Got To Love Bikes

Got To Love Bikes

Porque elas representam liberdade? Porque elas são rápidas? Porque eles vão onde nem todos os veículos podem ir? Por conta da emoção de se equilibrar em duas rodas? Porque elas são sexys? Por conta da inerente natureza competitiva? Pra sair do lugar comum? Porque são veículos mais adequados para a locomoção solo do dia a dia? Por conta da constante exposição às intempéries e , conseqüente maior proximidade com a natureza?

Difícil explicar esta razão….

O fato é que temos as motos. Aliás, temos todas as motos. Talvez as motos nunca tenham sido tão diversas e acessíveis.

A previsão pro findê era de chuva. Paradoxalmente tenho andado tão incomodado com a idéia do aquecimento global que nem me importo mais em passar meses debaixo d água. Deixe que chova! Era sexta feira e eu tava mesmo a fins de me perder ou, talvez, me encontrar. Sabia que este sentimento poderia ser perfeitamente materializado numa boa rodada de cervejas inserida numa overdose de conversas sobre motocicletas. Já que eu não ia andar mesmo, tava de bobeira, e não tinha nada pra organizar.

Resolvi passar na oficina de um brother. Esta é uma das oficinas mais loucas e produtivas que eu conheço. Imagina que este sujeito, o proprietário do estabelecimento, já foi campeão minero de bmx, fez os dois primeiros “Independência”, anda de skate religiosamente e é customizador de motocicletas. Por aí dá pra se ter uma idéia do que vai na cabeça do cara…

Num dos elevadores de serviço, uma HD full size, bem nova, sendo trabalhada. Já de cara o auxiliar (um MXer e Freestyler, aposentado por imposição familiar, mergulhado na cultura “V”) aponta pra distância da bike pro “chão” e vai dizendo: “Colocamos um maço de cigarro. Essa foi a medida. Um maço de distância do chão!”

Nossa…., aquilo vai ficar um Rolo Compressor!!!! Pesado, metálico, esmagador…!!

Aquele motorzão deslizando quase colado no asfalto, numa posição de pilotagem que, se não me engano, virá a incluir um semi guidão preso às bengalas (ou coisa que o valha), novas mesas, um novo tanque redimensionado feito à mão, escapes, pintura, etc, etc ….

Quer receita melhor que essa?!

O “patrão” tem uma HD “metamorfose ambulante” e uma Buell das antigas. Estúpida, mercenária, expatriada, maravilhosa. Já a conheci, a HD, em três ou quatro formatos diferentes.

Esta é só uma, das maravilhosas faces de uma HD. A possibilidade de transformá-las em quase qualquer coisa que o seu espírito idealizar.

Essa bike, acho que já disse, tem o câmbio na mão esquerda, a embreagem no pé esquerdo e não tem freio dianteiro.

Tudo isso pesando uma porrada de quilos e com um guidão alto, quase um up hanger.

Agora , pense nisso: Você vem cruzando num top, na cidade, com uma avenida movimentada no alto do morro. O semáforo fecha, o trânsito se abre para a avenida e fecha pra você. Você tem que parar e está com sua namorada na garupa. Você para a bike antes do top, mas a bike irá tender a descer de ré. É um top acentuado.

Se você puser o pé esquerdo no chão ficará sem ter como acionar a embreagem, se puser o pé direito no chão, ficará sem freios… Imaginou como é isso…?

Pois é, alguns destes caras andam pelas cidades, mundo afora, assim. Nessa base. As suspensões são restritivas e os motores, frequentemente orbitam a casa dos 100hps. O vacilo não deve ser algo a se considerar. Pra andar lançado numa moto destas o cara tem que antever os acontecimentos. Marcou bobeira ali .., o bicho pega.

Eu gosto de HDs. Tem como não gostar? A visita à oficina me inspirou. Fiquei feliz! Cruzei um irmão e fui tomar uma. Dúzia.

Acordei sábado meio de cabeça gorda… Tive que ir à academia para retomar o exercício das minhas funções vitais. Os gritos do Ian Guilan me trouxeram de volta à realidade. Love Deep Purple…!!

A tarde chegou depois do almoço e o bode, veio com ela… Chovia e fazia frio.. Pulei do sofá, calcei uma roupa e rumei pro outro lado da cidade. Na cidade grande, numa tarde chuvosa, isso pode ser longe. Fui. Tinha uma certeza, iria ver motocicletas e falar sobre elas.

Era o bastante.

Era a segunda vez que eu iria encontrar o arquiteto daquela idéia toda (uma coleção). Se não, era a primeira vez que eu entraria numa coleção de motos antigas, com certeza, este tipo de acontecimento, não é comum na minha vida.

