Com dificuldade de financiamento, setor deve voltar-se ao consórcio

Financiamento de motos: O que está ruim pode ficar ainda pior

Sabemos que o Setor de Duas Rodas está passando por dificuldades fruto de uma restrição de crédito por parte das financeiras, conforme já abordado aqui. Acontece que aquilo que está ruim pode ficar pior – e ficou. E o mais grave: sem aviso-prévio.

O mapa da inadimplência: ela dobrou em 2012 e o segmento de motos é o primeiro a pagar o preço

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Recentemente (dia 22 de junho de 2012) a Cielo cancelou o parcelamento em 10 sem juros para motos e carros sem aviso-prévio. As concessionárias ficaram sabendo disso no momento da venda de uma moto. A máquina informava “EXCESSO DE LIMITE DE PARCELAS – OPERAÇÃO CANCELADA”. Contatada a administradora, a informação recebida do operador foi simples e direta: -“Parcelamentos a preço de à vista, a partir de agora, apenas em três vezes”.

O pior de tudo é que essa decisão não foi comunicada às concessionárias de carros e motos. Além disso, toda a publicidade e todas as ações de marketing que estavam focadas nessa vantagem financeira para o consumidor também terão que ser canceladas. Como se isso só já não bastasse ainda terão que segurar o cliente zangado que deseja comprar no cartão em 10 sem juros, podendo, inclusive ter a concessionária que vir a sofrer ações no PROCON ou DECON por propaganda enganosa.

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Reza o princípio da parceria que exista a reciprocidade – ou seja – o que é bom pra mim tem que ser bom pra você na mesma medida. Porém a Cielo não pensou assim. Apenas decidiram e não se preocuparam com a repercussão negativa junto aos clientes e às revendas ou concessionárias.

Em um ano de vacas magras, para não dizer esquálidas, tomar decisões como essa é o mesmo que cortar pela metade o suprimento de ar de um paciente. A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (ABRACICLO) tenta de todas as maneiras buscar, junto ao Governo e financeiras, alternativas que possam reduzir o inevitável estrago provocado pela forte queda nas vendas. Infelizmente ainda nota-se uma certa insensibilidade para a causa.

A Associação Nacional de Fabricantes e Atacadistas de Motopeças (Anfamoto) já prevê um aumento do número de demissões e a (Abraciclo) afirma que as vendas podem ficar abaixo do resultado de 2011. Dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) referentes à primeira quinzena de junho mostram que os emplacamentos de motos recuaram 8,97% na comparação com o mesmo período de maio e caíram 19,69% ante a metade inicial de junho de 2011. Porém, a venda de automóveis apresentou altas de, respectivamente, 24,14% e 29,10% nesses mesmos períodos, após quedas anuais registradas desde fevereiro. No caso dos caminhões, apesar de expressivo recuo de 27,95% sobre a primeira metade de junho de 2011, houve uma recuperação na margem, de 4,95%, o que indica reação após recentes ações de incentivo do governo ao setor automotivo.

O que no começo do ano era uma expectativa de alta de 5% nas vendas, transformou-se em uma retração – sem valor estimado – ante 2011.

Quinto maior fabricante de motos do mundo, atrás apenas dos grandes mercados asiáticos China, Índia, Indonésia e Tailândia, e com um faturamento anual próximo a US$ 7 bilhões, o polo de duas rodas instalado em Manaus, (AM), sinaliza grandes dificuldades com paradas de produção sendo realizadas pelas montadoras da região nos últimos meses, incluindo a poderosa Honda, dona de quase 80% do mercado e capaz de fabricar uma motocicleta a cada oito segundos no Brasil, país onde está a maior fábrica de motos do grupo japonês no mundo. O cenário que estava cinza-claro já muda para um tom mais escuro e o sindicato local já contabiliza 1,3 mil demissões nas fábricas de motos entre janeiro e maio, 72,6% a mais do que no mesmo período de 2011.

Para piorar, ainda tem a verdadeira avalanche de matérias contra motocicletas produzidas pela mídia não especializada, a qual está desinformada de um dado precioso: -“Quem causou o acidente?”. Ninguém sabe informar, só sabe-se que foi com uma moto e por ser com uma moto a culpa é do motociclista ou motoqueiro, pois ela está no chão, o cara foi parar no hospital ou cemitério e a conta vai parte para o SUS, parte para o DPAVT e para a Previdência Social.

É no meio dessa situação que uma importante operadora decide de forma unilateral, sem aviso-prévio, criar ainda mais problemas e causar ainda mais prejuízos ao simplesmente eliminar um parcelamento que ajudava a quem possuía a pequena vantagem de vender motos em 10 vezes sem juros no cartão de crédito. Mesmo pagando taxas de administração (que não são baratas) a operação ainda sim era interessante e estava ajudando a muitas revendas a continuarem respirando e, portanto, sobrevivendo.

Quando o que já estava ruim a Cielo resolveu piorar, não sabemos agora até onde e quando a capacidade de sobrevivência de um setor pode ir. Algumas concessionárias tomaram a decisão de enviar à Cielo toda a publicidade que foi inutilizada pela decisão sem aviso-prévio e, junto com esta, todas as vendas perdidas. Não há o que fazer com dezenas de banners, milhares de panfletos e flyers, anúncios de rádio e jornal que divulgavam uma propaganda, a qual, a partir de agora, soará como enganosa. O que estava ruim ficou pior.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.