A Boa viagem

A Boa viagem

A Boulevard M800, com injeção eletrônica e suspensão invertida é uma custom muito divertida e diferente

.. O destino está a 700 km de distância. A estrada não é das melhores do Brasil. A partida foi bem mais tarde do que o planejado. Este quadro já seria suficiente para prometer uma viagem bem difícil, não fosse pelo veículo: a novíssima Suzuki Boulevard M800, substituta da Marauder e que é a principal concorrente para a Honda Shadow 750 e Yamaha Dragstar 650.

Se os estilos custom e chopper são marcados pela posição de pilotagem e as rodas dianteiras, como foi explicado no artigo na Shadow 750 no link http://www.motonline.com.br/testes/teste-chopper.html, a Boulevard não se enquadra em nenhuma dessas duas definições, veja bem: a roda dianteira de 16 polegadas poderia classificá-la como custom, mas a posição do guidão, do banco e do pára-lama traseiro lembram uma chopper. E mais: a suspensão dianteira por garfo invertido e a lanterna traseira por leds já remetem a um tuning. Em suma, a Boulevard é uma moto única em seu estilo, que agrada desde o primeiro momento que se põe os olhos nela.

Ninguém fica indiferente à Boulevard. A pergunta mais freqüente é sobre o tamanho do motor. Não acreditam se tratar de “apenas” uma 800. Além disso, o visual preto-total, com poucos cromados fez esta Suzuki parecer a Batmoto, sensação reforçada pelo pára-lama traseiro que tem forte semelhança ao logotipo do Batman. No quesito “embelezador”, a Boulevard também é muito eficiente, já que dificilmente uma mulher (que gosta de moto) deixa de reparar nesta custom de estilo tão chamativo.

Moderna Logo ao me posicionar fiquei procurando pelas pedaleiras. Elas ficam avançadas, como nas custom convencionais. O guidão é menos aberto do que nas concorrentes da categoria e os braços ficam esticados até demais. A pequena distância do banco ao solo (700 mm) me deixa bem à vontade para equilibrar os mais de 300 kg (247 kg só da moto). Os comandos são fáceis de operar, convencionais, com o farol permanentemente aceso e flash de farol alto no punho esquerdo. Na moto avaliada o comando do pisca estava com um pequeno problema e não passava diretamente de um lado para outro. A manete de freio dianteiro tem regulagem de distância para se adaptar a vários tipos de mão e as manoplas são tão macias que até dá vontade de pilotar sem luva, algo impensável. Mas o ideal é usar uma luva de couro fino para aproveitar a maciez das manoplas.

Uma vez posicionado no posto de comando nota-se o belo velocímetro analógico, envolvido por uma capa cromada. Nele estão várias informações no display, como dois hodômetros parciais, o total, relógio de horas (muito útil em uma estradeira). Além disso, há leds de advertência da temperatura, pressão do óleo e sistema de injeção eletrônica. Mais quatro luzes de advertência decoram o painel sobre o tanque: pisca, neutro, farol alto e reserva da gasolina. Uma moldura cromada envolve o bocal e aqui começam as curiosidades do estilo desta moto. O bocal é de desenho moderno, como de uma superesportiva. Junto com a suspensão dianteira invertida esse detalhe confunde os desavisados. Afinal, uma custom com acessórios esportivos?

Ao lado direito, a caixa do filtro de ar em forma de gota lembra imediatamente as custom americanas, só que por trás deste filtro não há carburadores, já que a Boulevard tem injeção eletrônica, um grande diferencial frente às suas concorrentes. Mais abaixo, do lado direito, os canos de escape são desproporcionais. O cano superior é tão longo que supera a linha do pára-lama traseiro! Nem pense em levar garupa com as pernas expostas, pois a chance de queimadura grave é bem grande! As mulheres que usam calças tipo “caçador” ou “capri” devem tomar muito cuidado com as canelas de fora.

Na estrada Nada como uma voltinha de 1.500 km para conhecer a Boulevard. Peguei a Suzuki com apenas 5 km rodados, com a advertência de que se tratava de uma pré-série, portanto, ainda sujeita a algumas regulagens. A chave fica na coluna de direção, junto com a trava, aliás, o melhor lugar para custom. Assim que giro a chave ouço o ruído biiiiiiizzzzzz da injeção eletrônica. O velocímetro “acorda” e o display indica o “check”. Se houver alguma irregularidade ele mostra no visor.

