de reposição e que por serem enviadas para este único fim, pagam IPI e Imposto de Importação da mesma forma que a moto importada que chega aqui montada. Talvez esteja aqui uma parte da culpa delas serem tão caras aqui.

Apesar de existir grande pressão sobre as montadoras de motos para que o índice de nacionalização inclua ainda uma maior participação das peças de fabricação nacional, a queda de braço, nesse sentido, anda longe de terminar. Lançar um produto montado no Brasil (CKD) é apresentar um produto isento de alguns importantes impostos. Agora, motos importadas já montadas (CBU) e as peças de reposição, pagam todos os impostos relativos a essa operação e por isso, nessa categoria, tornam-se muito caras.

Quando ‘MAIS’ pode ser ‘MENOS’

Grande parte da produção nacional de motocicletas não paga impostos como IPI e IIP (podemos dizer que 90% são montadas ou fabricadas no Brasil com alto índice de nacionalização). Se não são os impostos os maiores responsáveis pela redução das margens dos fabricantes e dos preços então, o que seria? O crédito? Sim! Mas no caso das motos premium este problema não existe e, mesmo assim, elas estão com a rentabilidade bem prejudicada, igual ou até pior que a categoria das small/cub. As premium mesmo em um quadro geral de crise para o setor de duas rodas cresceram suas vendas na ordem de 10,8% (4.975 unidades). “Sensacional!”, diria você. Realmente parece muito bom.

Parece. Porém, se olharmos os números de vendas no atacado, fornecidos pela mesma Abraciclo, veremos que somente a Triumph em 2014 vendeu 3.897 unidades, contra metade desse número no ano de 2013, Ou seja, vendeu tudo o que produziu. Enquanto isso as outras marcas estão dividindo fatias menores desse bolo, que realmente cresceu, mas que tem ‘mais bocas’ para alimentar e, por isso, podemos especular que muitas dessas marcas estejam com a ‘água já na altura do nariz’ – no limite! A imagem ‘03’ nos mostra isso de maneira mais clara.

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Um dado curioso é que BMW, Kawasaki, Harley-Davidson e Suzuki venderam mais motos no atacado do que produziram e BMW, Kawasaki e Suzuki venderam mais motos no varejo do que produziram. Isso mostra respectivamente que todas estiveram desovando estoques antigos, sejam eles na revenda ou no estoque de fábrica. O problema é que o bolo cresceu, mas a quantidade de pessoas para comê-lo foi bem maior do que o imaginado e, assim, as fatias ficaram menores. Apesar de ter gerado um grande bolo, podemos dizer também que o segmento de motos premium, mesmo crescendo pelo segundo ano consecutivo, pode sim estar com sua rentabilidade no limite ou perto disso, por conta da quantidade de players que hoje existem no mercado nacional. E vocês já sabem que quando a “farinha é pouca, sirvam o meu pirão primeiro”.

Outro fato interessante a perceber está na tendência da Yamaha e da Honda, dois grandes e históricos concorrentes no mercado nacional. Os números fechados em 2014 guardaram essa proporção e isso significa que ambos estão apostando em um crescimento de vendas (estão produzindo bem mais que a sua média histórica) em razão de novos lançamentos e nesse campo quem se deu muito bem em 2014 foi a Yamaha que com o lançamento de motos como a Crosser, por exemplo, conseguiu crescer, enquanto sua concorrente caiu 6,15% em relação a 2013, como mostra a tabela abaixo.

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A marola escondia um maremoto…

Sabemos que o Brasil é um grande mercado em potencial para motos, principalmente para motos de alta cilindrada. Ásia e Europa estão praticamente estagnados ou em crise. Porém, depois que a ‘marola’ virou um ‘maremoto’ e a atual crise chegou à economia brasileira por conta do baixo crescimento no PIB por anos seguidos, será possível que o mercado dos que hoje ‘vendem lenços’ comece a ‘lacrimejar’ do meio do ano em diante e com grandes chances de escutarmos alguns ‘choros’ acompanhados de ‘soluços’.

Se as vendas de motos Premium não crescerem a ponto de aliviar a pressão sobre as margens e, portanto, uma melhor rentabilidade, teremos configurada a possibilidade de prejuízo e não se sabe até quando a maioria das montadoras, principalmente de motos premium, aguentará subsidiar seus preços para manter as vendas. Caso uma ‘maré vermelha’ venha a se confirmar, só nos restará aguardar quem será o primeiro a jogar a toalha. Tomara que no fim do semestre todos consigam superar o mau tempo e voltar a navegar em segurança. Até lá perceberemos um sorriso nervoso, carregado de ansiedade, o qual pode deixar o sistema nervoso o suficiente para ir do riso às lágrimas numa fração de segundo.

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Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.