Idolatria*

Idolatria*

Fachada do Grande Hotel Rimini

Quarto do Grande Hotel Rimini

A cidade litorânea de Rimini, na Itália, já foi cenário de vários filmes de Federico Fellini. Sobretudo o elegantíssimo Grand Hotel, no qual já se hospedaram celebridades do calibre de Onassis, príncipes e princesas. O hall de entrada é de uma cafonice sem limites, com aquela profusão de vermelhos e dourados que ofende até a um daltônico como eu. Mas é elegante, ah isso é mesmo. Por isso eu não poderia acreditar que estava hospedado em um quarto com vista para o mar, deitado em uma cama de molas tamanho king size, gigantesca, especialmente para um nanico de 1,69m, enrolado em lençóis imaculadamente brancos. O lustre cheio de penduricalhos de cristal lembrava a decoração da casa de minhas tias do interior de São Paulo, todas tão italianas quanto uma Testarossa. Se eu fumasse (não fumo nada, viu seus leitores psicopatas), era a hora de deixar o quarto pouco iluminado e dar uma profunda tragada para ver a luz da brasa refletir naquele mundo de cristais e cromados. Estava fazendo hora no quarto para jantar com um americano do Texas, magrelo e branco como uma lagartixa, chamado Kevin Schwantz, o mesmo que recebeu o injusto apelido de “Louco”, dado por alguns anencéfalos jornalistas da TV. Ele mesmo, campeão mundial de motovelocidade na categoria 500 em 1993, 25 vitórias na categoria e uma coleção de pinos de platina pelo interior do corpo.

Como sempre fui avesso à idolatria – exceção feita a dois pedidos de autógrafo ao Emerson Fittipaldi em 1972 e em 2002 – não estava muito ansioso com o jantar, até porque teria pelo menos mais umas 50 pessoas junto, já que se tratava do lançamento da nova Suzuki GSX-R 750. Nada íntimo ou pessoal. Quem já participou de um press-meeting internacional sabe da maratona de jantares, apresentações e discursos que rolam por dois ou três dias. Esta seria a última noite naquele hotel felliniano e o clima de despedida foi tomando conta, com confraternização de todos os lados. Schwantz fez seu discurso elogiando a nova moto – que realmente era espetacular – e por fim um mágico italiano fez uma série de truques para um monte de japoneses rirem (mais ainda, porque japonês ri até quando martela o dedo).

Algumas taças de vinho nacional – da Itália – depois, a assessora de imprensa da Suzuki da Itália vem com o convite supresa: “vamos para um barzinho, prolongar a balada!”. Vixe! Balada italiana, finalmente um pouco de emoção! Entramos na van e no meu lado sentou o Kevin Schwantz em carne, osso e platina. Na frente, o tal mágico italiano. Um petit comitê com dois astros. Quando paramos na porta de um bar descolado imaginei que os italianos fossem pular em cima do Kevin Schwantz pedindo autógrafos, querendo tirar fotos, aquela zoeira toda de fãs. Mas que nada, entramos como se não passássemos de um grupo de turistas gringos e desimportantes, que realmente era o caso, menos pelo fato de ter um campeão mundial no meio. Schwantz comemorando uma de suas vitórias

Tivemos até de esperar mesa! Imagine, desde quando um campeão mundial espera por uma mesa em uma cidade do interior da Itália? Finalmente sentamos e fiquei ao lado do Schwantz e na frente do mágico. Tentar entabular uma conversa com um ex-campeão é difícil, e como tenho minha história de ex-piloto, sei que é um pé no saco quando as pessoas só querem falar de corrida de moto. Por isso o assunto foi educadamente desviado e ficou aquela situação embaraçosa, quando os assuntos não se desenrolam. Para piorar, o som alto nos obrigava a quase berrar um no ouvido do outro.

Até que o mágico abriu o casaco e puxou alguns estranhos objetos: um rolo de barbante e um baralho. O cara simplesmente começou a fazer uns truques com o barbante e usava a mim e ao Schwantz como assistentes. Foi um show porque, além dos truques, ele era engraçado e ficava fazendo piadas misturando vários idiomas. Escolhia uma vítima na mesa, perguntava a nacionalidade e desandava a fazer piadas sobre italianos, franceses, japoneses, americanos e, claro, sobrou para brasileiro. Quem estava na mesa mal conseguia respirar para dar um gole de vinho ou cerveja e, aos poucos, as pessoas do bar começaram a juntar em volta. O mágico virou o centro das atenções, enquanto nós ali, meio desengonçados, ficávamos fazendo nosso serviço de assistente, segurando carta, puxando cordinha como aquelas mocinhas de circo.

