Dez dias de Jaspion

Dez dias de Jaspion

Já notaram uma coisa nos pais? Eles sempre têm as coisas melhores, só pra gente ficar passando vontade … parece até que é de propósito. Meu pai é um desses que não foge a regra: em 2007, depois de fazer “estágio” em duas Burgman 125, ele radicalizou geral: comprou um Burgman 400. Nunca havia visto um ao vivo e, sinceramente, não botei uma fé quando o mesmo apareceu aqui em casa.

Falando francamente, scooters nunca foram a minha praia. Já andei em vários, todos de baixa cilindrada, mas minha praia são mesmo as trail devido ao meu tamanho e peso (1,79m e 111 kg). Toda vez que eu o via na garagem, entretanto, vinha à vontade de dar umas voltas com ele. Eis que veio a grande chance: meu pai ia ficar fora da cidade por 10 dias. Por 10 dias eu teria a chance de conhecer melhor o Jaspion e saber do que ele é capaz. A namorada se ofereceu pra dar um auxílio no “teste” e lá fomos num menage a trois: eu, ela e o Jaspion.

Começando o teste Sabe todos aqueles conceitos e conhecimentos que você adquiriu após anos e anos com os fundilhos esquentando sobre uma moto? Esqueça tudo, tranque na gaveta, jogue pela janela, formate seu HD mental quando for pilotar um scooter grande. Tudo é diferente, a começar pelo veículo em si. As dimensões dele causam um certo receio no começo, dificultando a “paquera” inicial. É mais ou menos como encontrar aquela mulher abençoada na balada: você não sabe por onde nem como começar.

No começo ele me deixou receoso, não sentia confiança em mim mesmo para equilibrar aquela massa nas saídas de semáforo – e mesmo parada no semáforo era um momento de tensão para mim.

O rodar é macio e confortável até que se pega um trecho de asfalto mal conservado. As suspensões de curso curto sofrem horrores na buraqueira nossa de cada dia e as belas rodas aro 13 não são suficientes pra absorver os choques. O resultado é que, a cada irregularidade, o scooter corcoveia feito os touros de J.R. Ewing em “Dallas”, além de sua parte inferior requerer mais atenção em lombadas, notadamente quando se roda com garupa. Passei por uma lombada no Guarujá que deu até pena do Jaspion, muito embora eu estivesse devagar. Notei, também, um leve incômodo nos punhos devido a posição do guidão. Suas pontas são levemente inclinadas, como nas custons, e isso me causou alguns bons minutos de dor nos punhos, devido a posição não-natural que eles se encontravam. Isso aliado à tensão de estar pilotando um scooter daquele tamanho (e, ainda por cima, que não era meu) num trânsito extremamente travado tornaram a primeira parte do passeio-avaliação um inferno de Dante.

Algum tempo depois… Conforme o tempo foi passando, o Jaspion foi mostrando que tem seu lado bom. O primeiro ponto positivo foi a ergonomia dos comandos: a despeito da inclinação das pontas do guidão, os comandos são bem distribuídos e de fácil acesso. E ainda conta com um prático e útil lampejador de farol, bem localizado e de fácil manuseio.

Gostei bastante dos portas-objeto no escudo frontal, um de cada lado e com tampa, ótimos para pequenos volumes e coisas que precisam ficar a mão. Destaque para o “bauleto” sob o banco. Fui fazer uma compra com a namorada e trouxemos os seguintes itens: – pacote grande de fraldas (48 unidades) – 5 latas de leite em pó – 4 pacotes de farinha láctea.

Coube tudo, bem acomodado, e ainda sobrou espaço. Outra coisa boa nele, como já era de se esperar, é o banco. Aqui vale também o princípio da adaptação já descrito no lance do guidão: no começo ele massacrou minha coluna, mas, depois de um tempo, já éramos “bons amigos”. O garupa tem fácil acesso ao banco graças as plataformas para os pés, largas e bem colocadas (minha namorada tem 1,60m e subia e descia do Jaspion com facilidade) e pode fazer uso do encosto caso sinta cansaço no percurso. O mais importante se o garupa for mulher (principalmente se for a sua!) é a possibilidade do uso de vestidos ou saias sem problemas de mobilidade pessoal e visibilidade alheia. Parece bobagem, mas muitos passeios são estragados só da mulher pensar em ter de usar calça ou shorts pra sair de moto.

O desempenho também é muito bom. Mais importante que a potência do motor, o que define o Burgman é a linearidade de funcionamento. O scooter “cresce” forte mas o faz de maneira suave. Incomoda um pouco a ligeira lerdeza na saída, característica do tipo de transmissão, mas com o tempo o piloto acha o “tempo” certo. Não deu pra pegar uma estrada, infelizmente, mas no trânsito urbano deu pra notar que ele não nega fogo quando solicitado, incomodando até mesmo motos de cilindrada superior.

Concluindo A palavra-chave para esses scooters grandes é ADAPTAÇÃO. Tudo neles é diferente e motociclistas muito “viciados” em um tipo de moto certamente vão “sofrer” quando encararem um scooter grande pela frente.

Tem que se ter em mente, também, que as características desses scooters não estão de acordo com o que se encontra no Brasil. Meu pai comprou o Jaspion pensando em mais conforto do que teve com seu antigo Address e seus dois ex-Burgman 125. Até lembro quando ele me perguntou: “E então, é igual a sua moto quando passa em buracos?” Puxa vida, minha moto era uma Falcon! Só eram iguais por terem duas rodas, e olhe lá. É nesse erro que muitos incorrem, de achar que eles são iguais aos outros tipos de motos. Não são, e muitos só descobrem isso depois de um tremendo desencanto. Quanto a mim, passei a olhar o Burgman 400 com outros olhos. Minha conclusão é de que alguns de seus defeitos podem ser superados com o tempo e o costume. Outros, talvez nem mereçam ser chamados de “defeitos”, e sim características que combinam mais com seu país de origem do que com o nosso. Como um bom gaijin: conserva suas tradições enquanto tenta se adaptar numa nova terra.