Lisiane Pletiskaitz, 29 anos, doze deles como motociclista decidiu que precisava fazer algo diferente. Foto: Tunachara Morelli

Lisiane Pletiskaitz: a bela, a fera e um sonho!


Lisiane Pletiskaitz, 29 anos, doze deles como motociclista decidiu que precisava fazer algo diferente. Foto: Tunachara Morelli

Viagens solo de motocicleta já não são mais uma novidade. Quem já viajou solitariamente de motocicleta sabe que tem pela frente um grande objetivo a alcançar recheado de pequenos desafios. Este seria apenas mais um relato de viagem, igual a muitos outros que já lemos por aí, se, desta vez, a principal personagem não fosse uma mulher. Uma jovem, corajosa e bela mulher.

É esta história que vou contar pra vocês.

Antes vamos refrescar sua memória e lembrar aos marmanjos de plantão que mulheres motociclistas não são uma novidade do Século XX ou do Século XXI. Segundo a AMA – American Motorcycle Association, o motoclube mais antigo dos Estados Unidos é composto, exclusivamente, por mulheres e se chama Motormaids.

A cada dia que passa mais e mais mulheres aderem ao motociclismo de estrada. Elas já representam quase a metade das compradoras de tudo o que se vende de motos neste país e agora elas conquistam espaços nas pistas de corridas e nas estradas. Dessa vez, não mais como pacientes e dedicadas garupas, mas como pilotos eficientes, disciplinadas, cuidadosas e cheias de charme e beleza.

Lisiane Pletiskaitz, 29 anos, doze deles como motociclista decidiu que precisava fazer algo diferente. Mas precisava ser algo muito ousado para uma mulher. Assim decidiu que iria rodar pelo Brasil, sozinha, numa motocicleta big trail.

"Nunca havia feito uma viagem sozinha de moto a lugar algum. Eu não tinha experiência em viajar sozinha, mas isso se consegue fazendo.” Foto: Tunachara Morelli

Tudo começou em 2008. Primeiro a viagem aconteceu nos sonhos. Do imaginário para a realidade ainda faltava muita coisa. Como mulher deveria convencer muita gente a apoiar o seu desafio e o primeiro embate foi convencer seus pais que ‘desafio e sonhos não querem dizer loucura’.

Lisiane não tinha a menor ideia que isto mudaria a sua vida para sempre – “Eu não sabia o que isso significaria na minha vida hoje… Nunca havia feito uma viagem sozinha de moto a lugar algum. Eu não tinha experiência em viajar sozinha, mas isso se consegue fazendo.” E assim está sendo feito.

Depois de convencer os pais era hora de vencer o primeiro desafio. Onde conseguir o dinheiro, a moto e alguém que acreditasse que ela seria capaz de cumprir o trajeto? Lisiane parou e olhou no espelho e disse pra si mesma: “-Não tenho condições de bancar uma viagem assim, mas isto não vai me impedir de tentar fazer.” Foi então que decidiu elaborar um rascunho de um projeto que acabou ficando engavetado esperando a hora de sair literalmente do armário.

Passaram-se três anos e no início de 2011 o rascunho saiu do armário, deixou de ser um daqueles tantos sonhos que temos e que engavetamos, por vezes para sempre e que só ressuscitarão na forma de arrependimento, em uma idade onde o corpo não consegue acompanhar a velocidade dos nossos sonhos.

"Encontrei gente que me admira por ter chegado até aqui, mas tem gente que não entende o que isso significa para mim e nunca vai entender”

"Encontrei gente que me admira por ter chegado até aqui, mas tem gente que não entende o que isso significa para mim e nunca vai entender” Foto: Tunachara Morelli

O desejo de fazer começou a tomar a forma de um projeto de viagem. Primeiro escolheu as cidades que gostaria de conhecer, pesquisou outras que estava pelo meio do caminho e assim foi costurando a mão cada etapa do projeto. Mas Lisiane tinha que vencer outro desafio – Ela nunca tinha feito um projeto como esse, mas para ela parecia que estava bem satisfatório.

O projeto foi enviado para todas as marcas de motocicleta que existem, desde as mais simples até as mais “sofisticadas”. A maioria sequer respondeu. O silêncio já fazia um barulho enorme na ansiedade de Lisiane quando veio à resposta de quem ela menos esperava: da poderosa BMW. “A BMW Motorrad respondeu meu e-mail. Eu senti uma felicidade sem tamanho, pois eu não acreditava que a BMW havia aceitado o projeto!” Destaca Lisiane.

