Foto: Tio Tite examina uma moto usada

As marcas do passado

Foto: Tio Tite examina uma moto usada

Foto: Tio Tite examina uma moto usada

A forma como uma moto foi usada e conservada deixa marcas indel‚veis*, saiba reconhecˆ-las na hora de comprar uma usada. Um motociclista de pilotagem radical por exemplo, que curte fazer curvas raspando a pedaleira no asfalto, vai ser facilmente identificado: basta levantar as pedaleiras e olhar o estado daqueles pinos que tˆm em algumas, ou na borracha, em caso de pedaleiras fixas. Se estiver tudo raspado, pode desconfiar!

Um motociclista relaxado tamb‚m ‚ f cil de identificar. Basta olhar atentamente que sempre aparece um parafuso diferente do original, ou um pisca-pisca remendado com cola. Entre os crimes de uma manuten‡Æo, o provis¢rio ‚ um dos mais comuns. Algumas solu‡äes provis¢rias al‚m de depreciar a moto podem causar estragos maiores. Um bom exemplo ‚ da corrente de transmissÆo remendada para prolongar a durabilidade. Ali s, o sistema de transmissÆo ‚ um dos mais f ceis de dedurar uma manuten‡Æo relaxada.

Toda pe‡a da moto tem uma caracter¡stica que os engenheiros chamam de obsolescˆncia programada. Isso quer dizer que existe um prazo j  calculado para que aquela pe‡a seja substitu¡da, respeitando uma larga margem de seguran‡a. Mesmo assim alguns motociclistas insistem em prolongar essa durabilidade usando artif¡cios perigosos e at‚ ilegais.

Foto: Puxe a corrente para verificar a folga

Foto: Puxe a corrente para verificar a folga

A corrente de transmissÆo ‚ a campeÆ dessa gambiarra. Depois que a regulagem da tensÆo atinge o limite, alguns motociclistas usam o truque de cortar um ou mais elos e montar novamente. Mas tanto a coroa quanto o pinhÆo j  estÆo desgastados e a corrente encurtada nÆo encaixa nos dentes das duas engrenagens. O resultado ‚ que a corrente pode tanto se romper, quanto escapar da coroa e travar a roda traseira. Corrente gasta a gente troca, de preferˆncia junto com a coroa e pinhÆo.

Para saber se a corrente est  no fim da vida, al‚m de respeitar o limite do esticador (localizado no eixo da roda traseira), pode-se tamb‚m puxar a corrente quando ela est  na coroa. Se a corrente se soltar muito dos dentes da coroa ‚ sinal que j  era! J  vi motos que dava para passar uma caneta pelo espa‡o entre a corrente e a coroa!

E tem ainda aquele motociclista que escuta sua moto pedindo manuten‡Æo e nÆo liga. O chiado t¡pico de ferro contra ferro quando a pastilha de freio chega ao fim ‚ inconfund¡vel. Mesmo assim o cara continua rodando com a moto. At‚ que os sinais deste descuido ficam estampados nos discos de freio na forma de sulcos tÆo profundos que parece um velho disco de vinil riscado! Uma das vantagens da moto sobre os autom¢veis ‚ a exposi‡Æo das pe‡as. Basta baixar a cabe‡a at‚ a roda dianteira e olhar para a pastilha de freio! Mas ainda existe o recurso oficial que est  indicado nos cilindros mestres (burrinhos) dos freios a disco. Existe a marca‡Æo do n¡vel acima (upper) ou abaixo (lower), quando o n¡vel estiver no baixo nÆo significa que precisa completar o ¢leo como j  vi muita gente fazendo, mas ‚ sinal que a pastilha de freio chegou na hora da troca!

Nos freios a tambor, existe uma seta indicativa na haste de expansÆo das saspatas para avisar o motociclista que chegou a hora de desmontar e trocar as sapatas de freio. Mas tamb‚m ‚ comum o sujeito mÆo de vaca que retira a haste e remonta em outra posi‡Æo para aumentar a regulagem! Resultado: o cubo da roda ficar  eternamente marcado por riscos de uma lona que passou da hora da troca.

