Andamos nas novas Harley Davidson 2007

Andamos nas novas Harley Davidson 2007

As ruas de Campos do Jordão ficaram assim…

Eu não sou piloto profissional nem testador de motos, aliás nem me considero um grande motociclista apesar de ter motos a pelo menos 15 anos, por isso a visão que vou passar pra vocês aqui é mais uma visão de usuário (afinal eu tenho uma Harley…) do que uma visão profissional sobre os novos modelos. Falando em Harley, já comentei aqui sobre a grande novidade da linha 2007 na minha coluna de 23 de julho , publicada assim que a linha foi anunciada e por isso não vou me alongar nas características do novo motor nem da nova injeção.

De forma resumida, o novo motor tem uma capacidade cúbica maior (96 polegadas cúbicas, contra 88 do modelo anterior, ou 1584cc contra 1450cc) em função da troca do virabrequim, agora com maior curso, e a injeção eletrônica agora conta com um sensor de oxigênio no escapamento, permitindo ao módulo fazer pequenas correções em função do combustível ou da altitude onde se roda com a moto. É importante dizer que esse sensor tem uma ação bem limitada, com uma faixa de ajustes pequena, não dá pra esperar que ela sozinha resolva os problemas de conversão da gasolina americana para a brasileira, portanto ainda é necessário “tropicalizar” os mapas da injeção.

Essas mudanças trouxeram mais potência ao TC96, embora a fábrica não divulgue o número exato, sabemos que aumentou o torque em 17% dentro da mesma faixa de rotação (entre 3000 e 3500rpm). Fora isso, o TC96 traz um novo câmbio de 6 marchas (o antigo era de 5 marchas) onde a sexta é uma “overdrive”, bem longa. Esse novo câmbio supostamente é mais silencioso que o anterior e tem uma embreagem mais leve (segundo a fábrica 7% mais leve que a 2006, que por sua vez já era bem mais leve que as 2005 e anteriores). Infelizmente não pude testar a moto em sexta marcha porque o circuito que tínhamos a disposição era urbano, com algumas ladeiras, mas deu pra perceber algumas coisas que vou detalhar pra vocês, mas antes preciso passar a vocês algumas referências para comparação.

A Harley divide suas motos em cinco famílias, a Sportster, a Dyna (que não está disponível no Brasil), a Softail, a linha Touring e por último a VRSC onde se enquadram todas as derivadas da V-Rods, que infelizmente não foram levadas para o evento. Falando no motor TC96, ele está disponível aqui no Brasil na linha Softail e Touring 2007 com pequenas diferenças entre elas. Minha moto pessoal é uma Electra Glide 2006 com o antigo motor TC88 que vai servir de parâmetro para essa análise já que eu andei alguns tempo com ela totalmente original, depois mudei os escapamentos e o filtro de ar para por fim fazer um upgrade completo no motor (que será alvo de uma coluna em breve).

O antigo modelo 2006 da HDI (Harley Davidson International, que é ligeiramente diferente da HD americana) tem um escapamento com som de fusca, horrível, e é a primeira coisa que um proprietário da linha Touring 2006 troca na moto, junto com o filtro de ar mais livre (linha Screaming Eagle, lavável, dizem que usa elemento da K&N) que promete render 10 HP a mais no motor original se a EFI fosse recalibrada para a nova proporção de ar que entra no motor. Infelizmente a Harley Brasil não oferece mapas para recalibrar a injeção, coisa que é comum lá fora quando se compra um kit de performance.

