Treinamento: fazendo oitos

Cachorro velho também aprende novos truques

Texto e fotos de João Eurico “Bokomoko” Lima, de Recife (PE)

Tive a sorte de morar em Manaus durante a segunda metade dos anos 70. Eu era menino, fui para lá com 9 anos e voltei com 14. Para os mais jovens esclareço que naquela época praticamente todas as motos eram importadas. A Yamaha chegou em 1975 e a Honda só chegaria em 1976 justamente numa fábrica em Manaus. Lá em Manaus graças a Zona Franca havia moto de tudo quando é marca, tamanho, cor e sabor. Era um deleite. Um belo dia, meu tio foi nos visitar e alugou uma Yamaha XS 400 de dois cilindros.

 

Yamaha XS 400, primeira moto que pilotou, ainda em Manaus

Yamaha XS 400, primeira moto que pilotou, ainda em Manaus

Eu tinha 13 anos e foi a primeira moto que pilotei. A paixão platônica se consumou. Desde então sou louco por motos. Lá em Manaus mesmo cheguei a ter um Piaggio Ciao. Moto de verdade ia demorar um pouco para eu ter. Em 1985 a moto dos meus sonhos era a DT 180N.

Tinha 19 anos, meu pai me ajudou com a entrada e eu entrei num financiamento que tomava 40% do meu salário. Sonho realizado. Agora vamos tirar a CNH. Naquela época não precisava de aulas em auto-escola. Bastava um motorista habilitado a pelo menos 2 anos se declarar “instrutor” e fazer os exames. Um amigo maluco topou ser meu “instrutor”. Para vocês terem uma ideia, nem habilitado para pilotar motos ele era, só carros. Mesmo assim deu certo.

A DT 180N e a Piaggio Ciao, primeiras experiências sobre duas rodas

A DT 180N e a Piaggio Ciao, primeiras experiências sobre duas rodas

Fui para o teste prático que se limitava a fazer um 8 sem por os pés no chão. Para facilitar as coisas, como a minha moto era 180cc, os cones ficavam a uma distancia enorme um do outro. Moleza. Sai de lá com minha CNH válida até os meus 40 anos, ou seja, junho de 2005. E mais, minha categoria de habilitação era A3 o que me permitia pilotar motos de qualquer cilindrada. Antigamente tinha isso. Hoje não tem mais e faz falta.

Outro grupo espera na sombra

Outro grupo espera na sombra

O resultado dessa história toda é que nunca fiz um curso sequer de pilotagem em toda a minha vida. Logo cedo eu danei-me a pilotar minha DTzinha nas trilhas e aprendi na base da tentativa e erro (leia-se cai e levanta). Durante anos fui aprendendo de forma intuitiva e até mesmo completamente errada como pilotar motos. Sobrevivi e me considerava um bom piloto tendo até ganho um enduro off-road certa vez.

Vida adulta, filhos, responsabilidades e aperto financeiro me fizeram vender a minha valente Dtzinha que eu usava para tudo: trilha, passeio, ir para o trabalho. Durante anos deixei de andar de moto até que em 2001 comprei uma Honda CB 500 (queria mesmo uma XT 600, mas a minha mulher achava ela “feia”). Foi um choque. Nos primeiros dias de uso percebi que não sabia pilotar bem e francamente pensei seriamente em pedir meu dinheiro de volta. Que moto ruim da gota serena! Na verdade eu que era um péssimo piloto.

Já havia internet e busquei conhecimento através de sites e blogs que eram muito poucos e que embora falassem muito de motocicleta  raramente tocavam no assunto pilotagem. Minha relação com a CB 500 foi melhorando e no fim eu já estava adorando-a. Passeava direto com ela até que numa terrível noite um bandido a levou de mim naquela avenida que passa ao lado do Estádio Pacaembú em São Paulo. Voltei para casa chorando. Não tinha seguro. Durou 3 meses esse caso com a CB 500. Trauma psicológico e financeiro a ser superado que levaria 8 anos. Em janeiro de 2009 comprei a minha adorada XT 660 R Azul.

