Amor aos pedaços

Nesta semana recebi mais uma daquelas mensagens chocantes de acidentes graves envolvendo motociclistas com motos esportivas. Normalmente esse tipo de imagem nÆo me assusta mais, por‚m a freqˆncia me alertou: foi o quarto no per¡odo de 30 dias. Uma m‚dia de um por semana. Isso sim, preocupa. A exemplo do que j  acontece em SÆo Paulo, essa violˆncia pode descambar em uma ca‡a … bruxas. E as bruxas, neste caso, somos todos n¢s, que usamos a moto de forma prazerosa e consciente.

Vocˆ nunca ver  nenhum artigo sobre acidentes nas revistas especializadas. Porque existe um grande tabu na imprensa especializada. Segundo as revistas motociclistas nÆo sofrem acidentes. Uma grande besteira, resultado de uma filosofia tÆo hip¢crita quanto antiga e que precisa ser mudada. Motociclistas caem sim, se acidentam gravemente, perdem membros, ficam com seqelas irrevers¡veis e, principalmente, morrem! Mas cadˆ a coragem de tocar nesse assunto? At‚ parece que a morte nÆo faz parte das nossas vidas.  algo que s¢ acontece com os outros. EntÆo deixa que eu escrevo!

O festival de carnificina que recebi no prazo de 30 dias foi de enjoar at‚ dono de a‡ougue. Quatro acidentes, todos com motos esportivas de grande cilindrada, todos em alta velocidade e 75% deles fatais. O mais impressionante deles me assustou nÆo s¢ pela violˆncia das cenas, mas pela revela‡Æo de uma certa epidemia de curiosidade m¢rbida pela internet. As imagens correram o Brasil e o mundo em velocidade compat¡vel com a dessas motos. Pobre do amigo que me mandou as fotos, porque recebeu um esculacho de volta e a promessa de nÆo mandar mais. S¢ que logo depois outro leitor me mandou novas fotos de um acidente recente e outro motociclista despeda‡ado.

O elemento em comum nestes acidentes ‚ o absurdo despreparo das v¡timas para pilotar essas motos. Cada vez mais as motos esportivas podem ser comparadas …s armas de fogo. Quem tem quer usar! Ningu‚m – acho que sou a £nica exce‡Æo – compra uma arma de fogo pra ficar olhando pra ela. Definitivamente nÆo nasci pra ter armas porque tenho medo de atirar. Tamb‚m sou capaz de ficar com uma moto esportiva durante o final de semana sem sentir uma necessidade vital de rodar acima de 200 km/h. Quem me conhece sabe disso e at‚ brigam comigo porque sou muito lento!

S¢ que nem todo mundo que compra uma esportiva tem o necess rio preparo. Desde que montei o curso SpeedMaster de pilotagem, em 1999, j  vi as mais incr¡veis situa‡äes. Cheguei a receber liga‡Æo de uma pessoa que comprou uma 1.000cc esportiva sem nunca ter pilotado moto alguma ao longo da vida. Imagine 160 cavalos nas mÆos de quem nunca rodou nem com uma moto de 10 cv!

Hoje quem tiver R$ 50.000 na conta e quiser um ve¡culo que se aproxime dos 300 km/h s¢ precisa comprar uma esportiva. Mais nada. NÆo precisa provar nada. NÆo precisa fazer um teste psicot‚cnico, nem de uma carta especial. Basta usar a mesma habilita‡Æo feita com uma moto de 12,5 cv e 120 kg, dentro de um ambiente fechado e sem passar da primeira marcha. Se conseguir passar nesse teste j  pode ter uma moto de 190 cv e 170 kg capaz de atingir 320 km/h. O resultado dessa pol¡tica de trƒnsito ‚ a carnificina que vi em quatro acidentes.

Vou descrever apenas um. O motociclista bateu tÆo violentamente no guard-rail que seu corpo foi fatiado ao meio. Tronco prum lado, a cintura pra baixo foi parar a alguns metros. E teve gente que condenou o guard-rail! NÆo acredito! O cara se espatifa a mais de 250 km/h na estrada e querem condenar a estrada!  o festival de hipocrisia.

