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A moto e o preconceito (de novo)*

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Quando fui estudar jornalismo (amarrado e debaixo de porrada), j  havia a eterna discussÆo sobre a validade do diploma: os “diplomistas” alegavam que a faculdade dava uma base cient¡fica para evitar que os futuros escribas cometessem erros graves de senso-comum. Por causa desta briga toda fui obrigado a estudar textos de sociologia, antropologia, metodologia cient¡fica, pesquisa, an lise de dados, estat¡stica e um inferno de mat‚rias. Tudo isso para nÆo sair por a¡ escrevendo batatadas sem base cient¡fica.
E aprendi que conclusäes sem base cient¡fica se tornam senso-comum e terminam no preconceito. O preconceito nada mais ‚ do que formar um pr‚-conceito sobre um assunto sem a devida an lise com base cient¡fica.
Tudo isso para dizer que nosso colega e amigo Fl vio Gomes foi preconceituoso ao escrever em seu site warm-up que “motos sÆo perigosas”.  uma afirma‡Æo leviana, uma vez que nÆo tem uma base de dados para confrontar com outros ve¡culos. Seria a mesma coisa que afirmar que negros sÆo potencialmente criminosos porque a popula‡Æo carcer ria brasileira ‚ formada por mais de 60% de negros e mulatos, enquanto na forma‡Æo da popula‡Æo eles representam 18%.
A¡ algu‚m aparece com a melhor das p‚rolas “mas em SÆo Paulo ‚ muito maior o n£mero de acidentes com motos, proporcionalmente ao n£mero de carros”.  outra afirma‡Æo do senso comum, pois enxerga apenas um n£mero e nÆo a base cient¡fica que est  por tr s dos n£meros, uma vez que nÆo sÆo realizadas per¡cias para levantar as causas destes acidentes. Volto ao exemplo dos negros: se analisarmos apenas os n£meros, a conclusÆo falaciosa ‚ que negros sÆo mais chegados ao crime.
Os meios de comunica‡Æo estÆo caindo de pau em cima das motos. O porta-voz desta ignorante campanha chama-se Her¢doto Barbeiro, ironicamente meu ex-professor de hist¢ria da faculdade. Preconceituoso, dogm tico e ignorante total no assunto, Her¢doto faz questÆo de falar mal de motos diariamente, s¢ que circula em SÆo Paulo dirigindo sua perua Kombi, um ve¡culo arcaico, poluidor e que existe em fun‡Æo de um lobby da VW para inclu¡-la como “ve¡culo popular”.
Mas o que me deixou mais triste na declara‡Æo do Flavinho foi com rela‡Æo ao garoto de 9 anos que venceu uma etapa do campeonato brasileiro de motovelocidade na categoria 125. O moleque ‚ um fen“meno. Vi o garoto pilotando e lembrei imediatamente de um cara que tamb‚m vi na adolescˆncia e se chamava Ayrton Senna. O texto do Fl vio ‚ piegas ao afirmar que crian‡as nÆo deveriam correr de moto nem de kart, mas empinar pipas, rodar piÆo, bicicleta e nheco-nheco. Hoje nÆo ter¡amos Michael Schumacher, que come‡ou a brincar na pista de kart do papi aos 4 anos. Nem Valentino Rossi, que j  corria de minikart praticamente rec‚m sa¡do do £tero da mÆe. Nem Alexandre Barros, que come‡ou a correr de ciclomotor aos 6 anos e aos 14 j  pilotava uma Yamaha TZ 250 a 250 km/h em Interlagos. Nem Pel‚, nem Daiane dos Santos, nem qualquer grande atleta, esportista ou piloto, j  que nenhum deles come‡ou a praticar as atividades com 16 anos.
Para continuar, Fl vio comete um deslize imperdo vel ao comparar as motos 125 que correm no Brasil com as 125 do mundial de motovelocidade. As 125 brasileiras sÆo utilit rias, com motor 4T, 12,5 cv, pesam 100 kg e chegam no m ximo a 140 km/h. A 125 do mundial sÆo fabricadas exclusivamente para competi‡äes, tˆm motor 2T, 60 cv, pesam 60 kg e chegam a 220 km/h. O Fiat Palio tem 4 rodas e a Ferrari do Schumacher tamb‚m. As semelhan‡as param por a¡.
O pior mesmo ‚ o preconceito. Motos nÆo sÆo perigosas, mas a forma com que sÆo conduzidas ‚ que traz perigo. Logo depois que Henry Ford popularizou o autom¢vel com o lan‡amento do Ford-T, inevitavelmente come‡aram os acidentes, alguns fatais. Um jornalista (sempre eles) meteu o microfone na fu‡a do empres rio americano e disparou:
– Sr. Ford, o sr. nÆo se sente respons vel pelos acidentes que acontecem com os carros que levam o seu nome?
E Henry Ford respondeu com uma frase que deveria entrar para a hist¢ria como uma das mais perfeitas e realistas da humanidade:
– Meu caro, acidentes nÆo acontecem, eles sÆo provocados!
E sÆo provocados sabe por quem? Por pessoas, nÆo por ve¡culos. Por tr s de todo acidente tem pessoas que cometem algum tipo de erro. At‚ mesmo nas chamadas falhas mecƒnicas ou problemas na pista tem uma pessoa por tr s. Se o administrador da obra nÆo tivesse embolsado uma grana, o asfalto teria 8 camadas e nÆo 4. Se um engenheiro nÆo mandasse soldar uma luva na barra de dire‡Æo de um Williams, como se um carro de F1 fosse uma caixa d’ gua, nÆo ter¡amos lamentado o 1§ de maio de 1994. Pessoas, meu amigo, pessoas ‚ que sÆo perigosas!

*Este texto foi escrito originalmente no site www.gptotal.com.br)