Os pneus j  nascem com um dedo-duro chamado oficialmente de TWI que indica o n¡vel de desgaste no limite. No entanto, aqui tamb‚m tem os sinais de maus tratos, porque o motociclista continua rodando e chegam mesmo a mandar riscar o pneu para prolongar a durabilidade. Al‚m de um tremendo atestado de pÆo-durismo, a seguran‡a ficar  comprometida porque os pneus al‚m de gastos tamb‚m ficam velhos.

Ali s, esse ‚ outro sinal que pode identificar o tipo de motociclista. Os motociclistas que tˆm motos “macarronada”, aquelas que s¢ saem aos domingos, rodam pouco, mas esquecem que pneus velhos sÆo tÆo perigosos quanto pneus gastos. Quando os pneus ficam velhos apresentam pequenas fissuras entre os sulcos f ceis de identificar. Isso ‚ sinal que precisa de troca, porque a borracha perde a capacidade de contra‡Æo e expansÆo e fica dura demais, derrapando com facilidade.

J  escrevi v rias vezes que moto ‚ que nem cachorro e menino: nÆo gosta de banho! Uma vez comprei uma moto que o dono anterior polia tanto a ponto de tirar a tinta em algumas partes do tanque! Esse ‚ um excesso de zelo que tamb‚m custa caro, porque a moto ‚ cheia de pontos nos quais a  gua nÆo seca facilmente e pode gerar ferrugem. Para piorar, o cada vez mais comum uso de querosene na lavagem das motos retira boa parte da lubrifica‡Æo dos rolamentos e at‚ do verniz da pintura. Por ingenuidade ou mesmo falta de conhecimento (nÆo ler o manual do propriet rio, por exemplo), muito motociclista pensa que est  cuidando da moto quando pode estar acelerando o processo de desgaste. E esses sinais ficam vis¡veis, prontos para serem percebidos pelos mais experientes.

Os componentes que sÆo grandes dedos-duros de excesso de lavagem sÆo as pe‡as de alum¡nio, que perdem o brilho quando lavadas seguidamente com querosene e as lanternas e piscas, que se tornam emba‡adas e tamb‚m perdem o brilho. A pequena borracha de veda‡Æo das lanternas e piscas resseca quando recebe o querosene e com o tempo come‡am a trincar permitindo a entrada de  gua. Com o tempo o pl stico vai perdendo o brilho.

Pequenos vazamentos que sÆo protelados deixam manchas escuras nos locais ao redor do vazamento. Por mais que o dono da moto tente “passar um pano”, o olhar atento percebe manchas escuras nos cilindros, tampas laterais ou perto do cabe‡ote. Juntas e retentores gastos sÆo ¢timos delatores. O mais vis¡vel sÆo os retentores das bengalas. Marcas de sujeira como se fossem an‚is nas bengalas denunciam um vazamento discreto que pode virar um problema a mais para resolver no futuro. A troca do retentor ‚ uma opera‡Æo relativamente simples e que evita a suspensÆo dianteira trabalhar sem ¢leo. Muitas vezes o motociclista nÆo sabe de onde vem a instabilidade de sua moto at‚ descobrir que as bengalas estÆo com menos ¢leo.

Outra forma de vazamento que ‚ muito f cil de observar ‚ o vazamento interno. Em ‚pocas de controle ambiental chega a ser imoral o sujeito rodar com a moto queimando ¢leo pela rua, deixando uma nuvem de fuma‡a atr s de si. Com certeza esse ‚ o maior sinal de destrato com a moto. Quem se permite rodar com uma moto soltando rolos de fuma‡a al‚m de mostrar um tremendo descaso pela moto, revela que est  nem a¡ para o resto da popula‡Æo, porque aquela fuma‡a ‚ extremamente prejudicial … sa£de. J  d  vontade at‚ de eliminar um cara assim da turma, imagine comprar a moto dessa pessoa?

Seja na hora de comprar uma moto usada, ou mesmo para identificar que tipo de motociclista est  sobre a moto, reconhecer esses sinais de manuten‡Æo incorreta ‚ muito importante. Por vezes d  a impressÆo que a moto est  “gritando” desesperadamente por uma manuten‡Æo e ningu‚m ouve.

* (indel‚vel = que nÆo se pode deletar – Motonline ‚ cultura!)