Treino de decomposição da curva

Treino de decomposição da curva

Como é fácil pilotar motos bigtrail. Que diferença! Mas agora eu sabia que não sabia pilotar. Também não era mais nenhum menino e aos 44 anos voltei a internet para procurar mais vídeos e textos sobre pilotagem. Mais material, mais dicas, a coisa melhorou bastante nesses 8 anos de internet. Mas ainda faltava um curso ao vivo, presencial, prático, na vida real e não na virtualidade da internet. Só me faltava tempo. Onde fazer tal curso ? Estava de volta a Manguetown (minha terra natal também conhecida pelo nome de Recife). Cursos de pilotagem aqui eram raros e os que aconteciam eram voltados a pilotagem esportiva. Queria algo mais para o dia-a-dia.

Graças a iniciativa conjunta da Honda, de uma revenda Honda em Paulista (cidade vizinha a Recife) e o DETRAN de Pernambuco foi montado o “Curso de Pilotagem Defensiva”. Duração de 5 meios-dias sendo que 2 deles de aulas práticas com motos cedidas pela concessionária parceira. As aulas práticas são ministradas numa pista fechada para instrução dentro da área da concessionária em Paulista. Uma beleza. Consegui conciliar com as minhas obrigações profissionais e em abril de 2011 fui para o primeiro dia de aula com a minha XTzona que eu já usava há 2 anos. Mente aberta, estava lá para aprender.

A maioria dos meus colegas eram motociclistas que trabalhavam com moto diariamente. Vendedores de uma distribuidora de bebidas, passavam o dia pilotando suas motos por tudo quanto é canto da cidade. Para eles a empresa em que trabalhavam os obrigava a fazer o curso. A maioria tinha entre 20 e 25 anos. Além dos profissionais, meia dúzia de pilotos “normais” que usavam a moto para ir e voltar do trabalho ou faculdade/colégio. Todos, exceto eu, tinham motos de 125/150cc. Nenhum piloto de moto bacana. Vai ver eles acham que não precisam aprender nada. Assim como eu também achava.

Treinamento: fazendo oitos

Treinamento: fazendo oitos

O instrutor era um ex-sargento do exército e funcionário da concessionária responsável pelos treinamentos de pilotagem. Existem outros cursos mais avançados a disposição de seus clientes. Baixinho mas muito ágil e esperto é um espetacular piloto. As 3 primeiras aulas foram verdadeiras lavagens cerebrais daquelas que só os militares fazem. Não é aula, é doutrinação. Segurança, Segurança, Segurança. Pilote seguro, seja seguro, coloque-se na defensiva. Não adianta ter a lei de trânsito a seu favor e um fêmur fraturado porque um imbecil entrou na sua frente com um carro sem ter a preferência.

Moab era o instrutor e foi super eficaz em incutir na mente da garotada um pouco do senso de segurança absolutamente ausente antes do início do curso.  Podem achar que a “pedagogia” do curso era trivial demais, simplória até. Mas francamente, acho que qualquer coisa mais sofisticada simplesmente não seria absorvida por esse batalhão de pilotos-por-força-das-circunstâncias. Jovens e imaturos, alguns montaram na moto pela primeira vez para ganharem a vida e não porque “curtem andar de moto”. O instrutor tinha muita tarimba para manter a turma na linha e usou várias técnicas pedagógicas inclusive puro terrorismo de mostrar vídeos e fotos de acidentados de motocicleta. Apelou, mas funcionou.

Saímos todos com uma preocupação genuína em pilotar de forma mais segura.  Como se posicionar durante o tráfego, onde estão os pontos cegos dos carros, como sinalizar para fazer curvas a esquerda e a direita, como se equipar para atender as normas de motofretista, como frear, como tentar antecipar o movimento dos carros, tudo isso foi visto na parte teórica do curso. Agora vamos para a prática.

Instrutor Moab: pronto para liderar

Instrutor Moab: pronto para liderar

No quarto dia nos dirigimos a sede da concessionária onde fomos apresentados as motos que usaríamos no curso. Dezenas de Fan´s e Titan´s , duas Bros 150 e uma Twister. A turma foi dividida em 3 grupos. Enquanto um grupo praticava os outros dois observavam. Mais do que multiplicar a quantidade de alunos por moto essa técnica é bem interessante. Vemos os erros dos outros e aprendemos com ele. A disciplina militar de Moab agora estava a 110%. Por pouco não fizemos ordem unida. Mas novamente funcionou. Para os alunos os erros eram apontados com uma paciência enorme. Moab repetia os procedimentos e explicava os detalhes de cada manobra.

