G de Gostosa

G de Gostosa

Esse cara é veterano e, japonês. Absolutamente nada contra as outras etnias, inclusive a minha, mas, esses japas são firmeza. Respeito, humildade, honestidade, clareza, perseverança, dificuldade em falar português, gosto por mulheres bonitas e por motocicletas, são atributos comuns a todos os que conheço. Gosto desses caras!

Eis que o dito me convida pra testar uma BMW. É, T E S T A R U M A B M W. Isso mesmo. Uma moto BMW. Nova. De enduro. Se o cara não tivesse olho puxado, provavelmente desligaria na hora, achando que só poderia ser sacanagem…. Mas, meu histórico de relacionamento com este pueblo, não me permitiu. De mais a mais, esse sujeito tem mais hora de motociclismo do que eu, de mesa de bar. O cara é totem….

Pedi para que minha secretária eletrônica verificasse minha agenda. Faria testes para a Ducatti, Laverda e Lamerda, naquela semana. Em consideração, agendei o teste para: “o dia, a hora e o lugar, que você quiser!!” Por incrível que pareça, dormi todos os dias que antecederam a ocasião. Talvez, nem meu subconsciente, estivesse acreditando naquela proposta….

A data chegou, peguei meus badulaque, montei na minha Fiat, e fui! Pensei em ligar pro Juha ou pro David, pra tomar algumas dicas sobre o set up, mas, fui desaconselhado pelo meu consultor técnico. Nosso combustível é outro e …, nossa tocada é bem ….., distinta….. Não funcionaria….

Minha história com as BM não é breve. Comecei com uma peça de museu, denominada R60 (era tudo que a grana podia comprar), depois, uma R100GS, seguida de uma GS1100, uma R1150R, uma R1150GS e, por fim, uma F650. A exceção da 650 (que usa um Rotax), todas estas bikes (a serie R), são equipadas com o famoso motor boxer, dois cilindros, contrapostos.

Tudo o que eu sabia de BM, até então, remetia a : um estranho movimento lateral (gerado pela configuração do motor), uma transmissão por eixo cardã, comandos elétricos que só os alemães entendem, suspensões telelever/paralever (limitadas mas eficientes), extrema durabilidade, séria tendência a borrachas ressecadas prematuramente e excelente performance.

Acredite, BMsGS, além de verdadeiros tratores, são ultra confortáveis, super fáceis de manobrar (apesar do tamanho) e, pasme, MUITO boas de curva. Coisa de dar inveja a muita moto que não pode nem ver terra…. No Off Road, a BM chegou ao “céu”, com um dos maiores ícones que a indústria motociclistica já produziu : a série R-GS. Uma motocicleta capaz de quase tudo, tomadas as proporções de tamanho. Talvez a melhor motocicleta de turismo “dual purpose”, já concebida.

Mas, apesar das fotos do Mick Diamond treinando numa HP2 (basicamente uma GS mais bem suspensa e aliviada de supérfluos), dos prólogos do Erzberg, e das campanhas vitoriosas em alguns períodos do Dacar, nunca houve uma BM “hard core off road”.

Eu, como paulistano, sempre gostei de “excentricidades” do velho continente. Basicamente, porque, ladrões só roubam o que se pode vender. Já ouvi falar de uma coleção de Bimotas no morro? Assim, quando a BM ensaiou os primeiros passos nesse território, recebi a notícia com muita consideração.

A BM tem uma coisa muito legal. Os caras mantêm em linha, peças para todos os modelos, mesmo os mais antigos. É impressionante, coisa de Alemão. Sérios como a cerveja que tomamos! Tudo o que eu precisei até hoje, tinha, ou, veio muito rápido. O preço….., bom …, melhor pagar e ter do que, não ter por dinheiro nenhum. Dia destes, comprei cabos e um reparo de carburador pra uma BM. Custou o que custaria equivalentes de uma japonesa, originais. Com uma diferença: a moto era “velha”, comprei no Brasil e esperei, exatos 7 dais da encomenda.

Caraca…., isso era pra ser um “relatório” de test e eu, ainda nem falei da bike…. Já tinha lido vários testes da BMW G 450X. A bike e cheia de soluções únicas (pra não dizer esquisitices), como qualquer BM. Eu não sou um cara técnico, na verdade, tenho alergia a números (a não ser os precedidos das siglas R$, US$ e, congêneres).