O motor de 805 cc, V2 a 45°, oito válvulas, arrefecido a líquido, libera um som muito grosso, mas silencioso. Quase não se percebe as vibrações e a primeira engata após um sonoro clonc! A transmissão por cardã colabora para o rodar macio e silencioso. Nos primeiros quilômetros ainda tentei me acostumar com a posição das pedaleiras e o guidão. Saí com seis horas de atraso para fazer o trecho São Paulo – Florianópolis (SC), o que projetava um final em plena escuridão. A BR 116 está com bons trechos duplicados, mas a serra de Juquitiba, em pista única é um assassinato federal. Com o volume de caminhões que transportam mercadorias do porto de Paranaguá viajar nesta serra é um exercício de paciência e exige atenção triplicada. Alguns trechos estão em obras há décadas e expõe a dura realidade das estradas estatais.

No primeiro abastecimento, rodando exclusivamente na estrada revelou o consumo de 16,7 km/litro. No segundo trecho, a vontade de chegar e o medo de pegar estrada à noite me fizeram girar o acelerador com vontade e o segundo abastecimento assustou 15,88 km/litro. Foi neste segundo turno da viagem que aproveitei para medir a velocidade máxima e as retomadas de velocidade. O velocímetro registrou 175 km/h de máxima, que corresponde a algo em torno de 158 km/h de velocidade real, considerando o erro médio de 10% do velocímetro. Neste trecho o consumo despencou para 15,8 km/litro graças ao uso exacerbado do acelerador.

Para quem está acostumado às motos custom, o vento nas pernas já é normal. Mas demorou para eu conseguir achar uma forma de manter meus pés firmes mesmo em alta velocidade. O segredo é forçar os pés para a pedaleira e manter as pernas bem fechadas, rente ao tanque de gasolina, sem deixar espaço para o vento jogar as pernas pra fora.

Estabilidade não é o forte das custom por questões de engenharia. Com a grande distância entre-eixos (1.655 mm) e cáster muito aberto, é uma moto feita para longas retas. Mesmo assim foi possível enfrentar as curvas de raio longo – com piso bem asfaltado – com muita segurança. O problema são as irregularidades no asfalto, que desequilibram o conjunto. A suspensão melhorou muito em relação à Marauder, que usava dois amortecedores hidráulicos na traseira. A Boulevard adota um amortecedor, escondido sob o motor, e melhorou muito tanto nas curvas quanto nos buracos. O pneu dianteiro de perfil alto e largo (130/90-16) segura bem a frente nas curvas, mas é preciso muita atenção às pedaleiras que raspam com muita facilidade. No geral, fiquei muito bem à vontade nas curvas, mesmo quando surgia algum balanço, facilmente controlado.

Na cidade No terceiro trecho da viagem, já no pôr do sol, reduzi bem o ritmo e o consumo foi o melhor na estrada, com 18,8 km/litro, o que prevê uma autonomia de 282 km para um tanque de 15 litros. Neste ritmo a luz de reserva acendeu com 240 km rodados. Finalmente escureceu e apesar do forte calor já esperava pegar alguma chuva. O único farol ilumina tão bem que dispensa os habituais faróis auxiliares normalmente visto nas custom. Alguns motoristas em sentido contrário chegaram a reclamar mesmo com o farol baixo! Mais alguns quilômetros e… chuva! Agora sim senti uma tremenda falta do pára-brisa!

Na descida da serra de Paranaguá, foi possível avaliar o bom conjunto de freios. O disco segura bem, mas o acionamento é meio “borrachudo”, característica normal nas custom em função do flexível muito longo. O freio traseiro a tambor pode parecer arcaico, mas em motos custom o cubo de freio a tambor combina mais com o estilo do que o disco. Como a distribuição de freio numa custom é notadamente mais forçado na traseira, o uso do freio traseiro é maior do que em uma esportiva. Mesmo assim, as fábricas preferem manter o tambor. É muito mais uma questão de estilo do que propriamente técnica.

A chegada em Florianópolis, como sempre, é uma sensação muito agradável. A avenida Beira-Mar é uma das mais belas do mundo, com as pistas largas, iluminação clara, os prédios novos e bem distribuídos e a ponte Ercílio Luz totalmente iluminada. É um cartão-postal que merece ser visitado por todos os brasileiros.

Na manhã seguinte, sob o tórrido sol de verão, fui fazer o turismo habitual, com direito à dúzias de ostras e passeios. Ainda cheia de turistas, sobretudo argentinos e paraguaios, o trânsito nas praias mais badaladas mostrou uma faceta cruel da Boulevard: o absurdo calor liberado pelo motor, principalmente quando a ventoinha do radiador entra em ação. Uf! Dá vontade de sair correndo só pra arrefecer o motor e as pernas!

Mesmo com o estilo custom, guidão largo, entre-eixos longo e pesada é possível driblar o trânsito com facilidade. Não é uma 125, mas chega até a surpreender a mobilidade entre os carros. É preciso muita atenção, pois a Suzuki é tão silenciosa que os motoristas se assustam ao vê-la bem ao lado da janela.