É necessário, então, comprar um Race Fueler ou Race Tuner (vejam a coluna Injeção é Moleza! do dia 10 de julho) e calibrar por sua conta a EFI. Confesso que fiquei aborrecido por ter comprado uma moto 2006 poucas semanas antes da linha 2007 ser anunciada e mais ainda por ter que gastar dinheiro em um escapamento novo e um dispositivo para regular a EFI, por isso estudei muito se valia a pena investir nos kits de performance disponíveis para 2006, uma vez que a Harley Brasil mantém a garantia da moto (2 anos) com os kits originais instalados na concessionária, ou se valia mudar para a 2007 com o “novo motor”. Optei por instalar o kit que transforma o TC88 para 1550cc (TC95 Stage II) com um comando de válvulas diferenciado (SE-204 da linha Screaming Eagle) mantendo garantia integral. Pretendo detalhar essa experiência em outra coluna, mas o que eu queria mostrar aqui é que eu viajei para Campos do Jordão com uma moto bem modificada em relação a original, com a injeção calibrada, e consequentemente uma potência bem mais alta do que se obtém em uma Harley de fábrica.

Isso posto, a primeira moto que fui testar foi justamente a Electra Glide 2007 com o novo motor, uma maneira rápida de atestar se fiz um bom negócio em mexer na minha, e assim que liguei a moto já deu pra reparar que o som de fusca sumiu. Finalmente as Harley HDI estão saindo de fabrica com um escapamento digno da marca, com barulho de Harley mesmo. Acredito que os compradores da linha 2007 tenderão a manter os escapamentos, ao contrário dos modelos anteriores. Outra boa surpresa é que a embreagem está realmente mais macia, melhor do que a original 2006 e bem melhor do que a minha modificada (que teve o diafragma trocado por causa do incremento de potência, e ficou mais dura). Porém, ao andar com a moto a surpresa foi ligeiramente negativa: o motor é realmente mais forte do que o TC88 original utilizado até 2006, mas a diferença é pouco perceptível. Nota-se que o torque em baixa melhorou, mas não é algo que você se surpreenda afinal ele já era bom antes e ficou um pouco melhor apenas. Quanto ao câmbio eu não tenho opinião formada, pois só pude utilizar até a quarta marcha e não notei diferenças que merecessem um comentário.

A Deluxe em primeiro plano, seguida pela 883R e mais ao fundo, com os faróis acesos a Electra Glide, as três motos que tive a oportunidade de andar.

Para quem pensava que a linha 2007 tinha um “super motor” e um “super câmbio”, o impacto percebido foi muito pequeno e receio que eu tinha de me arrepender por ter comprado uma 2006 pouco antes do lançamento da 2007 sumiu. A minha EG 2006 “mexida” é bem mais forte do que a 2007, é bem mais “brava” nas reações, tem mais torque e potência em todas as faixas de rotação (graças ao novo comando SE-204) e se não fosse pela embreagem mais dura, eu diria que é uma modificação quase que perfeita para quem já tem uma Harley e não está disposto a vender para pegar uma 2007. Se é pelo motor, dá pra resolver isso gastando relativamente pouco, mas por outro lado o novo TC96 da 2007 permite chegar ao TC103 (praticamente 1700cc) com o mesmo custo do upgrade do TC88 para TC95 graças ao virabrequim de maior curso, ou seja, deixaria a minha comendo poeira do mesmo jeito…

Depois da Electra Glide, peguei uma da linha Softail para dar uma volta, mais especificamente a Deluxe (lindíssima, uma das Harley mais bonitas para quem gosta do estilo clássico), que logo me chamou a atenção por ser incrivelmente leve perto da Electra Glide. A Deluxe não tem carenagem, não tem as malas típicas da linha Touring, mas me parece que a grande diferença está no quadro, bem mais leve do que a estrutura robusta usada nas Electra Glide e nas Road King. Pra quem sai de uma moto imensa como a Electra Glide e passa logo em seguida para a Deluxe ou qualquer outra da linha Softail, a sensação é de estar montado em uma moto de cilindrada muito menor, e talvez por isso o motor se mostrou mais presente. O desempenho é muito bom nesse conjunto mais leve, o som é bem gostoso (o escapamento é diferente da Touring, mas também muito bom) e a moto ficou bem esperta, contrastando com seu estilo clássico retrô que passa longe da impressão de boa performance. Colegas que andaram na Fat Boy (também da linha Softail) tiveram a mesma boa impressão. A embreagem macia, o câmbio fácil, o motor forte lembrando um V8 americano, tudo isso junto com o belo visual da moto formaram um conjunto espetacular, capaz de torcer o nariz de quem prefere as cópias japonesas.

