Corrigindo o rebolado e

Corrigindo o rebolado e

aumentando o prazer! Muito se comenta sobre as reboladas que as Harley Davidson da linha Touring apresentam em curvas de alta velocidade, e também muito se comenta sobre a qualidade do som dessas motos. Não se preocupe, tudo isso tem conserto…

Entre os amantes de motos grandes é fácil identificar dois grupos distintos: os que adoram as motos Harley Davidson e os que as “odeiam” ou, digamos assim, preferem as outras motos, sejam elas japonesas, alemãs ou italianas. Talvez sejam resquícios emocionais da segunda guerra mundial, já que se tratam de motos americanas contra todas aquelas produzidas nos países que faziam parte do “eixo do mal” daquela época. Mas isso não vem ao caso agora.

O Jaguar XK120 de 1949 – Essa relíquia vale milhões hoje, e foi responsável pela valorização da marca Jaguar no mercado mundial.

Sem palavras para a Vicent Black Shadow… em 1949 era simplesmente o máximo!

Não tenho preconceitos nem preferências nacionalistas, mas após 3 anos andando de Harley Davidson confesso que ela tem um charme todo especial, e isso se dá exatamente pelas suas imperfeições. Pelos seus supostos “defeitos”. Não estou falando do péssimo atendimento da marca no Brasil, nem da falta de peças ou de modelos específicos (cadê a Crossbones?) no mercado local, mas falo daquilo que todo mundo reclama: as vibrações, a pouca tecnologia, o peso exagerado, o visual antiquado. Tudo isso forma uma “característica” do produto que pra mim, e para quem gosta da marca, tem sim o seu apelo.

Há pouco tempo vi na TV um programa chamado Top Gear e nesse programa 3 jornalistas ingleses apostavam uma corrida saindo de Londres até Edinburgh, no norte da Inglaterra. A idéia era simular uma volta ao final da década de 40 e fazer esse percurso usando 3 veículos especiais de 1949, os melhores de seu tempo: Um Jaguar XK120, uma moto Vicent Black Shadow e um incrível trem a carvão e vapor (que foi recém restaurado) que era capaz de fazer 80 milhas por hora (quase 130km/h) naquela época. Os três saíram do mesmo local (a estação do trem, em Londres) e marcaram um encontro em um bar em Edinburgh.

Para encurtar a história, o Jaguar ganhou embora tenha parado várias vezes para reabastecer (alto consumo, fora dos padrões atuais), o trem chegou em segundo mesmo mantendo velocidades mais altas porque suas paradas para reabastecer (carvão e água) eram ainda mais freqüentes e mais demoradas. A moto Vicent chegou por último, e com grande demora: levou 40 minutos a mais só para ligar o motor (no pedal), e o piloto demorou a se acostumar com os comandos fora dos padrões atuais (o freio, por exemplo, é no local do câmbio das motos atuais), e toda vez que a moto morria era um inferno para ligá-la. No reabastecimento o carburador entupiu por causa de uma manobra errada com as torneiras independentes, e foi necessário chamar um SOS Motorcycle (serviço existente na Inglaterra). O piloto da Vicent, coitado, chegou extremamente cansado por causa da chuva, das suspensões ruins, e mal conseguia andar.

Mas eu, assistindo o programa do meu sofá, torcia descaradamente pela Vicent e sonhava com a possibilidade de andar em uma. Sim, ela tem um monte de defeitos olhando para os dias de hoje, mas em 1949 ela era a melhor, um marco na indústria inglesa.

Minha relação com a Harley é parecida. O projeto é velho, antigo, tecnologicamente defasado, pesado, e apesar das inúmeras melhorias recentes nos modelos oficiais não é difícil encontrar defeitos. A Electra Glide tem mudado muito nos últimos anos, mas essencialmente não é muito diferente da moto vendida há 20 anos atrás. Até mesmo no Brasil é comum encontrar versões carburadas com a mesma “cara” da nova. Quem gosta da marca, se acostumou a ser seu próprio mecânico, e faz disso um hobby. E convenhamos, mesmo com todos os seus “pecadilhos”, uma Harley do século 21 está a anos luz de distância de uma Vicent Black Shadow.

Uma reclamação constante entre os proprietários dessas motos da linha Touring é que elas “rebolam” nas curvas de alta velocidade. Vários optaram por trocar os amortecedores traseiros por versões mais rígidas como uma tentativa de melhorar o problema, mas o rebolado continuava, mesmo que em menor escala. Não faz muito tempo que finalmente veio à tona a razão desse estranho rebolado: o motor da linha Touring é montado em coxins de borracha, e preso ao motor está a transmissão (também flutuante nos tais coxins) e tudo isso se mexe dentro do quadro, e em todas as direções. Em alta velocidade, nas curvas rápidas onde se traciona com força para retomar a velocidade acontece um efeito inesperado: a transmissão “flutuante” acaba puxando a balança para o lado, através da tração da correia de transmissão. Esse jogo lateral é pequeno, mas o suficiente para em alta velocidade fazer a moto “rebolar”. E como rebola…

Eis que eu, voltando do Rio de Janeiro pra casa sozinho e ligeiramente acima dos limites permitidos na Via Dutra, venho por um declive leve e faço uma curva em subida acelerando com força para retomar a velocidade e ultrapassar um carro que está na outra pista. A “Carmen” (apelido da minha “Electra”) rebola, rebola, e vai se chegando perto do carro sem dar a impressão que iria parar de rebolar. Uma rápida redução de velocidade faz as coisas voltarem ao normal, mas ficou aquela sensação ruim na boca. Carmen, minha querida, você vai ter que parar de rebolar perto de estranhos… A Carmen “Electra” original pode rebolar quanto quiser, mas a minha “Carmen” não pode.

