Loucos por motos

Loucos por motos

Geraldo Tite Simões

O divã está no canto da sala fracamente iluminada por um abajur estilo barroco mineiro. Na parede, vários diplomas enquadrados e uma foto do Sigmund Freud colorida no computador. O doutor psicólogo formado na High Upper University of Biker’s Mind Control, com pós-graduação no curso de mecânica básica de motores a combustão interna por correspondência, Gehard McTütermann, aponta para o divã, pede pro malu… quer dizer, paciente se deitar para iniciar a sessão:

– Qual foi sua primeira moto? Ela quebrava muito?

– Ahhhhhhh, doutor, foi uma Mondial 50, era dois tempos e a quilometragem dela foi maior comigo empurrando do que pilotando…

Era um caso clássico de síndrome persecutória aliada a carburofilia. Geralmente ataca os motociclistas com mais de 40 anos que iniciaram sua vida motociclística com motos italianas, super protetoras e extremamente mimadas e que gastavam muito, além de exigir muita atenção. O resultado são motociclistas psicologicamente frágeis, com dificuldade de relacionamento com motos japonesas e que só saem de casa com uma capa de chuva na mochila, mesmo se for morador do sertão de Cariri.

Um tipo de paciente como esse exige muitas sessões de análise, uma hora por dia, três vezes por semana, por pelo menos 10 anos, até ele voltar a ter confiança nas motocicletas fabricadas fora da Itália. Para o analista a grande vantagem é poder aproveitar esse tempo todo fazendo palavra cruzada, tricô, lendo revistas de moto, cochilando, ou jogando no celular. Caso o paciente se virar para olhar o psicólogo, este deve reagir de pronto, sempre com uma pergunta já na ponta da língua:

– Humm, e o que você sente quando monta em uma Guzzi Califórnia e ela começa a vibrar? Especifique exatamente em qual região do corpo a vibração é mais sensível! Isso te dá prazer?

Quando o Dr. Tütermann diagnosticou um paciente com DOC, a mãe do adolescente até comemorou, pensando que receberia o valor da consulta de volta via DOC bancário.

– Oh, não, dona, o seu malu…, quer dizer, o seu filho sofre de distúrbio obsessivo comprimido, ele precisa reduzir a taxa de compressão porque está batendo pino, coitado!

Diante do ar de interrogação, o médico começa o interrogatório:

– O seu filho tem pôsteres de motos no quarto? Compra revistas de moto? Acessa o Motonline diariamente?

A mãe confirma “sim” para todas as respostas e percebe que está diante de um caso complexo de saúde que vai exigir muitos anos de tratamento. Fica preocupada com a saúde financeira da família e pergunta sobre o valor das consultas.

– Ah, bobagem, 40 litros! – Quarenta litros??? – Sim, de gasolina. Ah, Podium, por favor, porque há anos troquei o Valium pela Podium.

Um dos casos mais graves que passou pelo consultório do Dr. Tütermann foi um motociclista psicomótico maníaco compressivo. Ele tinha uma moto 125, mas queria que o desempenho fosse de uma 500, consumindo menos gasolina e tudo isso gastando apenas 100 reais. Começou retirando o filtro de ar, depois instalou um escape direto, sem silenciador. O passo seguinte foi rebaixar o cabeçote e trocar os giclês. Em seguida descobriu que podia enfiar um turbo compressor e a moto ficou parecendo um moedor de cana. Como toda doença maníaca compressiva, o piradão só terminou quando conseguiu injetar óxido nitroso, encravando um cilindro cromado bem no meio do tanque de gasolina. Uma beleza!

Depois de tudo isso foi feliz para a estrada e descobriu que sua 125 performática conseguiu alcançar a expressiva velocidade de 145 km/h, mas logo em seguida uma válvula saiu pelo cabeçote, abrindo uma bela cratera logo abaixo da luz de neon. Quando constatou que a velocidade era a mesma de uma 250, porém com um investimento superior ao preço de uma 500 usada entrou em depressão profunda e foi parar no divã do Dr. Tütermann.

– Hummm, você colocou turbo e nitro em uma 125 utilitária? Isso é grave, requer tratamento de choque. Recomendo viajar de São Paulo a Rio Branco, no Acre, pilotando uma Pop 100. Assim você vai perceber o real significado da velocidade na vida de um motociclista.

