A complexidade de uma motocicleta e sua dinãmica não podem ser resumidas em uma simples tabela - Sua análise tem que ser profunda e deve-se levar em conta os seus objetivos e referências para comparações

Aprenda a fazer comparações técnicas

A avaliação da Kawasaki Z800 pelo leitor Rogério Valente publicada no Motonline comparou o peso de duas motos cujos dados estavam calculados por métodos diferentes. Por isso é muito importante antes de fazer comparações, entender os números de cada moto e como eles foram obtidos. Afinal, não são poucas as informações técnicas.

A complexidade de uma motocicleta e sua dinâmica não podem ser resumidas em uma simples tabela; a análise deve ser profunda e é preciso levar em conta os seus objetivos e referências para comparações

A complexidade de uma motocicleta e sua dinâmica não podem ser resumidas em uma simples tabela; a análise deve ser profunda e é preciso levar em conta os seus objetivos e referências para comparações

Peso Líquido, Peso Bruto, Hp, Kgf.m, N.m, CV, RPM, chassi de tubos de aço cromo molibdênio, chassi de tubos de aço alto carbono, chassi de alumínio fundido, chassi de tubos em treliça, suspensão monoshock, garfo invertido, garfo convencional, centro de gravidade, suspensão monobraço, suspensão em quatro braços, cabeçote DOHC, OHC, 2 válvulas,  4 válvulas, taxa de compressão, 5 ou 6 marchas e por aí vai numa lista com inúmeros dados.

Chassi da Kawasaki Z800

Chassi da Kawasaki Z800

É muita coisa para acompanhar no desenvolvimento da tecnologia e as novidades são frequentes. E ainda assim, depois de alguns anos tudo pode mudar. Depois que uma nova tecnologia é implantada, ou ela “pega” fazendo uma escola ou ela cai em esquecimento. Para cada modelo de moto, cada fabricante usa de técnicas e recursos produtivos que proporcionam determinado custo que obtém um certo benefício, que vai repercutir no preço final do produto e no agrado que ele faz ao consumidor.

Na verdade cada marca, ou melhor, cada projetista segue uma linha própria, que pode resultar em um projeto melhor ou pior que outro. Porém, há que se ter cuidado ao verificar as especificações de um ou outro modelo, porque mesmo uma tecnologia mais “desenvolvida” pode não ser por si só uma vantagem.

A construção de um chassi de alumínio fundido pode enganar alguém menos familiarizado com o assunto. Em termos práticos, é possível afirmar com total segurança que a estrutura de um chassi de alumínio fundido é mais resistente a torção, flexão ou outras forças do que um outro chassi construído em tubos? Certamente não. Seria muito simplista dizer isso. Muitos outros fatores devem ser levados em consideração. Ademais, o sucesso das Ducati e outras marcas italianas que defendem esse processo comprovam isso.

Motor da CB 1000 faz parte do chassi

Motor da CB 1000 faz parte do chassi

Mas em números simples, pode-se determinar se um modelo é melhor do que outro simplesmente pela relação peso-potência, capacidade de tração, ciclística mais rápida ou mais lenta, distância entre-eixos, tipo de suspensão, freios monoblocos em fixação radial? Também não e é preciso muito cuidado. De novo, as variáveis são muitas e há interferências múltiplas entre elas. Olhando os números pode-se ter uma ideia e mesmo assim, apenas quando esses números mantiverem uma relação direta entre eles, porque as inter-relações são múltiplas. Então as conclusões devem ser verificadas em testes dinâmicos.

Os produtos lançados no Brasil, Europa ou EUA, são normatizados para cada país em questão. Além das diferenças intrínsecas a cada produto, as especificações de peso na Europa, por exemplo, são feitas com todos os fluidos preenchidos e em condição de uso normal da moto. Contudo, na Alemanha esses fluidos podem ser preenchidos em até 70% do nível máximo. Dependendo da agência regulamentadora de cada país, os valores podem não formar parâmetros de comparação e apenas em alguns casos é possível a conversão.

Outro exemplo: a medida de torque da Honda CB 1000R à venda no Reino Unido está especificado em 100 Nm a 8.000 min-1 (norma 95/1/EC), ou seja em Newton-metro, mas no Brasil a fábrica especifica em 10,1 kgf.m a 7.750 rpm. Veja que em termos absolutos a conversão resulta em 10,1936 Kgf.m (1 Kgf.m = 9,81Nm) mas a rotação está 250 rpm a menos. Quais ourtras modificações explicam essa diferença? Essa pergunta fica sem resposta.

O peso da Kawasaki Z800 lançada na Europa está identificado em 229 kg no modelo standard e 231 kg com ABS. Embora esse valor esteja expresso em Kg, a forma de medir é distinta da forma que a Honda mede o peso de suas motos no Brasil. Aqui, na ficha técnica da CB 1000R fabricada em Manaus o seu peso está registrado em 204 kg no modelo STD e 208 kg no modelo com ABS. Em termos numéricos essa medição mostra a Honda sem ABS pesando 25 kg a menos que a Kawasaki Z800 sem ABS. Ocorre que a Kawasaki fez a sua medição pelo método “Kerb Weight” onde se adicionam todos os fluidos necessários para operar a motocicleta ao nível máximo e a Honda fez a medição pelo método “Peso seco” em que a moto não está ativada para uso. Ela não tem fluidos (óleo do motor, gasolina, líquido de arrefecimento, bateria, chave e ferramentas).

Z800 e CB 1000R: duas motos concorrentes, mas com dados e especificações obtidos por métodos diferentes

Z800 e CB 1000R: duas motos concorrentes, mas com dados e especificações obtidos por métodos diferentes

No Reino Unido, a Honda que é vendida lá tem o peso de 222 kg (108 kg na roda dianteira e 114 kg na roda traseira) no mesmo tipo de medição, Kerb Weight. Agora a diferença de 25 kg diminui para apenas 7 kg. Mas note que se adicionarmos um piloto de peso médio 75 kg, o peso do conjunto da Honda na Inglaterra vai para 297 kg e na Kawasaki esse total vai para 304 kg. Portanto a diferença de 7 kg no contexto da massa total do veículo Honda Inglês está apenas em 2,35% a mais na Kawasaki. Isso é bem pouco para qualquer conclusão final, sem verificar outros parâmetros. E também não levamos em conta as modificações que seriam necessárias para se colocar a Z800 no Brasil, porque além do método de medição há também outras modificações na CB 1000R feita em Manaus.

Como se vê, a avaliação de uma moto depende de muitos fatores e além de tudo deve-se olhar a finalidade do uso do produto. Para quem ele foi construído, em que mercado será comercializado e em que contexto as medições foram feitas. Aí sim é possível fazer comparações corretas e precisas, com base em dados verdadeiros.