Aventuras e desventuras com uma Drag Star

Aventuras e desventuras com uma Drag Star

Decidimos por uma zero KM para evitar imprevistos, e as opções naquele momento eram poucas: a Yamaha Drag Star 650 era comercializada por volta de 25 mil reais enquanto a Honda Shadow 750 chegava em pouquíssimas unidades à algumas concessionárias por cerca de 10 mil a mais, por causa do ágio natural do lançamento. A Suzuki Boulervard 800 ainda não havia chegado às lojas mas sabíamos que o preço ficaria próximo ao da Honda, esperar não parecia fazer sentido. Dentro desse cenário optamos por uma Drag Star preta, afinal 10 mil reais de diferença é um bocado de dinheiro.

A primeira viagem teste foi um circuito saindo do Rio de Janeiro, passando por Petrópolis, Teresópolis e retornando ao Rio. Um verdadeiro inferno! Ao chegar em casa discutíamos se venderíamos a moto ou não. O banco do passageiro é horrível, fino, duro, curvo, um horror, e como a suspensão traseira de qualquer custom é meio limitada, o conforto foi pro espaço. O banco do piloto também não ajuda, é muito baixo para meu porte (1.80m e quase 110 kg) deixando meus joelhos em uma posição não natural, que por sinal teimavam em abrir com a pressão do vento frontal. A moto vibrava muito acima de 100 km/h e para quem estava acostumado com motos com carenagens o vento frontal incomodava demais. Sinceramente, o arrependimento de ter comprado uma custom ao invés de uma big trail foi imenso, mas infelizmente por esse preço não dava pra comprar uma big trail decente, então…

Depois de uma noite de reflexão, decidimos fazer algumas adaptações. A primeira foi trocar o banco original por um modelo mais alto e bem mais confortável. Colocamos também um sissi bar e um pára-brisa com aletas sob as bengalas. Essas pequenas aletas desviam o ar para que as pernas não tendam a abrir com o vento e funcionam muito bem. Por recomendação de amigos colocamos também um mata-cachorro e um protetor de carter, ambos totalmente ineficientes e inúteis, dinheiro jogado fora. Belas recomendações desses “mui amigos”…

Mais uma viagem, e dessa vez algumas boas surpresas. O conforto melhorou consideravelmente e a vontade de vender a moto passou, mas as vibrações acima de 100 Km/h ainda incomodavam muito e a falta de potência da moto em serras e ultrapassagens também não agradava. Com um pouco de pesquisa na Internet, encontrei algumas possíveis razões para isso: falta de balanceamento na roda dianteira e uma regulagem de carburador muito pobre, em função das leis anti-poluição americanas. Apesar da Drag Star ser “nacional”, alguns mecânicos confirmam que a regulagem pobre segue o padrão americano/europeu.

Incrível como as concessionárias são descuidadas. Aonde eu retirei a moto não se preocuparam nem se os piscas estavam alinhados e se os pneus estavam calibrados, e na segunda, onde fiz a primeira revisão e reclamei da vibração e da baixa potência do motor, me entregaram a moto ainda pior de quando entrou. Definitivamente concessionária autorizada não é sinônimo de qualidade, e eu decidi que só faria mais alguma alteração na moto se encontrasse um bom mecânico, que realmente entendesse de moto. A correção do carburador poderia obter resultados melhores com a compra de um filtro de ar K&N de alta vazão e um processo chamado “Re-Jetting” que é basicamente o reposicionamento das agulhas, troca de giclês e uma nova sincronização para ajustar a mistura ao novo fluxo de ar obtido. Como a idéia não era trocar o escape original, o ajuste no carburador seria mínimo, o suficiente para deixar a mistura adequada ao novo fluxo de ar. Aproveitei para comprar também um par de velas especiais, as NGK Irídium, que asseguram uma melhor queima em baixa rotação, e consequentemente maior torque. Essas velas, dizem, também ajudam a partida em dias frios, e como custavam só 10 dólares acrescentei duas ao pedido do filtro que fiz pela internet à uma loja americana que entregava no Brasil.

Finalmente encontrei um bom mecânico no Rio de Janeiro em uma revenda especializada em motos importadas. Ele revisou a moto novamente, balanceou a roda dianteira (que veio errada “de fábrica”, e a concessionária não viu…) e fez uma nova regulagem dos carburadores, que não estavam sincronizados (mais uma furada da concessionária).

Com o novo filtro K&N e as novas velas, alteramos ligeiramente a posição das agulhas do carburador e aumentamos um pouco o giclê de alta, passando dos originais 90 para 105. De fato, e a inspeção das velas originais confirmou que a mistura “de fábrica” era muito pobre realmente. Após alguns testes e ajustes na marcha lenta, a moto ficou uma delícia!

Fomos para a estrada outra vez, dessa vez com bastante bagagem e para uma viagem mais longa envolvendo serras, estradas sinuosas e um longo trecho na Via Dutra. Tudo ocorreu perfeitamente dessa vez, a moto respondia muito bem, não vibrava, mantínhamos médias acima de 110 km/h e o consumo até melhorou, chegando a 20 km/l dependendo do trecho. A última alteração na moto foi a inclusão de um par de malas laterais também importadas via correios, tal como foram o filtro K&N e as velas de Irídium, e agora temos uma moto bastante adequada para nossos planos.

Gastamos no total cerca de 3 mil reais em peças e serviços, mas ficou do jeito que esperávamos desde o início. Valeu a pena ter um pouco de persistência, porque no fundo a Drag Star é uma ótima moto, e uma das mais bonitas na minha opinião. Pena que algumas concessionárias sejam tão despreparadas para lidar com esse modelo, esquecendo itens básicos nas revisões de entrega e de 1000 km, além de não oferecer praticamente nenhum acessório para uma moto que deveria ser “customizável”.