Alugue sua própria moto

Alugue sua própria moto

Na minha coluna À Vista ou Parcelado mostrei alguns conceitos básicos de matemática financeira e dei elementos para vocês avaliarem os financiamentos de motocicletas de forma mais precisa, sem cair no conto do vigário. Agora vamos fazer uma operação de conceito mais complexo, mas perfeitamente viável e fácil de fazer. O conceito é criar uma operação financeira onde o valor de mercado da moto no futuro, quando estiver quitada, seja igual ao valor que você desembolsa hoje, à vista, para adquirir a mesma, ou seja, você só financia a depreciação estimada. Vamos ver como isso funciona.

Se você comprar uma moto 0 KM hoje e ficar com ela por 4 anos (48 meses) ela evidentemente irá se desvalorizar em relação ao modelo 0KM, é o que chamamos de depreciação. Podemos estimar qual seria esse valor hoje tendo como base uma moto idêntica com 4 anos de uso, calcular a diferença para a moto 0KM e financiar apenas essa diferença pelos próximos 48 meses, algo como um “aluguel” mensal pelo direito de usá-la. Parece estranho, mas não é, pois depois de 4 anos você pode vender a moto pelo mesmo valor que pagou à vista (supondo preços estáveis), zerando a operação. Ou seja, você só pagou o “aluguel” dela enquanto usou.

Vamos às contas. Quem tiver dúvida sobre matemática financeira sugiro consultar a coluna citada anteriormente para compreender melhor os conceitos. Primeiro vamos ao quadrinho básico das constantes:

Constantes

TAC

R$ 500,00

Boleto

R$ 4,50

Tx. Juros

1,30%

Renda.Fixa

TAC é a tarifa de abertura de crédito que todo banco cobra para fazer um financiamento. Recentemente eu soube que tem banco cobrando 700 reais ou até mais para isso, o que é um absurdo, pois você verá o impacto que isso tem na sua prestação. As demais constantes são o custo de emissão do boleto bancário cobrado mensalmente, a taxa de juros do financiamento e a taxa de retorno que você teria ao aplicar o valor da moto na renda fixa, caso optasse por não comprá-la.

Todo vendedor de concessionária usa uma tabela de “fatores de financiamento”, já que a grande maioria não sabe operar uma calculadora HP 12C (vocês já sabem por que leram a coluna À Vista ou Parcelado, ainda bem…). Então vamos calcular os fatores abaixo usando a nossa HP virtual:

Digite 1,30 e aperte [i] (a taxa de juros), depois 0 e aperte [FV] (que é o valor futuro, ou seja, zero), em seguida -1 e aperte [PV] (a idéia aqui é calcular o financiamento de um real, para criar o fator. O valor negativo é pra atender o conceito de fluxo de caixa). Para terminar, digite 12 e aperte [N], e em seguida aperte [PMT] sem entrar nenhum valor. Você verá que o resultado é 0,0905 que significa que para cada real financiado em 12 meses com taxa mensal de 1.30%, você pagará pouco mais de 9 centavos de prestação. Agora agradeça a HP por ter feito a 12C tão inteligente e tecle 24 apertando [N] e em seguida o [PMT] novamente para calcular a prestação para 24 meses. O resultado será 0,0488 conforme a tabela abaixo, já que as demais variáveis não mudaram. Repita essa parte do [N] e [PMT] para 36 e 48 meses e chegamos à tabela de fatores que os vendedores tratam como se fosse algo mágico. Pra muita gente isso é coisa de outro mundo.

Meses

Fator da prestação

Custo Mensal

12

0,0905

$ 49,77

24

0,0488

$ 28,89

36

0,0350

$ 21,98

48

0,0281

Na tabela ao lado calculei o custo mensal do financiamento usando o próprio fator que achamos. Sabem o que é isso? É o valor da TAC financiada pelo período em questão, acrescido do custo do boleto. Sim, meus amigos, em financiamentos de 12 meses vocês pagariam 50 reais mensais só pelo direito de financiar, e não estamos contando nem a prestação do bem em si… É só tarifa de abertura de crédito e o custo do boleto.