Também não sou um piloto. Aliás, ando com dificuldades em explicar como é que ando de moto há tantos anos e, ainda não aprendi. Mas, de qualquer forma, vou tentar explicar o que vi e senti:

O motor desta bike, um 450/4T, gira ao contrário…. É, o “vira”, gira no sentido inverso ao movimento regular da roda traseira. O eixo de transmissão deste motor, e o eixo “pivô”, da balança traseira são “concêntricos”. O tanque da bike é “embaixo” do banco. Como se não bastasse, o motor é injetado e posicionado de forma pouco… “convencional” (ele é levemente inclinado pra frente), a balança traseira é mais longa que o “padrão”, além da já bem difundida suspensão traseira sem “link”. Na verdade, essa bike é muito mais tecnologicamente “distinta” do que isso, mas, isso é tudo que eu consegui captar no “briefing”.

Imagina você olhando para uma modelo alemã maravilhosa, sentada a mesa, à sua espera, e eu, com uma prancheta lhe ditando as medidas e constituições da moça….. Foi mais ou menos isso. Ouvi tudo com um “Ahan, Ahan, Ahan” automático e, fui namorar! Agora você, que teve saco de ler isso até aqui, vai saber toda a verdade: É impossível afirmar quase qualquer coisa, posto que tudo é relativo!!!!

Ser um “piloto de teste”, mesmo que sem a menor pretensão, é relatar fatos óbvios e questionáveis. Tudo depende de tanta coisa que, qualquer afirmação é comprometedora. Depende do set up, depende do pneu, depende do tipo de pista, depende da referencia, depende da qualidade do combustível, depende do uso pretendido, depende da umidade, da altitude, da chuva, do sol, dos parâmetros e, até, do nível técnico (este item, definitivamente, não foi levado em consideração) e da capacidade do piloto, de se expressar em palavras. Ou seja, é tudo questionável, relativo, variável.

Mas, sou um profissional, sou pago pra isso e, não vou decepcionar meus leitores (Oi mãe!!) A bike é MUITO legal! O motor é tão dócil e progressivo que, a primeira vista, dá a impressão de ser “menor”. Determinado momento, olhei na lateral pra ver se aquele se tratava mesmo, de um modelo 450. Parece uma 400cc…. Isso é, pra grande maioria dos mortais, muito bom! Todo mundo sabe (mas teima) que as 450cc “convencionais” são muito fortes. A BM é absurdamente maleável e progressiva. A injeção é perfeita. Tiramos até um “campeonato” pra ver quem é que conseguia afogar a bike, acionando bruscamente a manopla do acelerador. Ela ganhou. Mesmo com gasolina comum, a resposta é imediata, linear. Sempre. A marmita é enorme e, se vacilar, da até pra escutar um Carlos Santana no rolê. Muito silenciosa.

As suspas são “top grade” e funcionam como tais. Macias, progressivas, muito bem direcionadas para o enduro cross country. Os freios também são coisa boa. Equivalentes aos melhores do mercado. O acionamento do pedal traseiro é ….. “estranho”….

Como nas Husqs antigas, há um espaço entre o pedal e a tampa do motor, onde a sola da bota “enrosca”, com muita facilidade. Em compensação, o manete do freio dianteiro é largo e transmite excelente tato. As pedaleiras também são muito boas e muito bem posicionadas. De fato, o que mais me surpreendeu na bike foi a “ergonomia”. A bike é muito “fina”. O quadro é fino na junção com a caixa de direção. A ausência do tanque e a extensão do banco (este vai do para lama traseiro, até, praticamente a caixa de direção), fazem desta, provavelmente a motocicleta de enduro mais “receptiva” à movimentação que eu já vi, ou andei.

Nas tomadas de curva, você pode chegar a ficar, literalmente, encostado na mesa. Por outro lado, o tanque no centro, traduz uma sensação de equilíbrio muito grande. É muito confortável andar de pé sobre as pedaleiras, por longos períodos e, nesta posição, extremamente fácil de mudar a trajetória. A embreagem não é, mais parece, hidráulica. Por conta de uma nova tecnologia, que eu não sei explicar, mas existe, a bike tem uma embreagem que parece a de uma 125/2T. Muito precisa e, durante todo o teste, não demonstrou nenhum sinal de fadiga. O cambio lembra a genética BM. Como nas “Rs”, preciso, mas, um pouco pesado no engate. Nada absurdo, só diferente.

Uma característica chamou atenção de todos: a frente da bike não levanta. O fato é tão, “incomum”, numa 450cc moderna que, a principio, me pareceu, falta de motor. Na verdade, não é. A bike empurra. Empurra bem. Empurra pra frente, não pra cima. A impressão que se tem, a primeira vista, é de uma suspa desbalanceada. Parecia uma bike “cabeçuda”, com a frente baixa e uma suspa traseira muito rígida. Mas, com o tempo, vê-se que não é nada disso.