O projeto recebeu o nome de ‘Rotaway Brasil Independência’ (www.rotaway.com.br). E neste momento entrou na parceria o site Rotaway que ficou com a missão de publicar os diários de viagem. Mas vieram mais desafios pela frente. Na época, Lisiane estava trabalhando em dois empregos e não conseguia conciliar o trabalho com o projeto. Precisaria escolher, pois era necessário dar atenção ao que faltava para deixar tudo pronto para a viagem. Foi então que virar noites na frente do computador escrevendo e-mails e mais e-mails passou a ser uma rotina cansativa e silenciosa. Ela insistiu, persistiu pois percebia a cada dia que passava que o sonho começava a tomar uma forma de realidade.

E assim as coisas foram acontecendo: Peter Foods, Touratech, Foccus Films, Tourentex, GlobalStar, etc. A Tunachara Morelli produziu as fotos para a propaganda. Lisiane estava bastante preocupada com a falta de grana e mais uma vez teve que fazer escolhas complicadas. “Eu não pude me preparar melhor com academia, GPS e outras coisas.” Destaca Lisiane. O desafio aumentava na medida em que a realidade se desenhava à sua frente muito maior do que ela havia imaginado no seu pequeno grande sonho.

Foi então que começou a procurar hotéis e pousadas para serem patrocinadores, os quais estariam presentes em todos os relatos de viagem e no livro que será editado ao final da viagem. Lisiane me disse que “enviava mais de 50 e-mails durante a noite só para hospedagem. Meus pais continuavam bastante preocupados comigo, mesmo aceitando a ideia”. Afirma Lisiane.

Uns dois meses antes da viagem, outro problema – o computador queimou e então só restava o notebook da irmã, que emprestava quando não ia usar ou, ainda, um tablet ‘meia-boca’. Com apenas isso e ainda com todas as limitações o restante da organização foi concluído.

E chegou o grande dia – aquele que você olha para a moto e diz – agora somos apenas nós dois e o Altíssimo. Dá frio na barriga, dá medo. E Lisiane sentiu tudo isso. “Eu estava com medo, era tudo muito novo para mim”. Enfatiza. “Eu queria fazer o trajeto todo, mas ao mesmo tempo não sabia se conseguiria. Pensava que se não conseguisse, nunca mais iria ter apoio novamente, que talvez nunca mais tivesse outra chance.” E ela estava certa. Uma vez tudo pronto, se não colocar na estrada será talvez um ‘nunca mais, outra vez’ em vez de ‘quem sabe de novo?’

Tudo começou por Curitiba. Mas a empolgação dos primeiros dias deu lugar ao que a gente chama de “- O que eu estou fazendo aqui?” Isto aconteceu quando Lisiane chegou a São João Del Rei em Minas Gerais. “- Eu não consegui segurar a emoção, eu chorei. Pensei que não ia dar certo, que não tinha como eu conseguir. Era muito chão… E ainda tinha a volta.” Fala emocionada.

Foram várias dificuldades, uma delas foi não ter treinado para levantar a moto, faltou um curso de mecânica para aprender a realizar pequenos consertos caso precisasse. A falta do GPS fez com que se perdesse dentro de umas cinco cidades. Pegou chuva, ficou sem ter onde dormir em algumas cidades. Quase derreteu de tanto calor, sofreu vento e alguns problemas de saúde. Mas nada a fez desistir. A cada desafio vencido Lisiane ficava mais forte e ainda mais decidida a concluir o projeto que tanta gente apoiava e apostava nela.

O lado bom, que tem em toda viagem de moto, conheceu muita gente maravilhosa, teve belas surpresas e muitos momentos felizes. Mais momentos felizes do que tristes. “Tentei dar o melhor de mim. É impossível agradar a todos, pois poucos entenderam que era um sonho meu. Encontrei gente que me admira por ter chegado até aqui, mas tem gente que não entende o que isso significa para mim e nunca vai entender”.

"Não desista no primeiro não, nem no milésimo, pois não importa o que você quer, se tiver persistência e atitude, as coisas começam a dar certo”. Foto: Tunachara Morelli

Mas Lisiane teve que conviver com o preconceito, sofreu bullying, e que no caso dela seria ainda mais forte por ser uma mulher, jovem, bonita e sozinha. “Recebi muitas críticas pesadas, daquelas que tiram sua motivação. Estas pessoas esquecem que eu também sou gente e que se a gente erra, ainda assim merece respeito. Prefiro conselhos”. Conclui.

