Distribuição do mercado brasileiro de motocicletas por motorização (Fenabrave 2014)

Demanda há, mas faltam renda e preços mais adequados

Por várias ocasiões como eventos de lançamentos de motocicletas ou encontros onde haja executivos de montadoras, procuro conversar sobre mercado, tendências, como andam os negócios, enfim, busco informações para ver se sai algo além do oficialismo dos press-releases que trazem apenas o que a fábrica quer falar.

Nessas conversas, invariavelmente a maioria oferece aquelas respostas padrão: “Estamos trabalhando e teremos mais novidades”, “Os custos são cada vez mais altos e não temos muita margem”, “O crédito difícil está prejudicando as vendas”, “Vamos vender de acordo com a demanda” e por aí vai, num blábláblá bem ensaiado e sem novidade alguma além daquela que já está impressa nas páginas da informação oficial.

Essa síndrome que eu chamo de “entrevista de jogador de futebol” é quase uma regra também para os executivos de empresas, que acabam dando respostas óbvias e sem qualquer conteúdo aproveitável. Contudo, uma vez ou outra aparece alguém com mais disposição de contar alguma coisa nova, falar algo que possa aguçar a curiosidade do interlocutor e com algum esforço acaba saindo alguma coisa interessante, mesmo que ainda fique no campo das hipóteses.

Foi esse o caso da última apresentação da Honda NC 750X e da nova loja Honda Dream em São Paulo, quando várias conversas me permitiram juntar algumas informações e construir um raciocínio que parece estar sendo compartilhado dentro das fábricas. E o fruto destas conversas estava naquelas duas reportagens. Conversei depois com mais algumas pessoas do meio e a reproduzo aqui novamente para dar o devido destaque ao tema.

Não é novidade que na base da pirâmide do nosso mercado de motocicletas as coisas vão mal, já que a venda de motos de entrada continua estagnada ou até andando para trás. Já na ponta superior da pirâmide – leia-se mercado premium (acima de 500 cc) – as coisas vão muito bem, com muitos lançamentos e sólido crescimento. Então surgem as perguntas: O que acontece com o meio dessa pirâmide? Afinal, motos entre 250 cc e 400 cc estão esquecidas pelos fabricantes? Essa demanda representada por milhares ou milhões de potenciais consumidores não interessa?

Distribuição do mercado brasileiro de motocicletas por motorização (Fenabrave 2014)

Distribuição do mercado brasileiro de motocicletas por motorização (Fenabrave 2014)

A escada natural para os consumidores subirem os degraus desta pirâmide está meio fora de esquadro, com degraus muito altos e difíceis de serem alcançados, enquanto outros são de fato bem pequenos. Um olhar mais atento permite observar que errados estão os degraus imediatamente acima de quem sai da base (motos até 150cc). Note que a Yamaha não tem nenhuma moto entre suas 250 cc (Fazer e Tenerezinha) e a XJ6.

A Honda até tem suas opções – CB/XRE 300, NX4 Falcon -, mas os preços não são convidativos e o consumidor acaba indo para o mercado de motos usadas, onde é possível comprar uma moto maior e sem gastar tanto, mas o crédito é mais difícil e mais caro. Kawasaki e Dafra também oferecem produtos nesta faixa (Citycom, Ninjinha), mas também a preços muito distantes da base. A Suzuki disse que lançou a Inazuma nesse segmento, mas ninguém viu.

As motocicletas entre 250 cc e 400 cc  representam cerca de 10% do mercado de motocicletas no Brasil e é o que tem naturalmente o maior potencial de vendas de todo o conjunto do mercado, pois tem toda a base para explorar. Pergunte-se quantos motociclistas que tem uma moto até 150 cc gostariam de subir para uma 250, 300 ou 400 cc e faça uma conta bem modesta. Antes, acompanhe o seguinte raciocínio.

Arredondando os números de 2014 (Fenabrave) o mercado brasileiro absorveu 1.430.000 motocicletas assim divididas: 85% até 150 cc, 10% de 151 até 499 cc e 5% acima de 500 cc. É justo imaginar que a composição da frota de motocicletas que circula pelas ruas e estradas do Brasil segue aproximadamente o mesmo padrão. Portanto, se essa frota é de aproximadamente 22 milhões de motocicletas, temos um universo aproximado de 18 milhões de motocicletas de até 150 cc rodando por aí.

Evolução do mercado brasileiro de motocicletas por motorização (Fenabrave)

Evolução do mercado brasileiro de motocicletas por motorização (Fenabrave)

Agora faça a pergunta novamente: Quantos destes 18 milhões de motociclistas que tem uma motocicleta de até 150 cc no Brasil gostariam de ter uma motocicleta maior? É certo que 10% é uma proporção razoável e que já se realiza a cada ano, basta olhar para as quase 140 mil motos nesta faixa vendidas em 2014 e que representam 10% do mercado. Agora olhe para outros 25% ou 30% daqueles 18 milhões e que podem ter o desejo, mas não compram em função de preço, principalmente.

Note que estamos falando de sair de uma moto que na melhor hipótese entrará numa negociação por R$6.000,00 para comprar uma nova que não custa menos que R$13.000,00. Talvez se essa diferença fosse menor, a moto zero km se tornasse realidade.

Uma conversa com alguns agentes deste universo – executivos de montadoras, comerciantes de motocicletas e pessoas do mercado de crédito – indica que há sim preocupação com esse “miolo” da pirâmide. Já que estamos falando da líder Honda, o que eles pensam sobre isso? Evidentemente que ninguém na Honda revela com clareza, mas é possível perceber nas conversas que algo já está em curso para melhorar este cenário.

“Nossos estudos mostram que há de fato uma grande demanda, mas que também é nesta faixa (250 a 400 cc) onde se concentra o maior índice de inadimplência”, revela Marcos Monteiro, gerente de planejamento de vendas da Honda. No entanto, indagado sobre a solução para isso, ele preferiu não falar muito, mas deixou evidente que do lado do fabricante o melhor a fazer é reduzir a distância entre a base e o degrau seguinte.

“Vários fatores fizeram a motocicleta evoluir e se sofisticar. Claro, o custo e o preço também subiram, mas a renda média do consumidor não acompanhou essa evolução. Então precisamos pensar em reduzir este custo e oferecer ao mercado produtos mais adequadas à capacidade do consumidor”, disse Monteiro, encerrando a conversa para não revelar mais do que deveria e comprometer algum segredo que está por vir.

Como especulação não paga imposto e com base nos últimos lançamentos da própria Honda, há uma boa possibilidade de que nos próximos meses a Honda apresente novas opções na faixa de 250 a 400 cc com preços mais atraentes e próximos das motos de 150cc. Façam suas apostas?Separador_2



Sidney Levy

Motociclista e jornalista, une na atividade profissional a paixão pelo mundo das motos e a larga experiência na indústria e na imprensa. É editor de conteúdo do Motonline desde 2009.