Vida nas mãos

As mãos que escrevem

Vida nas mãos

Vida nas mãos

Estava escrito que ele nasceria num lar modesto que lhe proporcionaria uma vida simples, mas maravilhosa.

Não estava escrito que, ainda bem pequenino, não perceberia a presença num dado momento, e ausência num outro, de adultos que fariam falta no restante da sua vida.

Estava escrito que seria parte da molecada na rua todo o tempo, quando a violência era reconhecida somente em filmes de gangsters, cowboys e histórias de guerra e revolução.

Não estava escrito que teria a estranha sensação da perda de amigos na infância tão precocemente.

Estava escrito que mesmo já tendo irmãos, viveria a feliz chegada de mais um irmão e uma irmã caçula.

Não estava escrito que aos quatro anos de idade levaria o primeiro tombo num veículo de duas rodas.

Estava escrito que sairia ileso deste acidente agarrado ao “pneuzinho” de estepe de uma lambreta.

Não estava escrito que presenciaria toda a agonia do seu pai por este primeiro e último vacilo, o de levar os três filhos mais velhos juntos pra uma “inocente” voltinha.

Estava escrito que, como quase todo moleque do interior, se tornaria um exímio construtor de pipas, papagaios e afins.

Não estava escrito que entraria na escola e reduziria demasiadamente a molecagem na rua.

Estava escrito, imperceptivelmente e por isso a contragosto, que teria acesso a um conhecimento com qualidade no ensino público.

Não estava escrito que perceberia o lento afastamento de amigos que os pais não davam tanta importância aos estudos.

Estava escrito que encontraria novas amizades e descobriria que o mundo era maior que as fronteiras do seu bairro.

Não estava escrito que passaria a perceber que a dura labuta dos seus pais pra lhes proporcionar uma vida modesta, mas digna, era muito sacrificante.

Estava escrito que entenderia algum tempo depois que aquilo era a coisa mais importante e principal razão da vida deles.

Não estava escrito que no momento que eles poderiam começar a colher alguns frutos, o destino os transformariam em órfãos de pai.

Estava escrito que a mãe deles seria muito forte e guerreira pra seguir em frente, e sozinha, na criação dos seus filhos.

Não estava escrito que era permitido a estas crianças e jovens começarem a viver sem a austera, mas justa e doce presença paterna.

Estava escrito que, independente de quaisquer quereres, a vida simplesmente segue o seu rumo, incondicional e continuamente.

Não estava escrito que o mundo também seguiria normalmente em frente, sem se importar com as suas dor e dificuldades.

Estava escrito que viveria na adolescência, em companhia de amigos como irmãos, a mais doce influência da contracultura, paz e amor e Woodstock, em puro rock and roll.

Não estava escrito que está forte influência na adolescência permearia o sentido do seu viver por toda a sua existência.

Estava escrito que a dedicação aos estudos poderia ser a melhor, senão a única, chance de lhes proporcionar melhores oportunidades na vida.

Não estava escrito que um dia ainda muito jovem precisaria partir em busca destas oportunidades.

Estava escrito que descobriria que o trabalho duro e honesto pode não nos tornar rico, mas que com ele conseguimos sempre sobreviver pelas nossas próprias mãos.

Não estava escrito que a primeira paixão da sua vida se tornaria a única por toda ela.

Estava escrito que o primeiro amor da sua vida se tornaria o único por toda ela.

Não estava escrito que seria possível duas paixões paterna surgirem nele precocemente e de forma tão arrebatadora.

Estava escrito que mudaria o seu olhar sobre o mundo pelas lentes de uma máquina fotográfica e um velocímetro no meio do guidão entre dois espelhos.

Não estava escrito que um motociclista “veloz e habilidoso” sofreria as duras penas de alguns acidentes.

Estava escrito que um motociclista “jovem e impetuoso” sofreria as duras penas de alguns acidentes.

Não estava escrito à época que um jovem casal protagonizasse um “Easy Rider” por muitas centenas de quilômetros em lua de mel sobre duas rodas.

Estava escrito que estas aventuras e paixões seriam as causas do tão recentemente citado triângulo amoroso entre estes enamorados e a motocicleta.

Não estava escrito até onde a mente daquele moleque construtor de pipas, carrinhos de rolimã e outras engenhocas poderia levá-lo.

Estava escrito que esta eterna busca do novo o levaria as alturas, literalmente, e a provar que fazer voar é bem mais difícil que voar.

Não estava escrito que a vida seguindo, e a família crescendo, os levariam a diminuir as distância e freqüência das viagens em duas rodas.

Estava escrito que a maior felicidade da vida deles, como na dos seus pais, quase se resumiria naquelas três “criaturazinhas”.

Não estava escrito que neste novo mundo saberiam o certo e errado na construção de um bom lar pra eles.

Estava escrito que no processo de criação, errando menos pra acertar mais, temos grandes oportunidades de aprender a ser bons pais e melhores pessoas.

Não estava escrito que antes de entender que este processo de criação havia praticamente terminado, as “criaturazinhas” partiriam mundo afora, onde pela distância, centenas passam a ser milhares de quilômetros, e milhares, que eles estão em outro planeta.

Estava escrito que cada um deles encontraria o seu caminho e iniciaria por eles próprios um novo ciclo.

Não estava escrito que, por algum tempo, teríamos que viver com este sentimento de perda e quase abandono.

Estava escrito, meio a contragosto, que retomaríamos a nossa própria vida, a partir de um determinado e não identificado ponto dela no passado.

Estava escrito que acompanhando o caminhar destas “criaturazinhas” ao longe, “o longe” em duas rodas voltaria a ficar alcançável pra nós.

O que sempre estará escrito, e pra todos nós, é que a vida é assim, construída em detalhes por acontecimentos que queremos que sejam escritos, e outros, que nunca desejaríamos que fossem, mas que ainda assim, e infelizmente, o serão.

O que está sendo escrito neste instante é a nossa dedicação e intenção de viver uma vida em duas rodas na sua plenitude, com muitas estradas, amigos e destinos incertos, acompanhada de uma visão sempre otimista de futuro, mas consciente que “OUTRA MÃO” pode estar escrevendo diferentes contextos pra ele.

Como esta escrita está acima da nossa própria redação, e por ora, continuamos escrevendo nestas simples linhas a nossa compreensão da vida, exprimindo que nela devemos fazer o nosso melhor pra que o mundo seja decente pra todos, transformando isso na razão maior do nosso viver, que acreditamos ser os princípios e valores que norteiam a nossa existência como verdadeiros motociclistas.

Pasmem.

Escrevendo a parte que nos cabe da história pelas nossas próprias mãos.