Foto: Tite

Leitores presentes

Foto: Tite

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Quando meu pai contava hist¢rias da sua infƒncia eu ficava com uma tremenda raiva de nÆo tˆ-lo conhecido naquela ‚poca. Ele falava das brincadeiras em Suzano, interior de SÆo Paulo, das pescarias e nata‡Æo no rio Tietˆ. Dos pomares de frutas. Do futebol que ele era craque e eu s¢ imaginando que ele teria sido um tremando amigÆo. Daqueles que a gente fica feliz s¢ de estar ao lado dele. Mas quando conheci meu pai ele j  era adulto e o Tietˆ nÆo era mais naveg vel, e ele nÆo tinha mais pomar em casa.

Quando olho para as minhas filhas Nina e Luna fico com raiva pelo tempo que passou tÆo depressa. Quando todo mundo dizia que os filhos crescem muito r pido eu achava besteira, mas s¢ hoje, 22 anos depois do nascimento da primogˆnita me dei conta que as pessoas queriam dizer na verdade era: “curta o m ximo de tempo ao lado de seus filhos enquanto eles ainda querem tˆ-lo o tempo todo dos seus lados”. E fico preocupado antecipadamente porque sei que o curso natural da vida me far  ir embora sem acompanh -las por toda a vida delas. Vou perder a chance de conviver com minhas filhas depois de velhas. Espero muito velhas!

Essa ‚ a ingratidÆo natural entre pais e filhos: quando a gente nasce nossos pais j  sÆo grandes e quando morremos nossos filhos ainda ficarÆo por muitos anos sem a nossa companhia.

Por isso os amigos sÆo tÆo importantes. O amigo – e mais ainda os irmÆos – nos acompanham dentro do nosso “timming” (pra usar uma palavra da moda!). A gente convive com amigos e irmÆos no mesmo per¡odo, sem conflito de gera‡äes. Amigos aparecem e somem de nossas vidas, mas sÆo contemporƒneos, a gente vive, cresce e morre praticamente juntos. Acompanhamos e nos intrometemos na vida dos amigos. Quando eles nos chegam o que passou na vida deles faz parte da nossa hist¢ria, porque sÆo do nosso tempo, da nossa ‚poca.

Admito que cometi uma tremenda injusti‡a por v rios anos – ou um equ¡voco que a inocˆncia me impedia de avaliar. Eventualmente toco num assunto que sei que aborrece vocˆs leitores e mais ainda a n¢s do Motonline. Vira e mexe eu aborre‡o vocˆs com a mesma cantilena de que o Motonline ‚ gratuito e que salvo raras exce‡äes temos pouco retorno financeiro com esse trabalho de extrema dedica‡Æo. Sistematicamente regurgitei a vocˆs a minha insatisfa‡Æo por um trabalho de car ter quase solid rio, pois nÆo h  a devida recompensa.

Quanta injusti‡a! E o que fez perceber o tamanho dessa injusti‡a foi uma pizza!

Cerca de trˆs meses atr s recebi uma mensagem no m¡nimo inusitada. Uma esposa dedicada decidiu surpreender seu marido no dia do anivers rio dele. Convidou-me a jantar em uma pizzaria e aparecer assim de surpresa na festa de algu‚m que, segundo ela, era meu fÆ.

Durante anos tive muita dificuldade para aceitar e lidar com o fato de ter fÆs. Isso me parecia mais justo aos jogadores de futebol e pilotos de F¢rmula 1. V rias vezes me esquivei dos fÆs e fugia do ass‚dio principalmente em eventos como SalÆo da Moto ou nos boxes dos aut¢dromos. Para mim era dif¡cil acreditar que um cara tÆo normal tivesse um fÆ! Foi s¢ depois dessa pizza, h  alguns meses que entendi o que ‚ ter fÆ e como trabalhar isso na minha cabe‡a.

Confesso que aceitei o convite porque a pizzaria era perto de casa e eu estava com uma bela, veloz e desfrut vel Suzuki Hayabusa na garagem pedindo para passear. Entramos eu e dona Tita na pizzaria e a cena dificilmente ser  esquecida. L  no fundo algu‚m arregalou os olhos e comentou: “Mas ‚ o Tite?, que coincidˆncia”. NÆo, nÆo era coincidˆncia, mas uma tremenda arma‡Æo muito bem articulada pela simp tica Alides em homenagem ao Andr‚. E foi com muita dificuldade que fingi estar tudo normal, porque eu tava me rachando de medo e emo‡Æo!

Foi s¢ depois de conhecer essa fam¡lia que entendi o que ‚ ser fÆ. E tamb‚m aceitei com mais naturalidade o sentimento de admirar algu‚m. Aprendi que para aceitar ser admirado ‚ preciso primeiro admirar a si mesmo. Em outras palavras: fica mais f cil aceitar ter fÆs quando se ‚ fÆ de si mesmo.

O Andr‚ e a Alides entraram na minha vida de forma muito mais recompensadora do que um cheque de pr¢-labore. Trabalhar em troca de dinheiro ‚ simples e acess¡vel a qualquer pessoa que se disponha a fazˆ-lo. Trabalhar em troca de amigos ‚ o maior presente e um privil‚gio que a profissÆo de jornalista poderia ter me concedido.

Nestes dois anos que passei a editar o Motonline ganhei tantos amigos que dinheiro nenhum no mundo poderia pagar. Viajei com leitores que s¢ conhecia pelo Motonline. Vi brotar amizades como se nos conhecˆssemos h  d‚cadas e at‚ casamento n¢s promovemos neste espa‡o virtual m gico inexplic vel. Nasceu o pequeno Davi, nosso fielzinho leitor que veio em meio a tantos quil“metros de estrada e fatias de pizza. Ganhei a companhia constante de dois escudeiros em Piracicaba, o Bob Esponja e o Lucas. Confiei minha vida nas mÆos do Bernhard em uma escalada em Socorro. Testei a moto do S‚giÆo. Fui musicado pelo Felip 24Bit no meu “Rap da Vergonha”. Virei colega de trabalho do Francis. E ganhei centenas, talvez milhares, de amigos por todo Brasil a ponto de eu sentir que tenho uma casa em cada cidade por onde passar. E mil perdäes a impossibilidade de citar todos esses amigos neste pequeno espa‡o.

Que dinheiro poderia pagar isso?

As realiza‡äes obtidas em 2007 gra‡as a vocˆs nÆo tˆm pre‡o. Sei que soa a comercial de cartÆo de cr‚dito, mas ‚ verdade. E essa ficha s¢ caiu diante de um prato pizza. Acho que pela primeira vez na hist¢ria deste Pa¡s (obrigado, Lula) alguma coisa de bom come‡ou em pizza! E espero nunca acabar.

Muitas vezes lamento nÆo poder dedicar mais aten‡Æo aos Motonliners. Olho minha caixa postal com dezenas de mensagens ainda nÆo respondidas e me penitencio por ser incapaz de responder todas, todos os dias! Tornei-me respondedor compulsivo de cartas e nÆo posso ficar um dia sem conversar com vocˆs sem sofrer de abstinˆncia. E j  nÆo me importo se o mercado nÆo investe no Motonline como eu esperava dois anos atr s. Minha remunera‡Æo veio de outra forma.

Neste dia de natal, em nome de todos os fazedores do Motonline – Harada, Durval, JoÆo Tadeu, Lobo, Paulo Couto -, nossos colaboradores, anunciantes e em meu nome queria muito desfazer essa tremenda injusti‡a. Vocˆs sÆo a melhor remunera‡Æo que n¢s poder¡amos ter recebido da vida.

Um feliz natal, meus presentes!