Caros amigos motociclistas e triciclistas(I)

Caros amigos motociclistas e triciclistas(I)

Caros amigos motociclistas e triciclistas(I)

Na minha infância, isto é, “a pouco tempo atrás”, morava num bairro bastante simples chamado Tamandaré em Guará (forma sintética de chamar Guaratinguetá-SP), e freqüentava as roças pro lado de lá, já que todo bairro de periferia tinha uma estradinha de terra que se embrenhava por campos e morros, da

ndo a impressão que não tinha fim nem limite. E não tinha mesmo.

E neste mundo caboclo*, a gente moleque se divertia como ninguém, descalço, pegando cavalo nos pastos pra cavalgar em pelo* somente com uma cordinha amarrada do maxilar inferior do pobre animal, sem nem pedir autorização pro senhores proprietários, pois existia uma comunhão no trato destes animais e eles sabiam disto, passaram por isto também. Ouviam somente murmúrios que eram uns “muleques lá da Tamandaré”, filhos do Zeito, Dito Frutuoso, seu Zé do Bar e coisa e tal, tudo estava sobre um certo controle e consentimento.

Por vezes, andando de lá pra cá, a pé nestas estradas, campos e ribeirões, encontrávamos de passagem com estes senhores e no máximo ouvíamos um “olha lá hem seu moleque!!!”.
Embora possa parecer, toda a simplicidade desta vida bruta não significava carência, e embora quase tudo das coisas vitais (comida, moradia e educação pública) pra viver nesta época fosse um pouco menos que a medida certa, não nos faltava nada, pois era abundante num bem maior, pautado num sentido de irmandade e solidariedade.

Era muito comum, por exemplo, alguém matar um leitão e dividir com a vizinhança, e acontecer muitas outras iniciativas deste tipo. O senso de propriedade, de pertence, era muito menos egoísta, não era embasado em mesquinhez, adotava um sentido natural de compartilhamento, cooperação e humanidade.

Toda esta ladainha é pra lhes falar de uma canção, que nesta época ouvia pela voz e cordas de alguns cancioneiros e violeiros nas vendas* nestes cunfós do judas*.

Uma canção que trata do cuidado com o nosso pai, de nós como pais, dos nossos filhos como pais.
O gênero e estilo desta canção pode não ser do apreço de todos. Mas a simplicidade desta história, em total sintonia com os momentos de vida descritos acima, é de uma riqueza profunda, onde se pode garimpar um monte de lição de vida, as quais gostaria de compartilhar com todos.
Em tempos modernos, quem diria, encontrei esta canção no YouTube, editada com cenário e tudo, e que pode ser apreciada pelo vídeo que está no link http://www.youtube.com/RidersFreedom .
Divirtam-se com este vídeo ou com a letra desta canção abaixo, antes de pegar as estradas com a escolha dos nossos eventos. Com couro de boi, búfalo, …

(*)
Caboclo: como se define o cidadão da roça na região do Vale Paraíba-SP, termo que define pessoas originárias da miscigenação de brancos e índios
Cavalgar a pelo: cavalgar sem cela ou arreio
Vendas: mesmo que armazém
Cunfó do Judas: Mesmo que cafundó do judas, lugar longínquo, ermo ou de difícil acesso
Letra da Música Couro de Boi (autoria desconhecida)

Existe um velho ditado
Que é do tempo do sagáio
Diz que um pai cuida de dez filhos
Mas dez filhos num cuida de um pai

Sentindo o peso dos anos
Sem poder mais trabalhar
O velho peão estradeiro
Com seu filho foi morar

O rapaz era casado
E a mulher deu pra implicar
“Ocê manda o véio embora
Se num quiser que eu vá”

E o rapaz, coração duro,
Com seu pai foi conversar:
“Para o senhor se mudar
Meu pai eu vim lhe pedir
E hoje aqui da minha casa
O senhor vai ter que sair,
Leva este couro de boi
Que eu acabei de curtir
Para lhe servir de coberta
Aonde o senhor for dormir”

O pobre velho calado
Pegou o couro e partiu
Seu neto de oito anos
Que àquela cena assistiu
Correu atrás do avô
E seu paletó sacudiu
Metade daquele couro
Chorando ele pediu

O velhinho comovido
Para não ver o neto chorando
Partiu o couro no meio
E pro menino foi dando

O menino chegou em casa
Seu pai foi lhe peguntando
Pra quê ocê quer este couro,
Que seu avô ia levando?

Disse o menino ao pai:
“Um dia eu vou me casar
O senhor vai ficar velho
E comigo vai querer morar
Pode ser que aconteça
De nóis não se combinar
E esta metade do couro
Vou dar para o senhor levar ……

Façam as suas escolhas, antes de partir pela estrada.