Estradas que matam...

Estradas que matam…

Minha família é bem espalhada, uma parte na capital do Rio de Janeiro e outra no interior, mais uma parte em Minas Gerais, outra no Sul, sem contar com uns agregados espalhados pelo Nordeste. Nessa parte que vive em Minas Gerais estão a maioria dos tios (14 só por parte de pai) e primos (acho que são quase 100, mas nunca consegui contar todos), então resolvi que o Natal seria um bom momento para reencontrar ao menos um dos tios, com seus nove filhos (família grande…). São de Itabira, cidade de Carlos Drummond de Andrade e primeira sede da Itabira Iron Ore Company, atualmente conhecida como Companhia Vale do Rio Doce. Seria um bom momento também para eu e Claudia encararmos uma bela viagem com a Harley Electra Glide Classic depois da transformação do seu motor.

Arrumamos as malas, os presentes e tudo mais na Harley e saímos na sexta feira pela manhã com planos de dormir em Ouro Preto, assim não correríamos o risco de um cansaço excessivo e ainda aproveitaríamos o passeio para conhecer as cidades históricas mineiras. Saindo do Rio de Janeiro pegamos um excelente trecho até perto de Juiz de Fora onde deu para desenvolver boa velocidade, curtir uma boa música a bordo e apreciar a paisagem. Foi sem dúvida o melhor trecho da viagem e a moto chegou a fazer médias de 20 km/l, a melhor média, pois no restante da viagem ficamos sempre perto dos 18 km/l. Perto de Juiz de Fora as duas belas pistas da BR-040 se transformam em uma pista dupla, ora alternando bom calçamento e acostamentos razoáveis, ora uma pista horrível, perigosa, cheia de buracos e sem sinalização alguma. Coisas de Lisarb mesmo…

Apesar disso, chegamos bem até Conselheiro Lafaiete onde peguei um trecho da Estrada Real que iria nos levar dali até Ouro Preto, depois Mariana, Santa Bárbara, Barão de Cocais e por último Itabira. Teria sido uma ótima escolha se no Lisarb os pontos turísticos tivessem o mínimo de conservação, pois a “Estrada Real” é por si um ponto turístico, ou via turística, onde os visitantes serpenteiam pelas velhas cidades mineiras e sua cultura secular. Só que a Estrada Real não “existe” no sentido de ser uma estrada só, ela é a união de várias pequenas estradas que são ligadas por vias sem nenhuma sinalização, sem contar que nessas pequenas cidades, como a própria Lafaiete, não dá pra diferenciar aonde o piso é ruim e aonde é um quebra molas invisível, daqueles sem tinta amarela e sem placa. Se tem duas coisas que os mineiros adoram é pão de queijo e quebra molas, até a BR-040 (que liga Rio a BH) tem quebra molas, e não é só um não, são vários e em vários pontos. Não adianta ter lei (em Lisarb, tem lei pra quebra molas sim, mas como várias outras, ela não “pegou”) porque basta ter um trecho de estrada perigoso que o prefeito vai lá e “planta” um quebra molas, ao invés de arrumar a estrada. Sinalização é algo até hilário. Quando existem, apontam para o lado errado (e eu não estou brincando) ou estão encobertas por plantas, outdoors ou até por outras placas. Depois de sofrer um pouco em Lafaiete, cidade onde não há nem um metro de asfalto liso, consegui pegar a estrada que iria até Ouro Preto, passando por Ouro Branco (é a mesma estrada para as duas cidades, embora as placas de Lafaiete digam o oposto). Em Ouro Branco a história se repete: centenas de quebra molas, milhares de buracos e nenhuma placa. Pelo menos a “Estrada Real”, depois que você entra nela, é razoavelmente boa até que surja um “ponto perigoso”, geralmente perto de uma vila ou escola, que os prefeitos de Lisarb fazem questão de construírem a um metro da rodovia. Nesses pontos perigosos vê-se de tudo, e infelizmente o que eu vi foi morte. Pelo menos dois dos vários acidentes que presenciei ou que passei perto foram fatais, infelizmente. Em uma época de Natal, onde a Paz e a Família deveriam ser o mais importante, ver corpos mutilados em uma estrada “turística” não é nada agradável. Cheguei a Ouro Preto por uma via menos comum (a tal Estrada Real), e talvez por isso fui premiado com uma completa ausência de placas, a ponto de eu ter tomado a direção errada para o centro histórico dezenas de vezes, em plena chuva de final de tarde naquelas ruas de pedras escorregadias pilotando (ou tentando pilotar) uma moto com peso total acima de 500 kg. Em uma das inúmeras subidas esburacadas e molhadas, com a moto deslizando aos meus pés, decidi ir embora e dormir em Mariana, uma cidade mais plana, chega de Ouro Preto! Lá chegando, mais uma vez nenhuma placa a vista. Pra falar a verdade na estrada tinham duas placas apontando “Centro Histórico” em direções diferentes, assumi que a “Centro Histórico – Esquerda” era mais confiável que a outra, que apontava para seguir em frente. Acho que peguei a direção certa, mas mesmo assim fiquei engarrafado uns 15 minutos por causa de um alagamento perto das vias que dão acesso ao centro (estava chovendo) até conseguir chegar até uma boa pousada. Pelo menos a pousada era muito boa, e a comida no restaurante ao lado melhor ainda. Nada como uma boa cerveja, um caldinho de feijão e um frango ao molho pardo para esquecer as mazelas das estradas. Os mineiros são extremamente atenciosos com os visitantes, não posso deixar de comentar. Dia seguinte sigo para Itabira passando por várias cidades pequenas. A estrada é linda, a paisagem por cima daquelas serras cheias de minérios é deslumbrante, mas é bom levar uma bússola porque não há placa alguma, e leve também uma bola de cristal que avise que depois daquela curva em decida há uma cratera escondida que cabe a moto inteira dentro. Deus do céu, porque em Lisarb os buracos não ficam ao menos em um lugar visível? Pelo menos isso!