E Lisiane continua seu desabafo: “Se você acha que pode viajar o mundo todo com patrocínio, então vá! Corra atrás disso se é seu sonho! Se você não precisa de patrocínio, ótimo! Faça por sua conta. Mesmo tendo muito apoio e patrocínio confesso a você que nada é de graça”. Finaliza o desabafo.

Lisiane confessa que aprendeu muito sobre si mesma, sobre paciência, respeitar limites, sobre a vida, costumes, culturas em lugares que até pouco tempo nunca imaginava que poderia chegar a ir. Foram muitos quilômetros de estradas ruins, areia, terra, chuva forte, calor insuportável. Mas Lisiane, amadurecida pelos quilômetros de estrada e pelas surpresas e crueldades da natureza e dos seres humanos destaca: “Mas e aí? Para que serviria uma viagem se fosse tudo sempre ótimo? Perfeito?” Questiona Lisiane.

A viagem ainda não terminou. Lisiane, que eu nunca conheci pessoalmente, vai continuar seguindo em frente, pois a estrada e o motociclismo a ensinaram a ser assim. Lisiane foi mais um que contaminado pelo vírus da liberdade em duas rodas acabou sendo renascida na estrada e forjada no asfalto e no aço tornou-se uma mulher forte, que de frágil aparenta apenas a beleza estampada nas fotos.

Lisiane me diz que “não será um não, um tombinho, uma fofoca, ficar sem luz durante a noite com chuva numa estrada que não conheço; um mal estar ou qualquer outra coisa que irá me fazer desistir sem cumprir a minha missão. Eu posso até ir mais devagar, mas parar, nunca”.

E Lisiane deixa uma mensagem: “Meu conselho é que se você tem um sonho corra atrás de realizá-lo, pois só quem pode tirar isso de você, é você mesmo, ninguém mais. Não desista no primeiro não, nem no milésimo, pois não importa o que você quer, se tiver persistência e atitude, as coisas começam a dar certo”. Concordo com a Lisiane e costumo dizer que sou o protagonista e o roteirista da minha história. Sou eu também quem escolhe parte do elenco. Por isso minha história terá um final feliz. E como brasileiro, não desisto nunca!

Desde o dia em que conheci a história de uma senhora chamada Coco Chanel, que revolucionou o mundo feminino ao introduzir os conceitos de moda, perfumes personalizados e tantos outros avanços apenas permitidos na Paris do início do Século XX que eu passei a torcer e me apaixonar por mulheres que fazem a diferença.

Lisiane merece meu destaque pela coragem, perseverança, por não se furtar as emoções, por assumir forças, fraquezas e ainda assim manter-se determinada a concluir um sonho. Ser mulher não é fácil. Ser uma mulher motociclista e ainda solitária é mais difícil ainda. Lisiane, você não tem apenas meu respeito, tem a minha total admiração. Muitos barbudos estão se reavaliando junto com sua testosterona por faltar a eles a coragem e a perseverança que você teve. Outras mulheres que se achavam incapazes, depois do seu exemplo ganharão asas e assim como você irão deixar as nossas estrada docemente autografadas em batom.

Boa viagem! A gente se vê na estrada que é onde onde você renasceu guerreira e foi definitivamente lapidada.

Acompanhe a viagem de Lisiane no site –www.rotaway.com.br
Roteiro planejado – Curitiba, São Sebastião, Ubatuba, Paraty, Rio de Janeiro, Vassouras, Valença, Rio das Flores, Tiradentes, São João Del Rei, Ouro Preto, Belo Horizonte, Vitoria, Arraial D’Ajuda, Ilhéus, Salvador, Praia do Forte, Aracaju, Maceió, São Miguel dos Milagres, Maragogi, Porto de Galinhas, Recife, João Pessoa, Tibaú do Sul, Natal, Icapuí, Fortaleza, Teresina, São Luís, Belém, Marabá, Eldorado dos Carajás, Carolina, Vila Rica, Palmas, Cavalcante, Brasília, Pirenópolis, Anápolis, Goiânia, Sorriso, Vilhena, Porto Velho, Rio Branco, Cuiabá, Campo Grande, Londrina, Foz do Iguaçu, Santo Antônio das Missões, Uruguaiana, Santa Maria, Bagé, Santa Vitória do Palmar, Rio Grande, Porto Alegre, Araranguá, Florianópolis e Balneário Camboriú.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.