Silenciosa, o scooter é gostoso de pilotar

Honda SH 150i: simplesmente diferente

No início do mês a Honda anunciou seu novo lançamento, o scooter SH 150i, e foi até alvo de críticas pelo preço (alto) sugerido para o novo modelo e, principalmente, pelo eventual canibalismo que aconteceria dentro do próprio lineup da marca, visto que ela já possuía um scooter de 150cc à venda, o líder de vendas no mercado brasileiro, PCX.

Esguia, ágil, com freios excelentes e um motor que dá conta do recado. Eis o novo e moderno scooter SH 150i

Esguia, ágil, com freios excelentes e um motor que dá conta do recado. Eis o novo e moderno scooter SH 150i

Nesta semana rodamos na nova moto e podemos afirmar com convicção que o SH 150i é um scooter diferente, destinado a outro perfil de público. Dizer que as duas motos ‘são a mesma coisa’ é como colocar a – recentemente extinta – CBR 600RR e a CBR 650F na mesma caixa e dizer que são iguais, pois as duas são Honda, esportivas, de 600cc e motores quatro cilindros. RR e F são diferentes, PCX e SH, também. A gente explica.

E aí, aquele papinho de que a PCX e a SH são motos praticamente iguais ainda não caiu por terra? Então leia a matéria

E aí, aquele papinho de que a PCX e a SH são motos praticamente iguais ainda não caiu por terra? Então leia a matéria

A Honda promoveu um test-ride extenso, com cerca de 80 quilômetros em trechos eminentemente urbanos, com algumas ladeiras e curvas acentuadas para ver como a moto se saía – exibindo a performance de um motor concebido especificamente para ela, bem como as chamativas rodas grandes e o duro conjunto de suspensões. O cenário escolhido foi o Rio de Janeiro, onde também andamos um pouco na PCX, justamente para sentir semelhanças e diferenças entre os dois modelos.

Honda SH 150i, como é rodar com este novo scooter

Assim que lançada, publicamos aqui no Motonline uma matéria densa que tratava sobre todos os detalhes da nova moto, incluindo suas especificações técnicas, e você pode conferir ela aqui. Vale ressaltar alguns de seus principais atributos, como as grandes rodas de 16 polegadas, o oxigenado motor de 149,3 cc (e 14,7 cv) e o conjunto de freios a disco com ABS nas duas rodas. Há também o belo conjunto óptico dianteiro, totalmente em LED, o sistema Idling Stop (start-stop) e a tecnologia Smart Key.

Modelo é disponibilizado em três cores, e tem preço público de R$ 12.450,00

Modelo é disponibilizado em três cores, e tem preço público de R$ 12.450,00

Dado este pequeno briefing para promover sua familiaridade com o modelo vamos ao test-ride. Rodamos na SH 150i logo após deixar a PCX no estacionamento. Logo de saída, ficou claro que estávamos sobre outra moto. A posição de pilotagem na SH é ligeiramente ereta, quase que em postura de ataque, lembrando outros modelos urbanos na marca, como a CUB Biz. Ligamos a moto em uma serenidade total, uma vez que é praticamente impossível notar o motor de arranque trabalhando, e partimos. Logo nos primeiros metros, outra surpresa: a frente da moto é leve, precisando de um mínimo esforço para colocar o scooter na direção desejada.

Esta maleabilidade, somada à construção esguia da moto, a faz extremamente ágil e domesticada para passar por entre os retrovisores em corredores ou desviar de algum obstáculo na pista, como um buraco no asfalto. Para uma moto destinada totalmente ao uso urbano, ponto para a SH, que cumpre sua função básica com tranquilidade.

Com posição de pilotagem ereta, frente leve e dimensões compactas, maleabilidade é palavra de ordem. O SH se sai muito bem em curvas e para desviar de obstáculos

Com posição de pilotagem ereta, frente leve e dimensões compactas, maleabilidade é palavra de ordem. O SH se sai muito bem em curvas e para desviar de obstáculos

 

O motor – com base no da PCX, mas desenvolvido especialmente para ela – de 149,3 cc e 14,7 cv a 7.750 rpm também cumpre o que promete. Com 1,40 kgf.m de torque a 6.250 rpm, empurra a moto com facilidade e acelera sem esforço até os 90 km/h, velocidade que dificilmente será excedida em perímetro urbano. Em aclives é preciso dar um pouco mais de punho, claro, mas o conjunto se saí bem, até mesmo em retomadas. O câmbio CVT também agrada, exigindo um pouco de atenção para quem nunca usou pois passa a impressão de que está ‘queimando embreagem’, afinal é automático e pede que você antecipe seu movimento em meio segundo para ter a resposta desejada, que vem com facilidade.