O pnófilo é um sujeito perigoso. Seu distúrbio é rechaçado pela sociedade, mas encontra eco em outros pnófilos que se reúnem nos encontros de motos às escondidas. Eles gostam de coisas grandes e grossas, independentemente da aparência. Se a moto tem pneu traseiro 120 ele quer colocar 150. Se o pneu original é 150 insiste em instalar um 180. E se originalmente a moto usa pneu 180 ele quase tem um orgasmo quando vê um pneu 200. Mas seu clímax chegou numa terça-feira de chuva, quando entrou na internet e descobriu a existência de pneu 260! Hoje ele anda a espreita, na loja do Alemão Rodas só para acariciar um pneu 260 exposto no display!

Dr. Tütermann já tentou de tudo para explicar a esses maníacos que tamanho de pneu não é documento e é mais importante saber usá-lo do que simplesmente ter uma coisa grande e não funcionar. O tratamento é feito à base de remédios para pneumania!

– Dr, eu gosto é de escape barulhento!

Esse é o sintoma típico de uma doença chamada cientificamente de Low Bilaw. Segundo Dr Tütermann, pessoas que gostam de fazer barulho na verdade têm uma impulsiva e incontrolável vontade de aparecer. Já que a pessoa é prejudicada visualmente, tenta chamar atenção apelando para o ruído. Fazendo barulho com o escape da moto, o indivíduo doentio está querendo dizer para todo mundo “olha só, estou aqui, gastei toda minha poupança nessa moto cafona, mas é minha, tá paga e preciso mostrar que existo”.

Essa síndrome ataca pessoas de caráter frágil, inseguras e esse comportamento tem origem sexual, pois na verdade têm bilau pequeno e precisam impor a sua presença (da pessoa, não do bilau) de alguma forma. E quem paga são nossos ouvidos!

De acordo com o pensamento tüteriano, o melhor tratamento para esses pacientes é fazê-los perceber que um cano roliço, longo, grosso, duro e cromado, fazendo esporro pela cidade não substituem um bilau de respeito! E que um Homem de verdade é que nem mineiro diante de um prato de mingau quente: come bem quietinho e pelas beiradas!

– Ae, doutô, minha XL 250 83 abriu o bico, mas eu consegui um motor de Falcon com uns mano na moral. Aproveitei e coloquei também as roda da GS 500 que um truta descolou e fiz uma supermotard, ficou istáile! Gastei só 300 real!

Os kleptomotíacos são indivíduos perigosos, porque nasceram com uma necessidade vital de levar vantagem sobre todo o resto da humanidade, independentemente do custo que essa doença traga para a sociedade. São acostumados a comprar peças roubadas e a convivência com esse mundo paralelo é tão forte que nem sequer reparam que roubaram os esses das frase no plural.

Do alto de sua experiência, Dr Tüttermann analisa o sujeito, mas primeiro toma o cuidado de cobrar adiantado, em dinheiro. E só libera o paciente depois de conferir se não está faltando nada no consultório. Em seguida, liga pruns mano que trabalha na enfermaria do manicômio penitenciário e encomenda um serviço: roubar uma XL 250 com motor de Falcon. Pela teoria tüteriana nada melhor do que aplicar o mesmo veneno no kleptomotíaco: quem compra peças clandestinas merece ter a própria moto roubada, de preferência por uns mano armados de pistolas bem grandes (ui!).

O distúrbio neuromótico se caracteriza pela dupla personalidade. O paciente gosta muito de motos esportivas, mas mora em uma cidade sem nenhuma rua asfaltada sequer. Por mais que alguém tente convencê-lo de comprar uma moto de uso misto, ele se recusa e só pensa em R6, CBR 600, Srad 1000 etc. Depois sofre pra usar a moto nas ruas esburacadas e de terra.

Para tentar trazer o neuromótico de volta ao mundo dos vivos o Dr Tütermann sugere a terapia do inverso, criada por Freud e um vizinho eletricista da escola alemã de psicomotricidade da Baviera. Primeiro o paciente passa uma semana pilotando uma R1, com 80 libras em cada pneu só por estradas de terra. Terminada a temporada, ele recebe uma XT 660 e é atirado de volta às valetas. Se ainda assim o doidão preferir uma esportiva, uma descarga de 160 megawatts nas têmporas pode ser a última solução. Geralmente funciona.

E você aí, do outro lado da tela do computador, tá olhando o quê? Pode marcar hora no Dr Tüttermann porque alguma patologia motociclista você tem, só não percebeu ainda.