Dois amigos, duas máquinas e um destino: Gramado/RS

Dois amigos, duas máquinas e um destino: Gramado/RS

Desde que nos conhecemos em abril de 2008 no almoço em Piracicaba (Motonline Meeting Piracicaba ou MM Piracicaba) organizado pelo Bob Esponja, vulgo Willian, eu e meu amigo Claudinei já rodamos tanto de moto que não dá para mensurar distâncias. De um simples café na Bolsa do Café de Santos a uma costela elaborada pelo Carlão, pai de outro motonliner – Tex, em Curitiba – PR.

A desculpa é sempre a mesma: gastronomia. Quando não é gastronomia, é troca de uma peça na moto, a gasolina que parece estranha, enfim desculpas não faltam para rodar de moto. No final de 2009, por força de deveres profissionais das esposas (minha e dele), decidimos ir junto com elas, só que de moto.

Tudo organizado, tudo combinado, motos revisadas, reservas de hotel, pousada e passagens de avião das esposas confirmadas. Graças a Deus e a natureza por ele controlada, naqueles dias o tempo ficou seco. Saímos no sábado por volta das 20hs com o objetivo de tocar até Florianópolis-SC, mas respeitando o cansaço do companheiro e com hotéis da rede Íbis das cidades de São José dos Pinhais, Joinville, Navegantes e Florianópolis, marcados no GPS.

Parada perto de Araranguá (SC) para descanso e apreciar a bonita paisagem

Portanto, no mínimo rodaríamos até a região de Curitiba (cerca de 400 Km) e no máximo Florianópolis (cerca de 700Km). A noite de sábado estava aberta o que prometia frio e rumamos via BR-116, paramos no Graal Buenos Aires – Km 449, onde abastecemos as motos e fizemos uma refeição leve. Passada a divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, no trecho de serra em Campina Grande do Sul, começamos a sofrer com neblina que ora fechava, ora nos deixa em paz. Mas quando chegamos já na região de São José dos Pinhais – PR, a neblina fechou de tal jeito, que só abriria com serrote. Não quisemos correr riscos, já que teríamos que enfrentar outra serra para descer até o litoral catarinense. Foi aí que usamos o GPS para chegar ao hotel em São José dos Pinhais, pernoitarmos e seguiríamos viagem no dia seguinte. No odômetro da minha moto, já tínhamos rodados exatos 399,1Km.

Saímos do Íbis por volta das 10 horas, já que sabemos que nessa época do ano, há neblina densa até por volta das 9 horas. Parávamos sempre depois de rodarmos entre 200 e 220Km, onde abastecíamos as motos e nos hidratávamos. A rota por nós estava decidida: iríamos até Torres-RS, onde acessaríamos a Rodovias Interpraias, Rota do Sol até Gramado.

Canela (RS) e o Museu Mundo A Vapor: visita obrigatóriaParamos num posto de gasolina em Araranguá, ainda no Estado Catarinense e passava o jogo Argentina e México, pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Papo vai, papo vem com outro motociclista que estava numa Harley Davidson 883R, nos sugeriu de seguirmos pela serra. Faltavam 240 Km, mas o tal caminho seria reduzido em cerca de 100Km.

Afirmou ter passado por lá não há muito tempo e como o GPS confirmou a rota, lá fomos nós, já que nossas esposas nos esperavam em Gramado. Rodados cerca de 60/70Km, por asfalto excelente, cheio de curvas,  paisagens incríveis, especialmente, de plantações de arroz, com aquela grande muralha verde se aproximando, uma grande placa nos informa: Fim do asfalto a 200 metros.

Estrada de terra e cascalho certamente não é o habitat de uma BMW K1200S e de uma YAMAHA FZ6-N. Conclusão: voltamos para a BR-101 e rumamos para o itinerário que não deveríamos ter saído.

Ainda na cidade de Araranguá paramos para novo abastecimento das motos e o dono do posto em risadas da nossa aventura, afirmou que nossa decisão era sábia, já que era possível chegar a Gramado por aquele caminho, mas que só com moto de trilha.