A primeira parte da prática consistia em ter controle absoluto da moto em curvas em baixa velocidade. Controle da embreagem e do freio traseiro. Fazíamos o circuito dezenas (diria até centenas) de vezes até que os movimentos se tornassem reflexos condicionados. Depois de fazermos tudo num sentido, fazíamos no sentido inverso de forma a ficarmos craques em curvas tanto a direita quanto a esquerda. Perdemos o medo de inclinar as motos nas curvas. O fato de usarmos motos da concessionária também ajuda a não termos “pena”.

As motos eram usadas mas estavam em excelente estado. Um ou outro pequeno arranhão denunciava a bobeira que alguém da turma anterior cometera. Fazíamos 8´s, zig-zags, retornos, tudo sem por os pés no chão. Quem deixasse a moto morrer ou colocasse os pés no chão era zoado pelo resto da turma que assistia. Na verdade devíamos era agradecer a eles por nos ensinarem O QUE NÂO FAZER. Mesmo repetindo de forma disciplinada as instruções de Moab dava para perceber o “estilo” de pilotagem de cada um. Não tinham dois iguais. Os afobados, os medrosos, os bons, os braços duros (aqui chamamos de mamões), os compenetrados, os esforçados. Passamos a manhã praticando em várias rodadas e por volta de meio dia estávamos agradavelmente exaustos. Havíamos aprendido tanta coisa !

Na manhã seguinte, técnicas mais radicais de curva, agora com apenas uma mão no punho do acelerador. A evolução da turma era gritante. Pilotos que mal faziam a manobra no início do dia anterior, com as duas mãos, agora conseguiam fazer tudo com uma mão só. As motos andavam sincronizadas como uma parada militar, em fila indiana. Dava gosto de ver a decomposição da curva com a fila das motos inclinadas em ângulos diferentes a medida que se aproximavam das curvas. As brincadeiras continuavam mas o grupo estava mais disciplinado ainda. Menos medo, mais segurança, todo mundo estava pilotando melhor. Todo mundo estava pilotando bem. Antes do final da prática do último dia viria o exercício de frenagem de emergência, o mais perigoso.

E finalmente, os certificados de conclusão do curso

E finalmente, os certificados de conclusão do curso

Moab fez uma preleção bem séria antes de começar a ensinar a frenagem de emergência. A clássica demonstração da frenagem só com a roda traseira, versus só com a roda dianteira, versus a combinação dos dois freios. A teoria que tínhamos visto na sala de aula agora era demonstrada ao vivo e com efeitos muito impactantes. Não era novidade para Moab , eu já desconfiava também, e de fato a maioria dos pilotos sequer usavam o freio da frente. Moab demonstrou frenagens duríssimas com a roda da frente para tirar de vez da cabeça deles o medo de usar o dianteiro. Agora era a nossa vez. Acelerávamos a moto até o meio da pista e freávamos com tudo, sem acionar a embreagem, até a parada total da moto. Tudo correu bem e ninguém deu vexame.

O resultado do curso foi muito gratificante. Deu para perceber que todos aprenderam alguma coisa, inclusive eu que supostamente era o “Tiozão” da turma e o que pilotava motos há mais tempo. Moab fez questão de explorar a minha presença como exemplo e utilizou de uma suposta humildade minha por ter-me disposto a fazer o curso mesmo depois de tantos km rodados em cima de motos. Foi interessante notar como vícios são facilmente implantados no estilo de pilotagem da maioria dos pilotos que não fizeram cursos decentes de pilotagem. Erros crassos eram cometidos pela maioria (inclusive eu). É de se perguntar qual qualidade de curso de formação de pilotos essas moto-escolas estão dando.  Embora tenha valido muito a pena, o curso apenas demonstra que existe mais coisa a ser aprendida e até mesmo praticada.

No fim, o cachorro velho aqui aprendeu vários novos truques.