O sistema de freios também satisfaz. Com disco de 240 mm e ABS nas duas rodas ele é sensível a pequenos toques nos manetes e evita o travamento das rodas. Para as situações comuns do trânsito urbano, como paradas em semáforos, basta acionar o freio dianteiro com suavidade ou pequenos toques para parar a moto. Desta forma, é como um bom scooter deve ser: dócil e confiável, dando a impressão de que vocês são velhos amigos quando na verdade ainda não rodaram nem 10 km juntos.

Iluminação em LED remete ao requinte da família SH, presente há mais de 30 anos na Europa

Iluminação em LED remete ao requinte da família SH, presente há mais de 30 anos na Europa

O que incomoda, porém, são as pedras no caminho. A SH 150i é dura demais para uma moto urbana e transmite à coluna vertebral do motociclista até as mínimas imperfeições do asfalto. Situações um pouco mais profundas então, como passar por cima da tampa de um bueiro ou buraco superficial, são sentidas na alma e podem até gerar uma breve perda no controle do scooter caso o motociclista esteja distraído (lembra que a frente é leve? Pois é…) e em velocidade mais alta. As suspensões têm cursos menores que a de outros scooters, como do próprio PCX, com 100 mm na dianteira e 95 mm na traseira, o que certamente tem relação com essa dureza da suspensão da moto. O banco, no entanto, é menos macio que o da PCX, mas longe de ser considerado duro.

SH 150i e PCX: conservadorismo x vigor da juventude

Quando se fala que a Honda lançou uma nova moto para um segmento onde já estava representada, com um novo scooter de 150 cc, pode-se logo pensar em canibalismo entre os modelos, mas basta olhar as duas motos por 2 segundos para ver que são destinadas a públicos distintos. Se subir nelas e rodar por alguns metros que seja, esta diferença fica gritante.

Dois scooters diferentes, para públicos distintos que têm algo em comum: encarar selvas de pedra

Dois scooters diferentes, para públicos distintos que têm algo em comum: encarar selvas de pedra

Como no exemplo das esportivas de 600 cc que falamos no início, as semelhanças ficam apenas por conta do segmento e cilindrada. A CBR 600RR é uma superesportiva média, com um motor de altíssimo giro, postura desconfortável e com uma vocação nata para as pistas, de onde sua plataforma surgiu. Já a CBR 650F deriva de uma naked, muito mais mansa, e é voltada para quem faz uso urbano e em pequenas viagens na estrada e quer aliar um mínimo conforto com esportividade. Da mesma forma, PCX e SH 150i são iguais em cilindrada e segmento, e só.

As grandes rodas de 16 polegadas cobram seu preço. Abaixo do tanque cabe um capacete integral - e nada mais

As grandes rodas de 16 polegadas cobram seu preço. Abaixo do tanque cabe um capacete integral – e nada mais

O visual mostra nas entrelinhas que os nichos pretendidos são outros. A SH segue uma receita que há 30 anos tem dado certo na Europa, com linhas sóbrias e conservadoras, vendendo cerca de um milhão de motos por lá. É realmente uma SH 300i diminuída, herdando da irmã maior praticamente todos seus traços e remetendo, inclusive, a modelos comportadíssimos da marca, como a Biz. Já a PCX grita por juventude. Com visual futurista e extremamente fluído, ela lembra motos mais ousadas, como os modernos scooters italianos da Piaggio.