Nesse trecho mais um acidente, pelo menos não foi fatal. Em volta do carro esmigalhado, roupas, presentes e pessoas chorando assustadas, mas nenhuma morte. Deus é lisbariano!

Antes de Itabira é preciso pegar um trecho da BR-262 (que as placas insistem chamar de BR-381, que na verdade só começa perto de João Molevade, em outra direção), e a estrada estava boa na direção Belo Horizonte pelos 5 km que precisei estar nela até que vejo uma placa em uma subida: “Itabira, acesso a 500m” e logo em seguida “Fim da 3ª faixa a 400m”. Pensei “pelo visto a terceira faixa acaba antes do trevo de Itabira, preciso tomar cuidado”, mas na verdade a estrada inteira acabava antes do trevo, que ficava no início da descida seguinte em meio a um canteiro de obras não sinalizado, com quebra molas invisíveis da mesma cor do asfalto com as três pistas de cada lado do morro se transformando em apenas uma “viável”. Por causa da obra a agulha que serviria para pegar a direção de Itabira estava bloqueada, passei reto para não cair, e tive que dar a volta em um retorno próximo pra finalmente pegar a entrada para Itabira usando o desvio pelo acostamento do lado oposto da pista. Essa eu realmente me assustei.

Na volta decidi abandonar a “Estrada Real” e seguir pelas BR’s, passando pelo anel rodoviário de Belo Horizonte. A BR-262 é horrorosa nesse trecho, e infelizmente vi uma batida frontal entre dois veículos em direções opostas. Para aquelas famílias, o dia 25 de dezembro certamente ficará na lembrança como um dia triste, sem presentes, sem festas. Seguindo pelo anel rodoviário, muita chuva e várias derrapagens causadas por aquaplanagem, mas pelo menos aparentemente sem mortes. Eu procurei ficar na parte central da pista, aonde é mais seco e seguro, e mesmo andando relativamente rápido para a situação, alguns caminhões insistiam em ultrapassar me jogando toneladas de água suja e pedras. Motociclista sofre!

Quando finalmente peguei a BR-040 na saída de BH, já com o tempo limpando, passei seguramente uns 80 km em meio a um grupo de adolescentes bêbados que seguiam para o sul. Ora eles brincavam de racha, lado a lado, ora um ultrapassava o outro, ora me fechavam e davam risada, e assim foi até eu desistir e parar para abastecer. Eu havia saído de Itabira na tarde de segunda, feriado de 25 de dezembro, e apesar dos sustos e da chuva daria para chegar ao Rio de Janeiro antes de anoitecer. A prudência me recomendou dormir em Barbacena em um ótimo hotel escola do SENAC, com direito a piscina aquecida e sauna, para voltar ao Rio só no dia seguinte pela manhã.

O saldo final desse fim de semana foi um misto de boas e más lembranças. As boas por causa da paisagem de algumas dessas estradas, especialmente da Estrada Real, além do reencontro com a família, o bom desempenho da moto e a festa do Natal, as más ficaram por conta das terríveis estradas que nos servem, que matam sem dó nem piedade, sem sinalização alguma, sem o menor cuidado com o motorista para no final virarmos apenas uma estatística de mortes em um final de ano. Se há algo bom nessa história é que eu não vi nenhum motociclista acidentado, o que não significa muita coisa, pois notei também que somos muito poucos nessa carnificina rodoviária.

Segundo a Folha de SP foram contabilizadas entre os dias 22 e 25 de dezembro nada menos do que 1743 acidentes em estradas federais com 90 mortes e 1208 feridos, Minas Gerais foi o campeão de acidentes seguido por Santa Catarina. Não estão nesse número os acidentes e mortes que presenciei nas estradas menores, que não são federais, e ficam fora das estatísticas oficiais. Ao ler esse balanço pensei nas famílias que vi chorando na beira das estradas estaduais, nem nas estatísticas elas serão lembradas.