Nada como fóruns de internet, google e outras maravilhas modernas para ajudar nas pesquisas e eis que após algumas leituras encontro a solução para o rebolado da Carmen. Algo simples e bastante óbvio: uma trava (chamam de Link) que permite a oscilação vertical do conjunto motor e transmissão (as charmosas vibrações longitudinais), mas impede a oscilação lateral. Há várias marcas recomendadas para o tal link, vindas de vários fabricantes bons com preços variados, mas acabei comprando o Touring link da Progressive Suspension, não só porque era o mais barato, mas porque era uma empresa séria e conceituada.

A instalação é simples, mas trabalhosa. Por causa de um bendito parafuso é preciso remover (ou afastar) uma grande parte do escapamento direito, e a moto precisa estar sobre cavaletes, sem peso na roda traseira, para a correta colocação do link. Estava tudo explicado no site da Progressive Suspension, tinha até vídeo online, mas como sempre, lá parece muito mais fácil do que na sua garagem mal iluminada e suja.

O Touring link são 3 peças. Um suporte lateral que substitui o original que segura a balança traseira, um outro suporte que se prende na parte de baixo do motor e um braço articulado que evita o logo lateral entre esses dois elementos (motor e quadro) permitindo os movimentos verticais típicos do V-Twin.

O kit de tweeters da Hogtunes parece que foi feito para a moto. o encaixe é perfeito.

Sempre faço minhas compras através da Zanotti, nos EUA, e já cheguei a conclusão que o valor “ótimo” para uma encomenda internacional é em torno de 300 dólares, porque o custo do frete e dos impostos não fica proporcionalmente muito alto em relação ao custo do produto. Como o link era barato, acabei comprando um conjunto de tweeters que se encaixa perfeitamente na carenagem da Electra Glide, chamado HF-1 Hog Pod da Hogtunes, e uma nova dobradiça para a mala traseira (legítima frescura de minha parte), muito mais bonita e resistente que a original. Pedido feito, 20 dias depois, pendido entregue e no sábado passado lá fui eu pra debaixo da Carmen instalar as bijuterias novas achando que seria tudo fácil e rápido. Eu planejei fazer o serviço na manhã de sábado para passear a tarde, e só acabei quando já estava anoitecendo. O passeio noturno com a patroa só serviu para confirmar que estava tudo bem, nada de mal havia acontecido, uma preocupação que eu tinha já que desmontei e montei bastante coisa. Só no passeio seguinte é que pude comprovar a eficiência das peças. Sozinho, em uma estrada de pouco movimento e asfalto bom, pude “sentar a mão” na Carmen gritando “vai, safada, rebola que eu quero ver!”

E minha querida Carmen não rebolava. Estava em um trilho, firme, segura, raspando o cavalete nas curvas mas sem dar uma reboladinha sequer. A suspensão funcionando normalmente, o motor vibrando como sempre vibrou (em marcha lenta vibra bastante, mas andando mal se percebe). Atravessei um longo trecho com curvas sinuosas pilotando como se fosse uma esportiva, reduzindo com força, acelerando firme e trocando de marchas com a rotação lá em cima, e nada. Carmen estava completamente alinhada, firme no lugar, nada de rebolar.

No caminho de casa, já em uma pilotagem tranqüila liguei o som para ouvir melhor os novos tweeters. Que diferença. Parece que o produto é original da Harley de tão bem integrado ao painel. O tweeter em si não aumenta tanto o som assim, mas ele fica em uma posição mais elevada no painel, quase de frente com a viseira do capacete, e dá um bom reforço nos médios e agudos. Tanto que precisei reduzir os agudos na configuração do rádio original. O som ouvido dentro do capacete ficou muito melhor, mesmo com a viseira fechada. Mistérios da acústica avançada que faz a percepção do som ser diferente da esperada…

Já tinha lido que a boa percepção sonora desses tweeters da Hogtunes só se dava na estrada, e realmente é verdade. Lou Reed ia cantando “Walk on the Wild Side” enquanto eu abaixava a adrenalina de tanto que corri pra testar o link. Logo em seguida entrou a Duffy com swing “Steppping Stone” seguindo de “Mercy”, que ficou ótima com a nova configuração, enquanto isso a linda paisagem da região cercada de fazendas e serras ia passando rápido pelos meus olhos. Carmen está bem mais firme e segura, ficou fácil conduzi-la nas curvas agora, e lá íamos nós costurando lindamente as curvas sinuosas. Nancy Sinatra entrou em cantou “These Boots Are Made For Walking” (essas botas foram feitas para caminhar). Parecia que ela adivinhou meus pensamentos.