Mesmo ideal e destino

Ignorando a ignorância

Mesmo ideal e destino

Mesmo ideal e destino

Imaginem uma cena parecida com aquelas espetaculares trilhas de determinados filmes, onde os autores contrapõem, no mesmo espaço tempo, o futuro e o passado. Como no filme “Nimitz, de volta ao inferno”, quando uma suposta fenda no tempo leva o porta-aviões nuclear mais sofisticado do mundo ao ano de 1941, à véspera do colossal ataque japonês a Pearl Harbor.

As discrepâncias tecnológicas entre as forças armadas da época com a representada pelo insurgente Nimitz eram tão grandes que eles foram considerados quase extraterrestres, devido à incompreensão de todos à frente daquele gigante em tamanho e tecnologia.

Incompreensão que podemos defini-la mais tecnicamente como sendo fruto do estado de ignorância em relação a todas as ciências que seriam descobertas e conhecidas a partir dali e até os dias de hoje, e que compunham toda a sofisticação tecnológica presente nesta nave marítima.

Imaginem de novo, neste caso e agora, se voltássemos ao período clássico da música no século 18, época de aprimorada estética musical, protagonizada por grandes compositores como Franz Joseph Haydn (1732-1809), Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e Ludwig van Beethoven (1770-1827).

Imaginário no qual disponibilizaríamos pra apreciação deles, as suas próprias composições num mp3 player de última geração e sonoridade de altíssima qualidade, gravadas pelas melhores orquestras e maestros da nossa atualidade.
Certamente, embora eles sejam extremamente inteligentes e conhecedores dos mais avançados instrumentos da época, perguntariam muito provavelmente como conseguimos colocar cerca de 80 músicos com todos os seus instrumentos e aparatos dentro daquele minúsculo fone de ouvido.

Situação hipotética, mas que exprime o fato de que procuramos construir a interpretação do desconhecido com o que temos de conhecimento em determinado momento, e que pôde ser adquirido de alguma forma. Ou seja, a nossa incompreensão, substanciada diretamente pela nossa ignorância, é que rege a qualidade da nossa interpretação e o “pseudo” pleno entendimento sobre tudo. Esta condição humana permeia todas as áreas do conhecimento, e não está associada somente, embora mais aparente, ao desenvolvimento tecnológico.

Consideremos ainda que, em função da nossa petulância, somos incapazes de nos atribuir um alto grau de desconhecimento sobre qualquer coisa, muito menos ainda se colocado como uma condição de ignorância, sobre o que quer que seja. No máximo admitimos um não conhecimento pleno. E “modestamente” admitimos somente não ter total domínio sobre um determinado e específico assunto. Somos seres bípedes pensantes bem complicados.

Todos estes atributos, juntos com outras tantas imperfeições da nossa condição humana, fomentam discussões infindáveis, onde de um lado é possível perceber um maior conhecimento do fato, mas que vive acompanhado de uma baixa tolerância à incompreensão do outro, e deste, uma grande relutância em atribuir pra si um desconhecimento parcial ou total nesta pendenga.

Imaginem novamente, se estivéssemos como interlocutores naquela fictícia situação com Haydn, Mozart e Beethoven, perpetuada através de uma rede social, blog ou afins, pra convencê-los de que o seu entendimento daquela realidade de ter tantos músicos alocados naqueles pequenos fones de ouvido é um absurdo. Argumentando que pra isso na realidade, foi necessário juntar num dia qualquer, uma orquestra com todos os seus componentes e maestro, num lugar específico chamado de estúdio, e que nele havia equipamentos sofisticados pra todos os lados capazes de captar estes sons e processá-los de forma a produzir no final algo que não é propriamente uma matéria. A produzir de fato um arquivo digital de áudio comprimido, que quando colocado dentro desta “caixinha mágica” chamada mp3 player, se transforma nestas magníficas interpretações de suas obras. Certamente pra eles, nós que seríamos considerados os ignorantes ou insanos.

Exageros à parte, não há nenhum pecado em estar ignorante sobre determinado assunto. Aliás, podemos fazer deste momento de percepção e aceitação, uma grande oportunidade de aprender mais. Somente pela busca do entendimento das coisas alcançamos o conhecimento, conseguindo ter consciência do tamanho da nossa ignorância.
Por outro lado, a nossa humanidade poderia provocar um melhor comportamento nos senhores “sabem tudo”, deixando a sua disposição um maior grau de modéstia, tolerância e compreensão, já que não foi sempre assim, pois em algum momento eles tiveram que adquirir este conhecimento, estando portanto até então e em tese, ignorantes dele. Não vamos nem citar o fato que as oportunidades pra todos adquirirem o conhecimento são injustas.

Vivemos estes conflitos a todo o momento no nosso dia-a-dia. No motociclismo os vivemos com a maneira acerbada que muitos nos impõem o jeito de como devemos vivê-lo, organizar eventos, viajar, pilotar, … Nós não vemos as coisas por este foco, sem preconceito, preferimos entender que não existe apenas uma forma de fazer as coisas de maneira certa, pois mesmo cuidando do mais importante, que é nos mobilizarmos pra que este viver esteja em consonância com os bons princípios e valores de vida no motociclismo e fora dele, temos uma infinidade de diferentes formas de vivê-lo e ainda ser um verdadeiro motociclista. Único e do seu próprio jeito, transformando ignorância em conhecimento, e disseminando-o, mas respeitando a capacidade e oportunidade de cada um em fazê-los.

“Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito”. (Fernando Pessoa)

Riders Of Freedom

Riders Of Freedom