Passeio entre Carlos Barbosa(RS) e Bento Gonçalves(RS) de Maria Fumaça

De volta a BR 101, chegamos a Torres-RS, acessamos a Interpraias, passamos por Arroio do Sal, Terra de Areia até chegarmos a Rota do Sol. Na rodovia Interpraias, paramos num posto só para confirmar o itinerário, já que o tanque tinha gasolina para chegar a Gramado. Duas rotatórias depois, acessamos a Rota do Sol. Essa parada, apesar de não rodarmos 200Km, serviu para um dar força para o outro.

Confesso que o cansaço apertou com o cair da noite e o frio gelado da serra, mas aquele cheiro de mato com aquele céu tão estrelado, que confesso não ter visto outro, me dava ânimo, me enchia de energia. Vai curva, vem curva, eis que surge um túnel cravado numa rocha e adentrando percebo que vai fechando de tal forma que a curva, a direita, parece um caracol e tome aceleração e deitando a moto e quando sai do túnel, já tem outra curva para a esquerda. Confesso que isso já me deu uma carga a mais de energia indescritível. Mas quando sai do túnel percebi duas luzes muito reluzente a minha direita e a minha esquerda, até que chegou uma reta que pude aliviar a mão e olhar: a minha esquerda uma lua cheia maravilhosa e a minha direita uma estrela tão grande, que reluzia tanto quanto a lua, como nunca vi em toda minha vida.

Logo que termina de subir a serra, o frio aumentou e percebi que não tinha mais montanhas a nossa volta, a sensação é que estávamos no topo do mundo. Em pouco menos de 1 hora saímos de 1 metro para 945 metros do nível do mar. Mas logo a estrada piorou consideravelmente, a ponto de entortar o aro da minha roda dianteira, nada grave, já que não murchou o pneu e nem afetou o balanceamento.

Já estávamos em São Francisco de Paula quando, numa rotatória, surge uma placa enferrujada informado Gramado a esquerda e Caxias do Sul no mesmo sentido. Na placa que informava divisa com Canela, a estrada voltou a ficar um tapete, mas com longos trechos de pista molhada e seca, alternadamente. As duas motos estavam equipadas com pneus Pirelli Diablo Corsa III que manteve a estabilidade em curvas e aderência nas inclinações e acelerações, pois nessa altura, não aliviávamos o acelerador, num ritmo entre 90 e 100Km/h de velocidade.

Chegamos a Gramado, pouco antes das 20 horas e como tinha esquecido o GPS ligado, na hora que precisamos para chegar no hotel e o Claudinei na pousada acabou a bateria. Mas a condição de perdidos em Gramado não durou muito tempo, já que o Hotel Serra Azul é tradicional na cidade, que conta com muita sinalização de excelente qualidade.

Fiquei no hotel e meu parceiro rumou para a Pousada Aardwark, pousada esta que me mudaria depois e que sem qualquer “merchan”, recomendo. Fica no alto de Gramado e é certa para quem procurar sossego a dois.

Durante a semana em Gramado, fizemos alguns passeios organizados pela agência Vitória Tur, que tem o preço justo, nada esfolando o turista. Posso afirmar isso, pois pesquisei outros preços ainda em São Paulo, e descobri que na Vitória Tur cobrava-se bem menos por serviços semelhantes.

Cascata do CaracolOs lugares que visitamos, as fotos dizem por si, Nem todas estão no texto, por falta de espaço. Lugares ou programas que não podem faltar: Cascata do Caracol com direito ao teleférico, Noite Gaúcha, com direito a costela assada na vala, Passeio Uva e Vinho que passa pelas cidades de Nova Petrópolis, Carlos Barbosa, Garibaldi, Bento Gonçalves, com passeio de Maria Fumaça, visita a Tramontina, Vale dos Vinhedos onde se visita a Miolo e Mundo à Vapor (em Canela). Há muitas outras evidentemente, mas essas são o básico.

