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Em Fortaleza falta espaço nas ruas e a culpa é das motos

Recentemente a AMC – Autarquia Municipal de Trânsito de Fortaleza – resolveu piorar ainda mais uma situação que já é péssima ao lançar a seguinte ideia. A AMC (Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e Cidadania) e o Ministério Público Estadual estudam a viabilidade de construir faixas exclusivas para as motos e, além disso, impor restrição de circulação de motos em ruas mais estreitas. Ora, se as ruas são estreitas, a prioridade deveria ser para os veículos menores e não para carros, certo? E por serem estreitas, como colocar faixas exclusivas para motos?

É importante lembrar que em Fortaleza não há grandes avenidas como em outras capitais, com 4 ou cinco faixas. Além disso, ainda há ônibus e caminhões para circular, o que torna incoerente a ideia de colocar faixas exclusivas para motos. As autoridades vão na contramão do que seria lógico, pois se falta espaço, a restrição deve ser aos que ocupam mais espaço. Veja no que se basearam as autoridades para proporem isso.

No trânsito de Fortaleza (CE) uma pessoa morre e outras 17 ficam feridas em acidentes com motos a cada 2,2 dias. Entre 2009 e 2011 foram 480 óbitos e 19,3 mil feridos, de acordo com dados da AMC. A maioria por imprudência, imperícia e desrespeito do condutor às normas do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e a falta de CNH.

E o problema não se relaciona apenas a motos. A cidade vende cerca de 3 mil carros novos todo mês e o trânsito é um caos total. Pouco se pode fazer. O espaço é cada vez menor e estacionar em Fortaleza é pura sorte e uma boa dose de grana. Em média os estacionamentos particulares cobram cerca de R$ 4,00 por hora e dependendo do lugar e do horário chega-se a pagar R$ 12,00 para estacionar próximo a uma casa de espetáculos.

De todos os óbitos e acidentes registrados, em cerca de 75% deles os condutores não possuíam CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Culpar a moto pelo grande número de acidentes e de vítimas é no mínimo ser superficial na avaliação. Ora, se 75% dos pilotos acidentados com motos não possuíam CNH a culpa não é da motocicleta, mas sim da falta de fiscalização! E isso é muito fácil constatar quando andamos nas ruas, principalmente de várias cidades do interior.

Existem algumas cidades como Iguatu (380 km de Fortaleza), por exemplo, onde o Demutran (Departamento Municipal de Trânsito) atua e fiscaliza, mas o efetivo ainda é muito abaixo do que deveria ser para que a fiscalização surta o efeito desejado. Mesmo assim, Iguatu anda bem, ao contrário de alguns outros municípios vizinhos.

O problema é sim de engenharia de trânsito (refazer tudo que está aí) e de falta de fiscalização, pois não se pode proibir de comprar um veículo só por que não tem CNH. Segundo dados do Detran-CE referentes a fevereiro desse ano, a frota de motos na Capital (Fortaleza) chegou a 189,2 mil. Em contrapartida, o número de habilitados na categoria A é de somente 48,6 mil condutores, quase quatro vezes menos aptos a pilotar do que o total desse tipo de veículos em circulação.

No interior o problema é ainda maior. São 663,3 mil motos e apenas 106,8 mil com carteira – seis moto para cada habilitado. Mesmo considerando os habilitados na categoria AB (moto e carro) a diferença é grande. São 152,2 aptos na Capital e 202,8 mil nos municípios interioranos.

O Detran-CE desenvolve o programa Carteira de Motorista Popular, onde mais de 35 mil pessoas no interior regularizaram a situação, mas ainda faltam mais 55 mil selecionados que estão esperando para regularizarem a situação. Há a necessidade de acelerar esse processo. Mesmo não sendo essa a melhor solução, pois pouco se agrega ao motociclista o fato de ter CNH, podemos afirmar que já é pelo menos um pequeno avanço.

Essas soluções ‘milagrosas’ como a que foi proposta pela AMC de Fortaleza de restringir a circulação de motos, são semelhantes a tentar curar uma gripe. Você ameniza os efeitos com remédios paliativos, que nem sempre funcionam, e deixa que o organismo faça o resto. Ou seja: piora mais ainda o que aí está.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.