Não custa lembrar aqui que nem sempre as operadoras financeiras e bancos usam taxas lineares, pois alguns consideram mais arriscados financiamentos de longo prazo e usam taxas maiores nesses casos. E nem sempre a tabela de fatores é igual pra qualquer moto, porque pelo mesmo motivo consideram que o risco do cliente de motos menores é maior do que o risco dos clientes de moto maior. Além do que pobre adora uma prestação, então os bancos aproveitam pra jogar a taxa lá em cima, colocar um prazo muito longo e cheio de taxas pra no final ter uma prestação baixinha… Pobre adora prestação baixinha…

Alguns bancos cobram o IOF diretamente na prestação, outros embutem o cálculo desse imposto da taxa de juros, mas a rigor as contas são essas. Aprenda a fazer os cálculos de trás pra frente para apurar qual a taxa de juros real que está sendo usada no seu financiamento e não ser enganado. É só usar essas 5 teclinhas da HP 12C, santa calculadora!

Por fim vamos pegar 3 modelos que estão em produção desde 2003, um da Honda, um da Yamaha e um da Suzuki, representando uma moto pequena, uma média e uma grande. Peguei os valores pela tabela FIPE, tanto para o veiculo 0 KM quanto para aquele com 4 anos de uso, ou seja, o modelo de 2003 já que estamos em 2007. Nesse exemplo vamos fazer um financiamento de 4 anos (48 meses) da diferença do valor da moto 0 KM com a de 4 anos atrás, de forma que daqui a 4 anos o valor de mercado da sua moto quitada seja equivalente ao que você pagou hoje, à vista. Teoricamente você poderia vender a moto por esse valor e recuperar o que pagou. As prestações pagas foram o “aluguel” dela durante esse período.

Tornado 250

Drag Star 650

V-Strom 1000

Tabela

0KM

$ 11.379,00

$ 26.827,00

$ 45.726,00

FIPE

em 2003 (48 meses)

$ 8.355,00

$ 21.608,00

$ 36.916,00

Valor a financiar

$ 3.024,00

$ 5.219,00

$ 8.810,00

Prestação 48 meses

$ 85,08

$ 146,84

$ 247,88

Custo TAC + Boleto

$ 18,57

$ 18,57

$ 18,57

Valor a pagar

$ 103,65

$ 165,41

$ 266,44

Custo – Renda Fixa

$ (66,84)

$ (172,86)

$ (295,33)

Pegando o caso da Honda Tornado 250, você pode comprar um modelo 2003 por 8 mil e 300 reais aproximadamente ou comprar uma 0 KM pagando 8.300 à vista e financiando o saldo em 48 meses. Esse saldo é seu “aluguel” de 103 reais mensais pelos próximos 4 anos. Vejam: a diferença entre a moto 0KM e a usada é de 3.024 reais, multiplique isso pelo fator de 48 meses da nossa tabela (0,0281) acrescida dos 18.57 reais que é o custo da TAC financiada e do boleto mensal. Pronto, você chegou aos 103,65 reais do seu aluguel pelos próximos 4 anos.

Coloquei como ilustração a linha “Custo – Renda Fixa” que é o valor mensal que você deixará de ganhar por não ter aplicado os 8 mil e 300 reais do valor pago à vista. Fazer esse cálculo é muito simples na HP 12C, use o seguinte: [N=48], [i=0,8] (que é a taxa da renda fixa no quadro lá de cima), [PV=8355], e o mais importante [FV=8355], em seguida aperte [PMT] para calcular o valor.

Vocês devem estar se perguntando por que o Future Value (FV) é igual ao Present Value (PV)? É que nesse caso nós estamos calculando apenas a renda não recebida, já que você tem uma moto hoje e continuará a tendo (se não roubarem…) em 4 anos. Esse cálculo é didático porque na aplicação financeira você tem os juros em cascata, ou seja, os juros ganhos em um mês são base de cálculo para o rendimento do mês seguinte. Há outra forma de fazer esse cálculo que é multiplicar 8355,00 por 0,008 (ou seja, tirar 0,8% do valor) que dá na mesma. Eu só compliquei com essa história de FV e PV pra vocês praticarem na santa HP 12C !

O que importa mesmo é que, seja comprando a Tornado modelo 2007 pelo esquema do “aluguel” ou comprando o modelo 2003 pelo mesmo valor, você vai deixar de ganhar esses 66 reais do mesmo jeito, simplesmente porque tirou os 8.355 reais da aplicação que rendia hipotéticos 0,8% ao mês sem riscos.

Em 2011, quando seu “aluguel” acabar, supondo que a Tornado continuará existindo você terá uma moto usada com valor de mercado equivalente ao que você pagou 4 anos antes, que pode ser vendida ou dada como entrada em um próximo financiamento de 4 anos em troca de outra Tornado 0KM. Supondo também que a depreciação em 2011 seja igual à de hoje (a Tornado 2003 depreciou em 26% em relação a 2007) o próximo financiamento terá valores equivalentes aos de hoje (evidentemente que as taxas podem variar, mas o conceito não muda). Ou seja, em 2011 você pagará outra vez o equivalente a 103 reais para andar de Tornado 250 modelo 2011 zero km por mais 4 anos.

