A Honda CBR 450 sendo preparada para a primeira viagem de moto de Gláucia

A libertação

Por Gláucia Buchala

O ano era 2005 para 2006. Meu marido, que nunca foi motociclista, havia trocado uma NX 150 que usava na chácara onde morávamos, por uma Honda CBR 450. O comichão dele começou aí, com o desejo urgente de pegar uma estrada, porém eu não conseguia entender aquilo. Eu sequer ia na garupa, morria de medo. Nessa época eu estava com síndrome do pânico por stress em último grau e cheguei a ter crises só de pensar em montar naquela moto. Ele, por sua vez, se recusava a ir sem me levar junto.

A Honda CBR 450 sendo preparada para a primeira viagem de moto de Gláucia

A Honda CBR 450 sendo preparada para a primeira viagem de moto de Gláucia

Eu tinha uma amiga virtual em Prudentópolis (PR), e nós conversávamos via MSN todos os dias por 2 anos e ela me convidava muito pra ir conhecê-la. Um dia, meu marido apareceu com uma proposta: – Te levo no Paraná na casa de sua amiga, se você topar ir de moto. Seriam 700 km para alguém que não ia sequer de casa até à cidade naquela garupa.

O marido de Gláucia, responsável pela "cura" de seus medos

O marido de Gláucia, responsável pela "cura" de seus medos

Era tudo que eu queria e precisava naquela época.
Era loucura.
Era desafiador.
Medo, não posso, não vou.
Vontade de vê-lo realizar um desejo, vou tentar.
Vontade de conhecer minha amiga, vou aceitar.

Me preparei em 5 dias, psicologicamente, pois em termos de equipamento não tínhamos nada e sequer sabíamos que precisava dessas “coisas”. Montamos naquela máquina com a cara e a coragem, de tênis, sem luvas, com uns capacetes bem básicos. Ele com uma jaqueta de lã, eu com uma velha jaqueta de couro. Mochila nas costas e uma “frasqueira” amarrada na rabeta da moto. Tô rindo muito neste momento, só de lembrar.

Na bagagem, capinhas de chuva de R$1,99 que ganhamos de brinde (vide foto). A ideia era ir andando até onde aguentássemos, já que não tínhamos noção de nada. Chegamos em Castro (PR) por volta das 16 horas e pegamos uma MEGA chuva. Que bom, estreamos as capinhas, mas opsss, elas não cobrem as pernas??? (rsrsrsrs). Tivemos que dormir por lá, para poder tomar banho quente e trocar de roupa, antes que congelássemos.

Chegamos no dia seguinte e foi mágico, a viagem, conhecer minha amiga, os amigos e família dela fazendo romaria pra conhecer os “loucos de São Paulo”. A cada quilômetro percorrido, eu lá atrás na garupa pensava: Não creio que estou aqui, não creio que estou mesmo fazendo isso. Porque não fiz isso antes???

Meu marido em puro êxtase só dizia: – Obrigado amor… obrigado!

A famigerada capa de chuva de R$1,99

A famigerada capa de chuva de R$1,99

Na volta, ele queria “esticar” até Curitiba e subir pela BR 116 até Peruíbe. Ao pensar na BR 116, silenciosamente tive uma crise de pânico, que foi piorando e me dando a impressão de que eu “cairia” da moto a qualquer instante. Eu tinha a impressão que meus pés escorregavam da pedaleira, tinha falta de ar e suadeiras.

Então pedi para que ele parasse ao chegar em Ponta Grossa. Desci, respirei… Ele disse que subíssemos ali mesmo, no caminho mais curto e voltássemos pra casa. Eu pensei que se desistisse ali a doença ganhava de mim. Decidi seguir em frente, para Curitiba.

De Ponta Grossa até Peruíbe, fiz então “a Viagem mais importante de minha vida”, para dentro de mim mesma! E gostei do que ví…

Esse foi o começo de nossa vida em 2 rodas. Esse foi o final de minha doença e o começo de outra doença… (rsrsrs). Aos 50 anos tirei minha habilitação de moto e hoje piloto ao lado do meu marido (meu mestre, meu incentivador, meu carrasco e meu amor).

Estamos nos preparando há quase 2 anos para ir ao Atacama, viagem que talvez façamos ainda em 2014… e eu vou pilotando.