A bike é bem nivelada e as suspas são bem equilibradas. Ela só não tem a tendência de levantar a frente quando se despeja a potencia. Ela simplesmente traciona e vai pra onde o guidão estiver apontando. Estranho…. Inusitado, pra quem tem a cultura motociclistica que estamos acostumados. Certamente, este é um comportamento físico, advindo da configuração pivô/balança/distribuição de massa/posicionamento do motor e etc…. Se por um lado é mais difícil de descolar a frente do chão para transpor algum pequeno obstáculo, por outro, a dirigibilidade é fenomenal!

Com um motor linear e uma frente colada no chão, essa é uma bike muito favorável ao enduro. É muito fácil manejá-la no travado, mesmo quando o “grip” é desfavorável. A alimentação não tem “buraco” e o motor tem força, desde baixas rotações, a disposição de uma embreagem leve e precisa. Isso se traduz em conforto, dirigibilidade e precisão. Tudo que uma enduro de verdade precisa. A bike não “cansa” com trabalhos extras de embreagem, nem tão pouco, correções constantes de uma frente “leve”.

Evidentemente, tudo tem seus prós e contras. O motor não tem a explosão costumeira de uma 450cc “convencional”. Pra quem consegue e precisa usar isso, pode ser um “problema”. Em algumas retas, perto dos 100km/h, experimentei um pouco de “chime” no guidão. Nada absurdo, mas sensível. Num rally, por exemplo, um amortecedor de direção seria, essencial, obrigatório.

As gomas são Metz e, dispensam comentários. O acabamento é bom e, não fosse pela posição do bocal do tanque, diria que o projeto é “perfeito”. O bocal do tanque fica sobre uma “capa” de borracha que nivela e dá acabamento, na altura do banco. O problema é que a lama, invariavelmente, cobre aquele espaço. Ou seja, abriu o tanque pra abastecer com a moto suja (procedimento comum), grandes serão as chances de que alguma fração daquela sujeira, em algum momento, acabará dentro do tanque. Praticamente inevitável.

Evidentemente, esta é a minha opinião. Baseada nas referencias que tenho e, no nível de pilotagem (que não tenho!). Diria que a BM 450X é uma excelente e revolucionária motocicleta. Diria ainda que ela deverá agradar muito os treieiros de plantão. Gente que, como eu, não anda o que uma 450cc anda, mas, gosta de ter um conjunto relativamente potente.

450´s são legais em sufocos, regiões de topografia muito acentuada, longos dias de rolê, ultrapassagens… Gente que procura uma bike confortável, fácil de manejar. Ainda em minha opinião, acredito que esta não seja (no estado original, fique bem claro), uma moto pra um pró, que domina a técnica e tem habilidade suficiente pra colar a mão o tempo todo.

Vou mais longe em dizer que, ainda na minha modesta opinião, ela está mais para uma verdadeira moto de enduro (com toda a compatibilidade com as sessões de trial, comuns no enduro europeu), do que para uma moto de MotoCross “repaginada”, como as versões comumente utilizadas no enduro norte-americano. Fique claro que isso não é uma critica. Eu mesmo, depois de tantos anos e tamanha familiaridade com os modelos de MX, não sei o que faria diante da possibilidade de ter que escolher entre uma ou outra.

Gosto de motos de MX, adaptadas, no enduro. Isso é cultural. Fruto das disponibilidades de mercado e do lugar onde estou acostumado a andar. Mas, tenho certeza de que alguns amigos cabritos, adorariam a ciclística desta BM e a “tratabilidade” do conjunto motor/transmissão.

De qualquer forma, e isso eu tenho certeza, todos deveriam experimentar essa “nova fronteira”, de fato, a bike é “peculiar”, diferente, muito boa! Muito provavelmente o alemão que definiu esta sigla “BMW G 450X”, jamais imaginou que ela se enquadraria perfeitamente na correlação com nosso idioma: G de GOSTOSA! É exatamente isso que essa bike é!

MOTOHEAD

Leia o teste da BMW G 450X, por Carlos (bitenca) Bittencourt)



Pioneiro no Motocross e no off-road com motocicletas no Brasil, fundou em 1985 o TCP (Trail Clube Paulista), que organizou a 1ª prova de enduro tipo FIM (Enduro da Mentira). Desbravou trilhas em torno da capital paulista enquanto testava motos para revistas especializadas. É editor técnico e consultor no Motonline.