Tudo que você tem a fazer para entrar nesse looping financeiro é abrir mão de pouco mais de 8 mil reais hoje, e do rendimento de 66 reais mensais que você deixou de ter para trocar de moto a cada 4 anos por outra zero km pagando só 103 reais de “aluguel”. Considere então um custo de 170 reais mensais, pra arredondar.

É só isso? Não, infelizmente não.

Como o valor do bem é a base desse financiamento, você não pode perdê-lo em um acidente ou roubo. Seguro então é importantíssimo, mas não é barato. Além disso, há os custos de licenciamento anual que custam cerca de 2% do valor da moto zero. Fazendo contas rápidas o custo anual de seguro e IPVA seria da ordem de 12% do valor dessa Tornado (não o que você financiou, mas o valor do bem total, os tais 11 mil e 300 reais), que dão coisa de 1365 reais anuais, ou 113 reais mensais. É preciso incluir nessa conta uma estimativa de quilometragem para calcular o custo médio de combustível e a manutenção prevista, como a troca de pastilhas, pneus, óleo, filtros, etc. Esse cálculo eu vou deixar pra vocês, mas é muito interessante no final desse processo apurar quanto custa o KM rodado. Isso pode ajudar na decisão de qual moto comprar.

Tenho certeza que alguns aqui já perceberam algumas coisas: há veículos que depreciam mais do que outros, e isso encarece o financiamento. Há modelos que tem garantias mais longas (alguns automóveis importados tem garantia total de 3 anos), o que justificaria “casar” o financiamento com o período da garantia para reduzir o custo do KM rodado. O seguro vai ficando percentualmente mais caro com o passar do tempo, além do que um seguro de 10% ao ano equivale ao pagamento de um veículo novo a cada 10 anos, portanto o ideal é buscar modelos com taxas de seguro mais baixas. Se você pretende em 4 anos andar 80 mil quilômetros com a moto, além do combustível você terá que gastar com algumas peças que se desgastam naturalmente, portanto dependendo do custo dessas peças seu custo mensal será maior ou menor. Quer uma dessas? Faça as contas e alugue uma delas por 103 reais mensais.

Ou seja, existe um “ponto ótimo” nessas opções, que é financiar aquela moto que deprecia pouco, tem garantia longa, seguro baixo, custo baixo de peças de manutenção, etc. Quanto mais distante desse ponto ideal, mais cara percentualmente é a prestação do nosso “aluguel”.

Lembre-se que a diferença de preços entre você ter uma Tornado velha, de 2003, pelos próximos 4 anos e uma zero km no esquema do “aluguel” são só os tais 103 reais da prestação: No resto é basicamente o mesmo: os 66 reais de renda mensal que você irá perder pelos 8.300 reais que tirou da aplicação em qualquer um dos casos. Já um provável custo por quilometro rodado maior na moto mais velha, em virtude dela não estar mais em garantia e ter várias peças já com desgaste pode ser compensado pelo custo menor do licenciamento anual, já que o valor base é menor. A grande diferença é o seguro, mas isso é responsabilidade sua e da sua consciência.

Só pra vocês terem uma idéia, o valor do consórcio em 50 meses da Tornado 2007 é de 272 reais ou um pouco mais, já que o valor do crédito (R$ 11.224,00) está abaixo do valor da FIPE que eu usei para o nosso cálculo. Se por um lado não é preciso desembolsar os 8.300 reais à vista, e consequentemente nem abrir mão do rendimento de 66 reais da aplicação desse dinheiro, por outro você precisa ser contemplado para retirar a moto antes do final do prazo. Eu não gosto de pagar e não ter.

Está com a HP 12C em mãos? Então faça a conta do financiamento integral de R$ 11.224,00 por 50 meses usando a taxa de 1.30% e o custo fixo de 18 reais por prestação: se deu 324,69 reais é porque você acertou na conta. São 52 reais por mês para você não ter que depender de lance, sorteio ou de qualquer outra manobra no consórcio. Gostou? Então calcule a taxa de juros ideal para que a prestação seja igual ao valor do consórcio?

Se você achou algo em torno de 0,80% ao mês, é porque a conta está certa. Será coincidência a taxa ser a mesma da renda fixa atual?