Minha vida numa moto - Viajando com garupa

Minha vida numa moto – Viajando com garupa

Ilustração: Ricardo SáNa minha vida em uma moto desta semana vamos falar de garupas. Sim, garupas. Levar alguém na garupa da moto requer sintonia e confiança. Vale destacar que a maioria das pessoas não sabe andar na garupa de uma moto. Uma coisa interessante é quando o piloto vira garupa. Tem alguns que acabam tentando pilotar junto e acaba complicando a vida do motociclista. Mas para quem pega estrada o garupa pode ser não apenas um problema, mas vários ao mesmo tempo.

Lembro que certa vez fomos viajara Serra da Ibiapaba, no Ceará. É um lugar muito bonito, de clima agradável. Combinamos e saímos. Eram umas cinco motos e apenas dois estavam sem garupas. No meu caso o problema começou antes mesmo de sair de casa. Mesmo acostumada a viajar comigo, Maria nunca tinha pegado um trecho grande em uma viagem de três dias. O maior problema foi resolver a bagagem. É sempre complicada a primeira vez que uma garupa vai viajar por mais de um dia. É um trauma que elas nunca esquecem. A dica é conversar calmamente antes, pois a moto pode vir a ser pequena para levar tudo que elas querem.

Eu tinha confiado que apesar de já andar comigo e, diga-se de passagem – ser uma excelente garupa – a Maria já sabia o que levar e o que não levar. Mas eu me enganei. Para a minha surpresa vejo duas enormes mochilas para pendurar na Poposuda. Quando a gente viu (eu e a Poposuda) ela chegando com aquela bagagem, ambos gememos de dor. Começamos uma D.R. (Discutir a Relação), rolou até as famosas frases “Se for assim vai de ônibus!” e “…então vamos de carro!” Com muita calma fui explicando a ela o que não levar, mas era difícil de convencer e, a cada peça que tirava da mochila, eu notava uma profunda tristeza nos seus olhos, a ponto de ouvir a seguinte frase – “Sem meus sapatos e cremes eu sou metade de uma mulher!” Bom, essa metade de mulher que iria ficar era composta de tubos de xampu e creme daqueles enormes, fora os cremes de toda ordem (para pé, mão, olhos, face, pernas etc; e alguns pares de sapatos, algo em torno de três mais uma sandália além das botas que estaria usando). Estava instalado o drama. Depois de muita conversa, até que enfim, chegamos a um acordo. Eu arrumaria com ela a bagagem e ao final ela poderia ainda escolher o que levar desde que coubesse tudo dela nos dois alforjes. A minha bagagem iria na mala de tanque. O acordo era que se eu conseguisse mostrar que não usaria a metade da mochila que ela estava levando, da próxima vez, ela saberia como arrumar a bagagem. Viajamos e ao final da viagem, que foi excelente, ao chegarmos em casa, fomos desarrumar as mochilas e alforjes e para surpresa dela apenas um terço do conteúdo da mochila foi realmente usado; o restante foi mesmo apenas a passeio.

Depois desta experiência ela mudou seus hábitos. Agora leva na mochila apenas o básico. Os cremes e xampus vão acondicionados em vidros menores que a gente comprou apenas para este tipo de viagem. Uma dica para quando usar frascos menores é etiquetá-los depois de cheios, pois a maioria é da mesma cor e mulher gosta de tudo combinando. Não discuta, ajude, pois você já conseguiu se livrar dos tubos enormes de xampu. Hoje tudo ficou menor e os dois alforjes são mais do que suficientes para as coisas dela a ponto de sobrar espaço para trazer pequenos souvenires.

Garupa

É interessante destacar alguns cuidados que você precisa ter com a garupa. Antes de sair para uma viagem cuide de proporcionar conforto a companheira. Conforto quer dizer um banco mais largo e um encosto mais macio (se a sua moto for uma custom). As motos custom por serem muito baixas, geralmente transferem parte do impacto de um buraco ou ondulação para piloto e garupa. Portanto, adote uma pilotagem mais gentil e macia, afinal vocês estão passeando. Outra recomendação é sugerir que ela leve seu MP4 com músicas preferidas. Isso vai ajudar a evitar conversa durante a viagem e assim te tirar a concentração. Escolha uma rota bonita aonde a paisagem vá sempre oferecendo novos visuais. Pode parecer bobagem, mas uma viagem em paisagem monótona, em retas que nunca acabam, geram estresse e desatenção. Muitos reclamam de sono. Por falar em sono, existem garupas que chegam mesmo a dormir sentadas. Algumas garupas descobriram uma maneira de cochilar sem perturbar a pilotagem, apesar de não ser uma postura e nem uma atitude segura.