Em outro acidente, um empres rio do Paran  morreu depois de sair da pista em alt¡ssima velocidade sem bater em nada. NÆo tinha guard-rail, mesmo assim morreu de politraumatismo. Era jovem e dono de um hospital. No outro acidente, no interior de SÆo Paulo, um delegado rodava em alta velocidade dentro da cidade quando um motorista decidiu entrar no posto de gasolina. E no mais recente, tamb‚m no Paran , um jovem bateu de frente com um carro e conseguiu sobreviver, mas teve uma perna e um bra‡o amputados! Total falta de preparo e maturidade para pilotar motos esportivas.

E se ilude quem pensa estar seguro correndo na pista, porque nesse per¡odo tamb‚m morreu um piloto em Interlagos durante um desses “cursos” ao bater na Subida do Caf‚, ponto que venho condenando h  mais de 10 anos e que j  provocou a segunda v¡tima em menos de trˆs meses. O piloto de Stock Cars, Rafael Sperafico, morreu em dezembro do ano passado neste mesmo ponto.

Da mesma forma que ‚ preciso passar por um rigoroso exame para pilotar aviäes – e tirar o brevˆ – as motos esportivas precisam ser encaradas como ve¡culos especiais, diferentes das pequenas 125 e 250 cc usadas nos exames de habilita‡Æo. E os cursos de pilotagem nÆo devem se limitar a ensinar a “correr”. Precisam levar a esses motociclistas a consciˆncia e a vivˆncia da pilotagem segura. Colocar um piloto sem experiˆncia para rodar numa pista como Interlagos ‚ arriscado demais. Eu mesmo dei aulas em Interlagos e parei depois de perceber o quanto a pista ‚ perigosa para iniciantes. Quando escrevi no site GPtotal, alguns anos atr s, que Interlagos era uma pista condenada e perigosa teve leitor que quase me linchou. Agora temos dois cad veres para expor aos que chegaram agora e se consideram aptos a palpitar sobre seguran‡a. E podem anotar: vai morrer mais piloto de moto em Interlagos se nÆo modificarem alguns pontos da pista!

De volta …s estradas. Quando algu‚m compra uma moto esportiva todo mundo sabe que, l  no fundo, a id‚ia ‚ correr! E nÆo venham tentar me convencer do contr rio porque estou nisso h  10 anos. NÆo cheguei agora. Sempre tem aquele que comenta: “comprei por causa do estilo”. Mentira deslavada! Comprou porque quer saber como ‚ a sensa‡Æo de rodar a 300 km/h.

·s vezes me sinto respons vel por essa correria porque escrevi in£meros testes contando em detalhes como ‚ gostoso ter 180 cv debaixo das pernas. J  viajei com grupos de motos esportivas (que chamamos de Jaspions) e at‚ mostrei no filme “Alma Selvagem”. E inocentemente acreditei que meu discurso pr¢-responsabilidade atingiria os donos dessas motos. Triste ilusÆo! Bastou um passeio pela regiÆo de Morungaba, interior de SP, para descobrir que estÆo pouco se lixando para esse papo de pilotagem segura. Eu vi motociclistas ultrapassando caminhäes pelo acostamento a mais de 200 km/h. Pra mostrar o quˆ? Coragem? T‚cnica? Bra‡o? NÆo reconheci nenhum grande piloto nessa turma. Porque os pilotos de verdade nÆo correm na estrada. Pilotos de verdade correm na pista.

Quando eu estava nas revistas especializadas tentei impor uma norma de conduta de evitar a exposi‡Æo exagerada de velocidade nos testes de esportivas. Manobras como empinar, RL, curvas “radicais” na estrada, mas acho que o peso dos meus quase 50 anos de idade resultou apenas em ser chamado de “velho”. Por isso, aqui vai um recado: quando vocˆ vir fotos de pilotos de teste como Eduardo “Minhoca” Zampieri (revista Moto), Leandro Mello (Duas Rodas), Pablo Berardi (Motociclismo), Jean Calabrese (Moto Adventure) ou Laner Azevedo (Moto Max) saiba que todos eles sÆo pilotos mesmo, com experiˆncia em competi‡äes, que treinam regularmente e fotografam em ambientes preparados. NÆo tente imit -los, principalmente na estrada, porque nÆo agento mais receber imagens do objeto do nosso amor aos peda‡os.