Ainda na cidade foi possível avaliar o conforto com garupa. O banco com pouca espuma de fato compromete o conforto, mas a adoção de um apoio tipo sissy-bar ajudaria muito a vida de quem vai atrás. A principal recomendação é com o escapamento, pois como já foi explicado, é longo e muito exposto. O consumo na cidade foi de 18,9 km/litro e a média geral do teste foi de 17,5 km/litro.

Na volta para São Paulo decidi fazer um esticão, parando apenas para abastecer e bati o meu recorde pessoal de Floripa-SP (700 km) em 7 horas e 15 minutos, por conta do tempo bom e do trânsito livre nas três serras. Na verdade, uma crise de cólica por causa de uma intoxicação alimentar forçou um sprint de 700 km quase sem paradas! A velocidade de cruzeiro pode ser facilmente mantida entre 130 e 140 km/h, mas o conforto fica na faixa de 120 km/h.

Felizmente a Suzuki decidiu intervir na Marauder 800, uma das piores custom da sua categoria e o resultado é essa bela e eficiente versão batizada de Boulevard. Foi preciso muito investimento, pois é praticamente uma nova moto e não uma “melhora” da Marauder. As únicas alterações que faria numa Boulevar seria a adoção de pára-brisa, exclusivamente para conforto, pois o estilo dela é perfeito para dispensar esse acessório. Outro seria o encosto do garupa, também por questões de conforto. Como em qualquer custom, eu trocaria o flexível de freio por um com malha de aço, de especificação aeronáutica, para eliminar o efeito borrachudo. E, finalmente, daria um jeito de desenvolver um escapamento com apenas uma saída, menor, mais próximo à balança, por pura questão de segurança, pois do jeito que está é quase 100% de certeza que muitas garupas se queimarão na moto e com o motociclista!

Nesta versão usada no teste um problema na injeção eletrônica aperreou durante toda a viagem. Deu alguma pane no afogador automático e sempre que tinha de ligar, o motor morria quatro vezes seguidas até funcionar normalmente. Da devolução da moto, o mecânico da Suzuki esclareceu que por ser uma pré-série ainda estava em processo de ajustes e desenvolvimento. Espero que encontrem a solução.

Não me peçam para fazer um comparativo entre a Boulevard, Shadow 750 e Yamaha Dragstar, pois basta ler os testes de cada uma e tirar suas conclusões. Depois de rodar nestas três eu optaria pela Suzuki, pelo estilo; pela Shadow, em função do conforto; e pela Dragstar graças à relação custo-benefício. Veja qual a característica que julga mais importante e faça sua escolha. Com certeza a Boulevard mudou muito meu (pré) conceito em relação às custom e até fiquei olhando com ares de cobiça a esta Suzuki. Quando minha barriga estiver tão grande a ponto de não conseguir mais dobrar em cima do tanque de uma esportiva – algo que deve ocorrer em breve – a Boulevard poderá ser uma boa opção. Justiça seja feita: esta Suzuki tem um estilo tão moderno que é o tipo de custom que combina com motociclista jovem, fashion e magro. Pena que faltou um pouquinho mais de desempenho!

Graças ao desenho totalmente único e o preço de lançamento de R$ 32.900 muito competitivo, tanto a Honda Shadow 750 quanto a Yamaha Dragstar 650 terão uma concorrente boa de briga. Além da cor preta, a Boulevard também é oferecida em azul, mas quem resiste ao visual Batmoto?

Suzuki Boulevard M800 Ficha Técnica DIMENSÕES /CAPACIDADES

Tanque de combustível 15 litros

Comprimento

2.370 mm

Largura

920 mm Altura 1.125 mm Distância entre eixos 1.665 mm

Altura do assento

700 mm Distância mínima do solo 140 mm

Peso (a seco)

247 kg CHASSI

Tipo

Tubular, berço duplo de aço

Suspensão dianteira / curso

garfo telescópico invertido, cáster de 33°15´

Suspensão traseira / curso

monoamortecedor Freio dianteiro/diâmetro A disco, com acionamento hidráulico, cáliper de duplos pistões Freio traseiro/diâmetro A tambor/180 mm Pneu dianteiro 130/90 x 16 M/C 67H Pneu traseiro 170/80 x 15 M/C 77H MOTOR

Tipo

SOHC, 4 tempos, arrefecido a líquido, 2 cilindros em V a 45°, 8 válvulas, Cilindrada 805 cm3 Alimentação/diâmetro de venturi Injeção eletrônica Potência máxima

55 HP a 6.500 rpm Torque máximo

n.d. Câmbio 5 velocidades constantemente engrenadas Transmissão final eixo cardã Sistema de partida elétrica

Bateria

12V-10Ah

publicada em 07/03/2006 ……