Nas motos speed, esportivas ou as que não possuem maleiros, a bagagem geralmente é levada numa mochila que vai às costas da garupa. Minha sugestão é dividir a bagagem adotando uma mala de tanque. Assim você alivia o peso da garupa e economiza as suas costas. Nada é mais desagradável do que chegar de uma viagem de moto com problemas na coluna ou problemas musculares.

Quando viaja com garupas seu estilo de pilotagem muda bastante, pois o peso atrás, mais a bagagem, mexem no centro de gravidade da moto. Ainda vai aumentar o consumo sendo que nas retomadas, dependendo da cilindrada, a moto ficará mais lenta do que estaria se você estivesse viajando sozinho. Lembre-se disso, pois é comum motociclistas levarem sustos quando de uma ultrapassagem. Acontece que quando está sozinho, a moto responde mais rápido, inclusive nas retomadas, pois estará mais leve e será menor a área de atrito com o vento. Uma dica boa é nas motos de até 750 cilindradas você imaginar que com garupa e bagagem você perderá um terço do desempenho. Nem todas as motos são assim, mas essa conta ajuda a lembrar de que o desempenho dela numa ultrapassagem será bem diferente. Outra coisa que muda consideravelmente é a frenagem. Frear quando apenas você está em cima da moto é diferente de quando tem uma garupa e bagagem. Vai precisar de mais pista. O freio traseiro e o dianteiro vão exigir uma pressão a mais. Lembre-se disso.

Garupas de primeira viagem tendem a sair de casa de tênis, camisetinha, sem luvas e sem balaclava. Perca um tempinho tentando explicar isso a ela. Se você faz parte de um motoclube leve a sua companheira para uma reunião na qual as garupas mais experientes estejam presentes e peça para elas passarem as instruções. Eu usei isso e deu muito certo. Ela entendeu qual a finalidade de botas, calças mais resistentes, proteções para cotovelos e pernas, luvas e a balaclava. Se você deixar que elas mesmas expliquem a elas vai evitar um monte de problemas e aborrecimentos, pois só mulher entende mulher e desista, pois nem Freud explicou o que elas querem. Além do mais será uma ótima oportunidade para que a sua garupeira se socialize mais rapidamente no motoclube. Lembre a sua companheira para usar um protetor solar mesmo que esteja com jaqueta. O vento e o calor; ou até mesmo o frio costuma ressecar a pele.

Garupa

Na pilotagem vale passar algumas dicas importantes. Não jogue muita informação, pois será coisa demais para lembrar na hora em que ela estará olhando a paisagem e ao mesmo tempo ouvindo música.

A garupa não deve subir na moto como se estivesse montando um cavalo. A maioria apoia um dos pés sobre uma das pedaleiras, passa a perna sobre o banco, apoia o outro pé sobre a pedaleira do lado de lá e senta-se. Tudo errado. Pedaleiras não foram feitas para suportar o peso de uma pessoa. Servem apenas como apoio e não são degraus. A maneira correta é passar a perna por cima do banco, sentar-se e em seguida ajustar-se ao banco. No começo pode até achar ruim, mas logo se acostumam. Se a moto é muito alta para a garupa e ela for bem levezinha essa regra pode ser quebrada. Mas apenas nesse caso. Garupas mais pesadas seguem a regra anterior. E pelo amor de Deus – nunca diga isso a uma mulher. Se o fizer, você deixará de ser fofo e passará a ser um ‘grosso’. Peça sempre a garupa para não subir na moto sem avisar ao piloto, ainda mais sobre pisos escorregadios ou irregulares. Oriente-a a subir apenas quando você fizer sinal.

Se a moto não tem sissy-bar, o ideal é que mantenha o corpo ereto ou, no máximo, incline-se levemente para frente. Pode segurar nas alças traseiras ou no piloto, mas prestando atenção para não sufocá-lo, arranhando capacete e a viseira do capacete dela e, nunca apoiar o peso sobre o motociclista, isso vai acabar com as costas do piloto e aumentar a pressão das mãos sobre o guidão prejudicando a pilotagem e a segurança.