Assim que deixei a deliciosa Deluxe, passei para a Sportster 883R que tem um visual de corridas “Dirt Track” bem interessante, e bem diferente do gosto tradicional brasileiro. Não há no Brasil nenhuma moto parecida que possa servir de comparação. Apesar de ser uma Harley, não dá pra comparar com as customs japonesas que temos aqui (como a Drag Star, Shadow ou Boulevard) porque a 883R é uma moto única, e definitivamente não é uma custom.

A sensação é de estar pilotando uma bicicleta motorizada comparando com as duas motos anteriores, bem maiores, e a direção leve demais me passou certa insegurança no início, mas bastou algumas curvas para me acostumar. Eu nunca havia andado em uma 883 antes, mas já tive uma Drag Star e já andei nas outras customs da mesma faixa de preços por isso não me restam dúvidas: a 883 é a que tem o motor mais forte de todas em uso urbano, mais forte até que a Boulevard 800. Por outro lado, falar do visual da Sportster é arrumar briga na certa, pois tem gente que adora e tem gente que odeia. Eu achava a 883R linda até montar nela, quando me senti sentado em cima de um grande motor dentro de um quadro minúsculo, com suspensões antigas e um tanque de gasolina estranhíssimo de tão estreito. Já a Sportster 883 Custom, que antes eu nem gostava tanto, já me é bem mais confortável na posição de pilotagem e talvez por isso seja a preferida entre os que estão iniciando no “mundo Harley”. Quanto ao motor, não há o que falar, não é a toa que a BUELL o utiliza como base (*) em todos os modelos anunciados no Brasil.

Não dá pra falar de Harley sem falar do HOG (Harley-Davidson Owners Group) e dos eventos organizados por esse clube com mais de 2.5 milhões de associados no mundo inteiro. O encontro em Campos do Jordão recebeu 800 motos na semana de 2 a 5 de novembro vindo de vários lugares, desde o sul do país incluindo uma grande massa de São Paulo até gente de Salvador, todo mundo vindo de moto!

Eu saí do Rio de Janeiro um dia antes porque precisava passar na casa de um parente em Resende, e de lá segui no dia seguinte para Campos do Jordão separado do grupo do HOG que vinha do Rio de Janeiro. Ao chegar em Taubaté pela Dutra, vi sobre o viaduto da Carvalho Pinto uma fileira de motos passando, e como tinha moto! Entrei no entroncamento onde a policia rodoviária federal estava bloqueando a passagens dos carros e entrei no primeiro “buraco” que encontrei. Os batedores nos acompanharam até Campos do Jordão, bloqueando todos os cruzamentos e deixando a pista livre para nós, e acredite, não havia como calcular a quantidade de motos no comboio. Mesmo quando a visão era livre não dava para ver o início nem o fim do grupo, eram centenas de motos andando lado a lado ao som do ronco dos motores e minha esposa enlouquecida tirava fotos sem parar. Não há como não se emocionar, e essa imagem ficará na minha lembrança por muito tempo ainda.

Não existe entre as japonesas nada parecido com o HOG, e se alguns ainda citam características mecânicas antigas ou supostos “defeitos” nas Harley (e eu sei que eles existem) a fim de justificar a preferência pelas custom japonesas, vocês não sabem o que estão perdendo…

Juntar a turma toda para a foto oficial não foi fácil, a caminhada desse ponto até o local da foto é longa, e tinha moto para todo lado.

(*) O motor 883cc da linha Sportster é a base para os modelos 1200cc da Harley (com pistões maiores) e com mudanças no cabeçote e comando de válvulas equipa as BUELL. Há kits de conversão de 883cc para 1200cc disponíveis a custos competitivos.