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Brasil, País das motos?

Em 2011, pela primeira vez, superamos a marca de dois milhões de unidades vendidas e não demorará muito para que as motos ultrapassem os carros em número de produção e vendas.

Este dado de dois milhões são apenas das oito marcas auditadas pela associação de fabricantes. No total, são 24 marcas que atuam regularmente no mercado brasileiro. Portanto esse número pode ser bem maior. É um mercado difícil de auditar porque o controle das outras marcas é feito com base no número de emplacamentos e muitas motos passam toda a existência sem qualquer documento além da nota fiscal.

É curioso analisar os dados do mercado. Em nenhum outro país do mundo uma marca detém a quase totalidade, como é o caso da Honda no Brasil. A marca tem 79,7% enquanto a segunda colocada, a Yamaha, tem 11,6%. Sempre que encontrei jornalistas estrangeiros eles me questionavam o motivo de tamanho monopólio da Honda. E eu respondia que era uma explicação demorada e complexa demais…

Para entender essa indagação é preciso conhecer os mercados do resto do mundo. Na maioria dos países nos quais as quatro grandes marcas japonesas atuam – Honda, Yamaha, Kawasaki e Suzuki – existe um relativo equilíbrio. Não existe domínio de uma marca. Nos testes comparativos realizados na Europa e EUA podemos observar que as motos destes quatro fabricantes se equivalem em tudo. Realmente é como se o mercado brasileiro fosse uma ilha de insensatez.
A inquietação dos estrangeiros aumenta quando revelo que a Yamaha chegou ao Brasil antes da Honda. E eu preciso recorrer a longo discurso para narrar a história das duas fabricantes. Em termos de produto são praticamente iguais. Não há quem possa afirmar, sem grande carga de parcialidade, que os produtos da Honda sejam tão melhores do que os da Yamaha a ponto de criar essa distorção no mercado. Se a explicação não está no produto, onde pode estar?

A resposta daria uma tese de doutorado, mas de fato essa imensa distorção não está na qualidade dos produtos, mas muito mais na estratégia de marketing adotado por ambas, especialmente no momento mais determinante da economia brasileira, quando a Zona Franca de Manaus abriu as portas para a fabricação de veículos. A Honda acreditou no potencial de mercado e se instalou para se beneficiar dos subsídios oferecidos pela Suframa. Como a Yamaha titubeou e decidiu muito depois, o resultado foi esta lacuna quase abissal entre as duas marcas.

A bem da verdade, a Yamaha continuou com algumas políticas equivocadas de mercado até cerca de dois anos atrás, quando uma nova equipe de profissionais, com visão mais moderna do mercado assumiu o departamento de marketing. Mas recuperar essa distância será praticamente impossível. Só precisa tomar cuidado para não perder espaço para as novas marcas que chegam de olho no filão de dois milhões de unidades.

As outras…
Recentemente comprei uns ganchinhos auto-adesivos nos Estados Unidos. Ao chegar no Brasil notei que precisava de mais alguns e adquiri outros bem parecidos. Em menos de duas horas os ganchos comprados no Brasil já tinham descolado e caído. Os comprados nos EUA estão presos até hoje. Detalhe: todos foram feitos na China.

Esta historinha é para acabar com o preconceito de que tudo feito na China é sinônimo de porcaria. Provavelmente você está lendo este artigo em um computador cujo processador foi feito na China. E o mouse, o monitor, gabinete etc.

Existem produtos bons feitos na China e também muita porcaria. O problema não está na produção, mas nas empresas que escolhem o que trazer para vender no Brasil. No caso dos meus ganchos, a empresa americana foi pesquisar qual era o mais adequado para ser vendido dos EUA, enquanto a empresa brasileira importou qualquer gancho, visando exclusivamente o lucro.

Tudo isso para mostrar que das motos vendidas no Brasil temos ótimos produtos feitos na China, como os modelos de pequena cilindrada da Suzuki, mas também muita coisa ruim que só consegue algum espaço no mercado por absoluta ignorância do consumidor. Nunca vi nenhuma pesquisa a respeito, mas eu duvido que o dono de uma Sundown compra uma segunda moto da mesma marca. Isso se ele conseguir vender a primeira!

Entre as recém-chegadas, a Dafra é a que tem mais poder de incomodar. Quero dizer, incomodar a Suzuki e Yamaha, claro, porque a Honda adquiriu o status de inalcançável mesmo que mude a ordem econômica mundial. A Dafra precisa rever alguns produtos trazidos da China, de qualidade ainda inferior e que exigem alguns quilômetros a mais de testes e melhorias. Mas a parceria com a alemã BMW e com a SYM, de Taiwan, que produz a Citycom 300 pode contribuir para dar à Dafra mais solidez no mercado. O crescimento da marca está mais ligado à entrada de novos consumidores do que o “roubo” de mercado das que já estão estabelecidas. Se bem que se eu fosse executivo da Yamaha ficaria mais de olho nela do que na distante Honda.