Cheguei , e não era a única visita. A casa estava cheia de adictos em motores e velocidade. Um dos presentes havia participado do projeto de uma geração de carros de formula 1. Os Copersucar. Tem idéia do que eu tô falando…?

Os caras falavam de Lolas, Ferraris e F3s, como nós falamos de CRs, YZs e WRs …

Tava me sentindo uma criança de 4 anos na conversa. Fui conversar com o mecânico pra ver se dava assunto. As duas primeiras frases proferidas pelo sujeito , foram:

“Cheguei da Itália em 1952. Vim mexer com motos…”

Putz…..! Quié qui eu falo pra esse cara agora??? O cara já partiu de um nível que não dava pé pra mim… No elevador, como testemunha, uma HRD em fase final de restauração. HRD ou Vicente, como são mais conhecidas, são motocicletas inglesas de renome e tradição. Do pouco que sei , já nasciam exclusivas.

Peças artesanais , fruto da mais avançada tecnologia da época, a serviço da performance. Diz a lenda que esta moto era da policia rodoviária.

É um modelo 1948 que, se não me engano, tem cerca de 90hps e, se não me equivoco, pesa algo perto dos 180kg. Trace uma linha entre estes três números, 1948 / 90hps / 180kg. Traçou? Então você sabe do que estamos falando.

O nome da beleza eu não sei ao certo. Parece que é uma “Rapide”. Sugestivo, não?

Na bancada ao lado, vejo a foto de uma versão “RR” da mesma bike. A dita “Black Shadow”. Me perdoem os puristas e pesquisadores. Não sou muito bom com nomes e números, mas, se não era exatamente isso, era bem perto disso.

O fato é que parece que foram vendias dez destas para a polícia rodoviária. Ao término do período de experimentação o representante da marca teria entrado em contato com o responsável pela aquisição de motos para os soldados, na provável intenção de colocar mais um pedido. Ocorre que a lista de acidentes e óbitos envolvendo os dez primeiros exemplares era tamanha que as eventuais encomendas a fabrica foram terminantemente suspensas.

A conversa (na verdade eu não abria a boca) seguia ilustrada por fotos da época…. Imagens como: a primeiras corridas em Interlagos…., na época, um circuito de terra com enormes curvas compensadas…, pode imaginar isso? Tente.

Corridas de rua em Santos , no paralelepípedo. Capacetes e jaquetas de couro em calças de sarja ou jeans, devidamente suspensas. Topetes, cigarros, moças de vestido, arquibancadas e cercas de madeira. Invariavelmente presentes nestas imagens, motocicletas. Motocicletas com muito pouca suspensão e quase nada de freio que cruzavam a 170/180km por hora, muitas vezes na terra….!!!

Tem noção?

Comecei a achar que deveria dar uma volta nas instalações. Ainda não havia começado a ver as motos da coleção propriamente dita. Cheguei, fui direto pra oficina e, a julgar pela qualidade da informação recebida ali, naquela meia hora, acho que poderia efetivamente morar lá por uns 10 anos. Talvez isso fosse suficiente pra começar a entender alguma coisa daquela época, daqueles caras e daquelas motos.

Simplesmente me virei e, às minhas cotas, uma Galo. Uma Honda 750cc da década de 70. Preparada. Customizada com acessórios clássicos do estilo Café Racer.

Envenenada, como eles diriam, na época em que elas circulavam.

Um conjunto tanque de alumínio, rabeta, comandos recuados, balança traseira redimensionada, amortecedores especiais, suspensão dianteira e freios de uma moto maior (uma Bol D´or , se não me engano outra vez), um motor com um kit Yoshimura (se este não é mais um equívoco), escapes, carburadores maiores, semi guidões Tomaselli e … mais cinqüenta e sete outras alterações que eu não pude observar….

Coisa que vira pra lá dos duzentos por hora. Cadeira elétrica.

Se o museu só tivesse duas motos pra mim já tava de bom tamanho. Poderia passar uma vida ao lado de qualquer uma daquelas bikes.

Ainda tentando sair da oficina passo por uma fileira de motos aguardando o início do processo de restauração. No meio delas, tímida, uma Triumph me chama a atenção pela geometria do quadro.

What a bike…. Provavelmente uma Thophy da década de 50.

Me apaixonei na hora. Só tinha olhos para ela.

Estas motocicletas, em versões aliviadas e pneus de cravos, equipadas com motores 4T de 300/400cc, foram as precursoras das motos de enduro atuais.

O homem por trás de tudo isso, em meio a conversas entusiasmadas a respeito do mais alto nível do esporte a motor, veio me chamar pra conhecer os itens já acabados do acervo.

A educação e simplicidade do sujeito merecem uma nota. Não é qualquer um que realiza um projeto destes. Restaurar, montar e manter um acervo é trabalho de amor e dedicação. Não se compra isso.