Vale a pena pagar por um city tour em Canela e depois voltar em alguns lugares com mais calma de moto para curtir as belas paisagens. Fomos com a agência num dia e noutro dia voltamos de moto, para uma visita mais tranqüila, sem pressão de tempo, para a Casa da Família Franzen (Canela sentido Parque do Caracol), uma das primeiras casas construídas na cidade, feita de madeira sem pregos, só encaixadas, onde se pode saborear o melhor Apfelstrudel que já devorei. A receita é um segredo da família e é diferente da que costumamos saborear em casas alemãs de São Paulo.

Ainda, vale uma visita a TACNA, na cidade de Igrejinha, 34 Km distante de Gramado, que fabrica jaquetas, calças e macacões para motociclista, comandada pelo também motociclista Cézar Fuchs. Em Gramado o turista é bem recebido, a cidade é limpa, a educação de trânsito é um primor, já que o simples fato de o pedestre colocar o pé na faixa de segurança, os veículos param, eliminando a vontade de voltar.

Tivemos a sorte de nenhum dia chover, todos os dias com sol, clima ameno e a noite aquele friozinho típico, mas nada abaixo de 8ºC. Aliás, se não pegamos chuva nenhum dia, isso se concretizou na volta. Uma semana em Gramado e chegada hora do retorno.

Saímos todos em direção a Porto Alegre. As esposas ao aeroporto e nós para prestigiar uma leitora que me enviou e-mail e queria nos conhecer. Fica aqui mais uma vez um abraço a nossa leitora Catarina, que é fisioterapeuta, ainda não anda de moto, mas aprecia as máquinas e nossas desculpas pelo rápido café e bate papo.

Na estrada, pouca bagagem e muito cuidado

A idéia era voltar pelo mesmo trajeto, mas o leitor é a razão de ser do Motonline e nada mais justo que um pequeno desvio de alguns quilômetros. Saímos de Porto Alegre, pela Free Way, pista de excelente asfalto, por volta de 16 horas e rumamos para Florianópolis, via BR 101, já que retorno seria dividido em 3 etapas: Gramado/Florianópolis, Florianópolis/Curitiba e por fim Curitiba/São Paulo.

Hospedamos-nos, novamente, no Hotel IBIS, na ilha e pela manhã, após um farto café da manhã, que já era rotina desde Gramado, pagamos um táxi para dar uma volta pela belíssima cidade. Rumando para praia da Joaquina, em plena Lagoa da Conceição um carro em alta velocidade fugindo da polícia, por muito pouco não nos abalroa de frente, mas, nada que atrapalhou nosso deslumbramento pela cidade.

Voltamos para o hotel e saímos por volta das 12 horas rumo a Curitiba, onde pernoitaríamos na casa do nosso amigo Tex-Texano, vulgo Carlos Júnior, cuja família é sensacional e o pai Carlão, também motociclista, nos esperavam para jantar regado a cerveja.

E assim voltamos para São Paulo e de volta ao ritmo frenético da grande metrópole. Foram 2.733 Km muito bem rodados, sem chuva, sem sustos, graças a D’us e com a alma leve e renovada.

Muitos me perguntaram sobre as condições das estradas. Confesso que estão melhores, mas não preparadas para o motociclista e muito menos em condições que justifique a cobrança de pedágio. De São Paulo a Florianópolis não houve nenhuma melhoria, salvo a construção das praças de pedágio, ou seja, essas rodovias estão exatamente como foi entregue pela União a iniciativa privada.  De Florianópolis a São João do Sul, divisa com Torres-RS há vários trechos em duplicação que são um verdadeiro transtorno.

A minha próxima viagem já está marcada, mas desta vez meu grande amigo e companheiro não poderá me acompanhar, será para Três Lagoas-MS, onde prestigiarei o Lagoa MotoShow organizado pelo nosso ilustre leitor Totó Garcia. Mas essa será outra história.

 

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Viajantes André Garcia e Claudinei Cordiolli tambem fotógrafo.