Absolutamente ninguém se deu conta de que um dos assistentes era um cara que por 10 anos fez o diabo em cima de uma Suzuki de 150 kg e quase 200 cavalos. O estilo de pilotagem de Scwantz sempre foi meio na base do tudo ou nada: apesar das 25 vitórias conquistou o mundial apenas uma vez, enquanto seus contemporâneos do mesmo naipe como Eddie Lawson, Wayne Rainey, Michael Doohan e Freddie Spencer tinham ao menos três títulos mundiais no bolso. Ela derrapava, empinava com a moto de lado, subia em zebra, batia na traseira dos outros e estava sempre na lista de favorito em todas as temporadas. A Suzuki não era a melhor das motos, mesmo assim ele foi fiel à marca durante todos os GPs que disputou. Lembro de uma foto em que ele mostrava seu macacão todo pintado de preto nas laterais das pernas depois de duelar por várias voltas com Rainey a ponto de os dois se tocarem. Era um gênio da pilotagem, mas que não colecionou títulos porque estava sempre um pêlo acima do limite.

E os italianos, naquela noite em Rimini, só prestavam atenção ao mágico.

Na volta ao hotel, todos já mais soltos depois de taças de vinho e da sessão comédia, tive coragem de perguntar ao Schwantz como ele se sentia, depois de ser solenemente desprezado por jovens. Ficou aquele silêncio constrangedor até que ele disse: “ótimo, fazia tempo que não ria tanto”. E continuou explicando aquilo que eu já desconfiava, mas nunca tinha certeza: a idolatria rola quando eles estão em evidência ou nas praças de evento. Se Schwantz aparecesse antes da largada do MotoGP certamente seria festejado por fãs de várias idades. Mas em uma mesa de bar, no litoral da Itália não passou de mais um turista e pôde se divertir como tal. Certamente Michael Schumacher só teria a mesma sorte se fosse beber em um bar no planeta Marte. Ou então são os fãs que exageram na idolatria e se esquecem que antes de mais nada, como descreveu a jornalista Alessandra Alves, “pilotos são apenas homens que demonstraram habilidade acima da média em uma atividade de risco”. Tite na Suzuki GSX-R 750

Esta viagem à Itália seria ainda premiada com outro encontro. No aeroporto de Milão, esperando uma conexão, vi de longe o piloto italiano de Superbike Pierfrancesco Chili que estava chegando do Japão depois de testar a Suzuki GSX-R 750, exatamente a mesma que eu tinha acabado de pilotar. Não resisti e fui falar com o cara. Super atencioso, falou pacas e até ficou enciumado quando contei que o Schwantz estava lá fazendo RP com os jornalistas. De vez em quando aparecia um jovem pedindo autógrafos ou tirando aquelas tradicionais fotos abraçados. Uma demonstração discreta de que aquele piloto com apenas uma única vitória no mundial de 500, em 1989, em uma corrida marcada por pelo boicote das principais equipes, ainda recebia alguma atenção dos eventuais ídolos.

É muito estranho este papo de idolatria. Confesso que por mais que respeite e admire pilotos como Valentino Rossi, Freddie Spencer, Stephane Peterhansel (seis vezes vencedor do Paris-Dakar com moto), Stephan Everts (oito vezes campeão mundial de motocross, com 72 vitórias) não tenho nenhuma foto ao lado deles e jamais me dirigi a qualquer um deles por você, mas sempre por senhor Spencer, senhor Everts, etc. Todos que citei tive a oportunidade de conversar fora do ambiente das corridas, em ocasiões diferentes. Todos foram atenciosos e a experiência com o belga Stephan Everts foi semelhante à do Schwantz. Everts é o melhor piloto de motocross que o mundo já viu. Se Schumacher venceu seis títulos correndo contra 24 adversários, Everts venceu oito títulos correndo em grids com 40 motos. Teve um problema no joelho depois do terceiro título mundial, operou, voltou e ganhou mais cinco vezes. É o único piloto da história que disputou e venceu três baterias de motocross realizadas em um único dia, nas categorias 125, 250 e 500cc. Venceu o Motocross das Nações, considerada a Copa do Mundo do Motocross e tive a chance de jantar com ele em São Paulo, graças ao convite feito pela Honda. Ele disse que adorou passear no Shopping Center e ninguém reconhecê-lo, de quebra ainda achou nossas roupas muito boas e extremamente baratas. A dieta dele é tão esquisita que nem molho ele coloca na salada: come tudo natural, como se fosse um coelho.

Anos depois – e mais alguns títulos no bolso correndo de Yamaha -, encontrei-o no Salão de Munique, Alemanha, e comentei sobre o nosso jantar. Ele lembrou! Um cara normal, que teve a sorte de nascer filho de Harry Everts, tri-campeão de motocross, muito educado e que poderia ser facilmente idolatrado pelos aficcionados por motos. Mas, acima de tudo, um cara normal. Por isso não consigo olhar para o Alexandre Barros e encará-lo como ídolo, como tentam nos persuadir alguns jornalistas puxa-sacos. Claro que esses jornalistas excedem na idolatria porque vivem do dinheiro da publicidade das empresas ligadas ao Alexandre Barros. Para mim, nada nele favorece a idolatria prejudicado pelo fato de viver pouco tempo no Brasil. Não tem carisma. O que falta para ele não é competência para pilotar, nem vitórias na categoria máxima do motociclismo, mas falta nos convencer de que é uma pessoa digna de ser admirada.

* Publicado originalmente no site GPtotal em setembro de 2004 O teste da Suzuki GSX-R 750 foi publicado no link abaixo http://www.motonline.com.br/testes/teste-suzuki750.html