As diferenças continuam ao sentar sobre os bancos. A SH é alta, com o assento a 799 mm do solo – o que exige que motociclistas com menos de 1,70 m de altura fiquem na ponta dos pés em algumas situações – e com a já citada postura ereta. O PCX oferece uma condição de pilotagem bem diferente, mais próxima do solo (761 mm) e totalmente relaxada, mérito de suas dimensões próprias de rake e trail. Ao final, é como se você estivesse sentado em uma cadeira no SH ou mais relaxado em um sofá sobre a PCX. Numa outra tentativa de explicar essa diferença fundamental, o PCX tem uma gota de custom, com os braços flexionados e a coluna relaxada, o que não ocorre no SH 150i. Qual é melhor? Esta é uma pergunta extremamente pessoal. Tem gente que prefere chocolate branco e outras optam pelo ao leite e, do ponto de vista do sabor, não há superioridade, mas apenas diferenças.

R$ 12.450,00: SH 150i vale o preço?

Esta pergunta tem sido tema de muitas análises em mídias sociais durante as últimas semanas, com infinitos posicionamentos de que a moto chegou cara demais. Será? O assunto preço é sempre delicado e requer uma análise sobre vários aspectos, como os custos de produção, impostos, cadeia de mercado e valor atribuído ao produto e à marca. Temos de lembrar, primeiramente, que estamos em um país onde o preço de uma moto utilitária completa está na casa dos R$ 10 mil (como a Honda CG 160 TITAN, que tem preço de R$ 11.100,00, ou a Yamaha Fazer 150 ESD, que custa R$ 10.390,00, com ambos valores retirados da FIPE) e que um modelo de cilindrada média (como uma naked ou crossover de 600 cc ou 700 cc, por exemplo), ultrapassa os R$ 32 mil com facilidade.

Discos de 240 mm e ABS nas duas rodas. Parar a SH 150i é fácil

Discos de 240 mm e ABS nas duas rodas. Parar a SH 150i é fácil

No segmento dos scooters de 150cc, o páreo agora está formado entre Honda PCX, Honda SH 150i e Yamaha NMax. O PCX é o scooter mais barato, oferecida pela Honda com preço sugerido de R$ 10.800,00, enquanto a Yamaha sugere que a NMax deixe as concessionárias por R$ 11.690,00 e a Honda oferece a nova SH por R$ 12.450,00. Para justificar tais preços cada marca aposta em atributos e vantagens específicas da montadora ou produto, como itens de série, vantagens da rede pós-venda e revisões a preço fixo.

A SH 150i é dura demais para uma moto urbana e transmite à coluna vertebral do motociclista até as mínimas imperfeições do asfalto

A SH 150i é dura demais para uma moto urbana e transmite à coluna vertebral do motociclista até as mínimas imperfeições do asfalto

Para justificar os R$ 1.650,00 a mais que o PCX e os R$ 760,00 acima da NMax, a Honda aposta no sistema de freios ABS e iluminação em LED (que a Yamaha também tem), sistema start-stop (que desliga a moto após 3 segundos sem aceleração e a religa com um toque no acelerador), sistema Smart-Key, além de destacar que oferece garantia de três anos, sem limite de quilometragem, com fornecimento gratuito de óleo em sete revisões.

Distante do chão...

Distante do chão...

Alto, o SH pode deixar na ponta dos pés quem tem menos de 1,70

Liberdade às pernas!

Liberdade às pernas!

Assoalho plano é um dos diferenciais do modelo

Para fazer parte da paisgem

Para fazer parte da paisgem

Um moto iminentemente urbana

Propulsor valente

Propulsor valente

O novo scooter acelera bem, mas sente demais o asfalto

Design conservador

Design conservador

Visual conservador é nitidamente inspirado no SH 300i

Agradável ao guidão

Agradável ao guidão

Silenciosa, o scooter é gostoso de pilotar

Diante disso, é claro que se a SH 150i viesse com um preço abaixo da principal concorrente ela teria uma aceitação melhor no mercado em um contato inicial, mas por outro lado os R$ 760,00 a mais não a fazem absurdamente cara, talvez sequer a deixam fora de preço, ela apenas cobra pelo que oferece. Cabe ao consumidor colocar todos os prós e contras na balança e, antes de comprar o produto de marca A ou B, fazer um pequeno test-ride nos modelos pretendidos. E aí sim virá a decisão mais segura, baseada no estilo, conforto e praticidade que cada uma oferece. Ponto para o consumidor!

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Jornalista gaúcho convicto de que um passeio de moto em um dia de sol é a cura para praticamente todos os males da vida. Fã de motoaventurismo, competições de moto, café, praia e de rock n roll.