Nas freadas e arrancadas, deve segurar-se nas alças (e não no condutor) ou compensar o desequilíbrio momentâneo com leves inclinações do corpo. Este é o único caso no qual a moto se parece com montar a cavalo. Nas motos com sissy-bar, basta encostar-se ali e manter os braços cruzados ou apoiados sobre os joelhos. Vai de cadeirinha, Nas custom o banco da garupa é geralmente mais elevado e isso dá uma visão privilegiada da viagem.

Nas curvas, peça pelo amor de Deus para que a garupa não se incline para o lado contrário e que nem pilote com você. Esta postura pode provocar um acidente grave. Ela não precisa fazer nada, no máximo colar as pernas nas suas. Se fizer isso já ajuda bastante. Peça para relaxar. Outra dica importantíssima é evitar ao máximo fazer movimentos bruscos. O problema será ainda maior se a moto for pequena. Se você viaja numa velocidade acima de 100 km/h outra dica é pedir à garupa que tente ficar mais próxima de você. Vai ajudar a centralizar o peso sobre o banco e reduzir as turbulências provocadas pelo vento e as geradas pelas traseiras de caminhões. É comum, a garupa ficar olhando para o velocímetro, exatamente por cima do ombro do piloto. Algumas chegam mesmo a reclamar da velocidade dando cutucões, joelhadas, beliscões na perna etc. Acerte uma velocidade média que a deixe menos insegura. Depois que ela se acostumar vá lentamente subindo a velocidade. Na maioria das vezes não irão perceber e em pouco tempo acabará se acostumando.

GarupaQuando for parar a moto peça a garupa para que espere o sinal para descer. Um dos grandes problemas é que elas podem descer pelo lado que os carros estão vindo e assim o risco de atropelamento é enorme. Descer ao sinal do piloto é fundamental e nesse momento a moto estará equilibrada e em local seguro. Não tente estacionar a moto com a garupa em cima. Minha dica é sempre desmontá-la em local seguro e em seguida estacionar a moto. A propósito, é comum ver pilotos carregando seu capacete e o capacete da garupa. Nunca faça isso. O equipamento da garupa é responsabilidade dela. Ela leva o capacete dela, as luvas dela e a jaqueta dela e você o seu equipamento. Cavalheirismo nessa hora serve apenas para cansar você ainda mais. Quando chegar ao destino tire primeiro a bagagem dela e depois a sua. Seja cavalheiro. Mulheres não gostam de ficarem longe de seus acessórios, cremes e maquiagem por muito tempo.

Em viagens é comum tirar muitas fotos com a moto ao fundo. Uma sugestão é programar as paradas antes. Nessa hora a gentileza conta. Deixe de ser ciumento e tire uma foto da sua companheira sentada na posição do piloto. São fotos bonitas e valorizam a moto, pois se existe uma coisa que deixa uma moto muito mais sedutora é a imagem de uma bela mulher vestida a caráter em cima dela.

Numa viagem é recomendado deixar a moto no hotel e rodar a cidade de taxi. Motos com placa de fora chamam muita atenção além de aumentar o risco de roubo. Aproveite a cidade, vão a restaurantes, museus, tomem umas boas cervejas ou um vinho sem se preocupar se a sua moto está bem. Se ela ficar no hotel estará muito bem guardada. É comum à saída encontrar pessoas tirando fotos ou até mesmo sentadas no banco da sua moto – a que venhamos é um sacrilégio, para não dizer uma heresia.

Na viagem vocês não conversam, apenas apreciam a paisagem e ela ouve música. No trajeto os pensamentos voam, a palavra é muda e ela vai aprender que numa moto problema não faz curva, mas quando chegarem não vai faltar assunto para conversar. Aproveite a viagem, divirta-se e tire muitas fotos e publique aqui a foto com sua companheira de viagem.

Esta é uma parte da minha vida numa moto. Na próxima coluna vamos tratar de um assunto que toma tempo, mas vale a pena se for bem feito, que é arrumar a bagagem.

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Veja as outras matérias da série Minha vida numa moto:

  1. O Supermercado
  2. Cantando na chuva!
  3. Capacetes
  4. Viajando com garupa
  5. Bagagem e Bagageiros

 



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.