Pelos dados da Abraciclo, a Kasinski está quase empatada com a Dafra, com 2,9% do mercado, contra 2,8%. Ela tem como um dos fornecedores a sul coreana Hyosung, que produz a linha Comet e Mirage. Em comum, as duas marcas optaram por escolher mais de um parceiro, de origem diferente. Tanto a coreana Hyosung quanto a taiwanesa SYM fazem parte de grandes conglomerados industriais capazes de produzir motos de alto padrão, daí a importância em diferenciar das marchas chinesas ou indianas de qualidade questionável. 

A participação de Yamaha, Dafra, Suzuki e Honda variam regularmente, o que mostra até certa estabilidade. As três primeiras são as que mais mordem participação entre elas. Em 2011 esta divisão ficou facilitada pela ausência da Sundown do quadro de associados da Abraciclo, mas continua presente no mercado.

Outros dados curiosos do nosso mercado são as mais de 5.000 unidades de Harley Davidson vendias em 2011. Um número surpreendente não só pelo tipo de moto, mas sobretudo pelo valor estratosférico pago em alguns modelos de tecnologia bem simples. Também a BMW apresentou um crescimento vigoroso, graças ao lançamento da G 650GS e da F 800R montadas pela Dafra, que permitiu a entrada de muita gente na marca alemã. 

Moto, álcool e jegue
Recentemente a Rede Globo dedicou um amplo espaço no Fantástico para mostrar um Brasil que pouca gente conhece. Neste Brasil as leis são mais flexíveis e muitas vezes nem há lei, ou quando há é diferente do resto do País.

Já faz pelo menos 15 anos que os números mostram um crescimento desproporcional da venda de motos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Parece que só as autoridades não perceberam. E quando perceberam, para variar, já foi tarde demais. O resultado é um quadro desesperador de saúde pública. Mais de 60% dos leitos em hospitais estão ocupados por motociclistas. Comerciantes inescrupulosos vendem motos de 50 cc com o pretexto de não necessitar habilitação nem capacete e absurdo dos absurdos: em algumas cidades é PROIBIDO usar capacete!!!

Esses dados não me assustam, o que me deixa impressionado é ver pessoas que tratam desse assunto como se fosse uma grande novidade! Essa carnificina tutelada pelo Estado começou há mais de uma década e a tendência é piorar, paralelamente ao crescimento do mercado. Se a previsão de chegarmos a cinco milhões de motos em 2020 se confirmar, sem a devida atenção à educação de trânsito, vamos presenciar uma tragédia nacional.

O que ficou mais evidente na reportagem do Fantástico é a absoluta falta de fiscalização. E o decadente trabalho do setor político em fazer vistas grossas a estes números. Em um raríssimo momento de sensatez na TV, um policial afirmou claramente: “Quando apreendemos as motos por falta de documento, capacete ou embriaguez o prefeito manda soltar”. Este policial merecia uma medalha! O voto está valendo mais do que a vida, mas os prefeitos precisam lembrar: eleitor morto não conta!

Agora tramita um projeto de lei que exigirá habilitação para quem quiser comprar moto. Este projeto tem como princípio a observação assustadora de que mais de 50% dos motociclistas da região Norte, Nordeste e Centro-Oeste não tem habilitação. Só faltou pesquisar o motivo dessa estatística. Habilitação de moto no Brasil é cara e exageradamente complexa. E como ficou provado na reportagem da TV Globo, não é por falta de habilidade que os motociclistas se acidentam, mas sim por falta de RESPONSABILIDADE e isso é um conceito que não se ensina em moto-escola.

Se esta lei for aprovada, o Brasil será o primeiro país do mundo a exigir habilitação para comprar um veículo. Nenhum outro veículo é exigida habilitação para adquirir, nem avião, helicóptero, barco, caminhão, carro, nenhum veículo motorizado. Então a exigência aos motociclistas configura um explícito caso de preconceito e ignorância no assunto. Como neste misterioso país do avesso tudo funciona ao contrário, em vez de ensinar é melhor proibir!

Ficou óbvio que a mistura de álcool com motocicleta está gerando este quadro de epidemia. Se as prefeituras e autoridades de trânsito não fiscalizarem de forma rigorosa estes números só vão aumentar proporcionalmente  ao crescimento do mercado. Também não é novidade que as motos substituíram a tração animal. Nem que jegues estão soltos como cães vira-latas e não há solução para este novo problema que surgiu na garupa do crescimento das motos.

Mas o jogue, que hoje é um problema de saúde pública, pode ser uma solução. Já que os motociclistas preferem – ou não podem – tirar habilitação e querem continuar ingerindo bebida alcoólica, a receita pode ser voltar à Idade Média. Afinal, como se sabe há séculos, cavalo de bêbado sabe o caminho de casa. 

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