Impressionante o quanto estes caras já não queimaram de gasolina….. As histórias parecem coisa de filme…..Finalmente subo para o salão de exposição.

Nooooooooossa….!!!

A primeira impressão se assemelha a de se entrar num bar cheio de mesas com muitas mulheres bonitas ou algo parecido. Bonito, sexy, de tirar o fôlego…

Não sabia pra onde olhar. Papo sério. Em meio aquele “transe”, fui ver retrato. Cê deve esta pensando: … Surtou…

Pois é …, acontece que caiu na minha mão uma pasta com fotos das primeiras corridas de MotoCross no nosso país… Coisa do tipo enormes motores refrigerados a ar e suspensões traseiras duplo-amortecidas… Fiquei colado naquilo.

Fui até a parte onde começaram a aparecer as primeiras YZ-H , o início dos anos 80. O negócio de ver foto, tava começando a ficar pessoal e antes que eu começasse a me emocionar resolvi voltar pro acervo.

Uma pequena Honda 125 de Speed me chamou a atenção. Perguntei ao nosso anfitrião do que se tratava, ele de forma “descompromissada” , respondeu:

“Ah…, esta uma é moto de competição que a Honda reeditou há poucos anos. Fez uma série replica, de um motor que havia feito muito sucesso nas pistas tempos atrás. É uma 125cc 4T. Gira 17mil rpms….”

Caraca… nunca imaginei que motores 4T deste período pudessem girar isso tudo……

Mas, o quiver do cara é tão bom que o próprio já “destronava” a Hondinha do hall of fame e chamava a atenção para uma Minarelli 2T, perfilada logo atrás. Esta por sua vez, foi trazida por um comerciante de motos da época. Acontece que o negócio era tão revolucionário (e provavelmente, caro), que ninguém quis comprar.

O sujeito, ciente do que tinha em mãos, levou-a a uma grande corrida, chamou um jovem talento e lhe propôs: “Eu irei lhe emprestar esta moto. Você irá correr com ela e irá vencer. Eu não quero nada, só minha moto e o troféu de primeiro colocado”

Dito e feito.

O piloto correu, ganhou, cumpriu o trato e o comerciante colocou a moto de volta no centro da loja, com o troféu ao lado e uma enorme placa: “Não está a venda”.

E lá, a moto permaneceu durante, literalmente décadas. Com uma única e irrepreensível corrida , no currículo…

Dentre as tantas coisas que me chamavam a atenção a posição do guidão nas motos européias se sobrepunha. Impressionante… Fica claro o foco sob o qual estas máquinas foram concebidas. Observando-as lado a lado, em quantidade e diversidade incomum, vê-se claramente que todas elas já nasciam com um propósito. Competir , andar rápido.

Nortons, Ducatis, BMs, Velocettes, Guzzis,BSA , AJSs, Matchless, Royal Enfields …, todas motocicletas comuns à época, produzidas em série, todas com … “uma faca entre os dentes…”

Este padrão deixa a clara impressão de que os primeiros motociclistas não estavam pensando em turismo ou conforto. O propósito dos caras era evidente: correr, vencer.

Enfim , não entendo porque todas as pessoas do mundo não são fanáticas por motocicletas…, pra onde quer que eu olhe, onde quer que eu vá, só vejo razões e mais razões pra isso…. Eu, particularmente, poderia passar meses da minha vida naquele lugar. Pra não dizer anos. Observando e entendendo cada uma daquelas motocicletas e seus componentes. Aquela era uma época onde os mecanismos eram muito distintos. Cada um trazia uma solução diferente para cada problema. Os mecanismos eram extremamente diversos.

Não era tão evidente e dominante esta massificação dos dias de hoje, onde pouca diferença se vê quando se compara modelos equivalentes de fabricantes diversos (a exceção de uma ou outra peça ou conceito).

Decorrida esta fase de “estudos”, acho que passaria a dedicar um final de semana do ano para cada uma delas. Isto! Um final de semana, pra levá-las ver o sol e o asfalto , outra vez…. Já imaginou as curvas da Anhanguera num brinquedo destes qualquer…???? Deve ser coisa do além…

Perigoso entrar num túnel da Imigrantes e sair do outro lado, numa pista de terra … , com um Chevrolet Bel Air conversível pedindo passagem e uma moça com enormes óculos escuros, lenço no pescoço e luvas brancas, indo passar o Carnaval em Santos….

Como diria o Rei:

“Entre no meu carro e na estrada de Santos você vai me conhecer Vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim E que na minha idade, só a velocidade anda junto a mim…”

Got to love bikes….! Anyone! Anyway! MOTOHEAD


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