Moto: a inspiração artística

Moto: a inspiração artística

Depois de zamberetar mundo afora e conhecer novas culturas motociclísticas, resolvi escrever um pouco sobre o que entendo sobre estética sobre rodas.

No futuro pretendo abordar nesse nobre espaço alguns conceitos sobre design, enfim, aquela “aura” que os objetos carregam e que podem causar desprezo e indiferença ou uma babação daquelas. Mas antes pretendo expor aqui minha singular teoria sobre o processo epistemológico de projeto, design e fabricação de motos contemporâneas. É claro que estou satirizando e criando uma caricatura, mas com algum fundo de verdade.

O método Chinês

No início do séc. XX apareceu um movimento no entre-guerras denominado dadaísmo. Era uma turma de malucos que na verdade estavam debulhando a arte clássica, aliás, o próprio nome dadaísmo, da palavra dada, não quer dizer nada. Foi escolhido ao acaso abrindo um dicionário francês, ou seja, dada quer dizer cavalo-de-pau (o brinquedo), mas o movimento artístico não tinha nenhuma relação com cavalo, nem com brinquedos. Eles escreviam poemas recortando um monte de palavras aleatoriamente dos jornais, colocando num saquinho e depois esparramando sobre uma mesa. O que saísse dali era o poema acabado.

Parece-me que este é o método chinês (e outros asiáticos emergentes) para o design de produtos, qualquer produto, e não poderia ser diferente com motocicletas.

Dia desses vi uma moto que tinha um estranho nome, Chinelo ou coisa assim. Pastiche, uma colcha de retalhos de peças que já vi em algum lugar. Ali perto, numa outra rua, uma moto que parecia uma V-Rod, com pitadas de custom, alguma coisa da V-Max e um escapamento de 8 polegadas de diâmetro, descaradamente copiado da VTX1800 da Honda. Depois cruzei com uma caricatura de Harley, com plataformas enormes, faróis de milha enormes, pedaleiras enormes, muitos cromados e uma eficientíssimo motor de 125cc. Ou seja, mistura tudo o que tem na indústria pré-cozida, ou seja, as peças disponíveis, agite bem e veja no que dá. Se os chineses continuarem assim e não contratarem urgentemente bons designers, em breve teremos o belíssimo conjunto Speedy Custom Fun Trail, com faróis de milha estilão Harley, dois faróis estilos Speed Triple, suspensão invertida na frente e bi-choque na traseira, sissy-bar, carenagem integral, pneus on-off e o indefectível motor de CG de 1974 para empurrar essa maçaroca. Design é como gastronomia: Exige talento para misturar estilos, comida baiana com a cozinha japonesa, por exemplo. O bom chef consegue, o amador acaba fazendo sushi de paçoca.

Kleine Dada Soirée, 1922. Litografia de Theo van Doesburg e Kurt Schwitters.

Uma mistureba de estilos. Vi esse troço pessoalmente. É medonho.

O método Americano

É um estilo anti-Michelangelo. Certa vez perguntaram para o mal-humorado artista como ele fazia suas impressionantes esculturas, como o Davi, o Moisés e a Pietá. Ele explicou que escolhia um bom bloco de mármore, preferencialmente de Carrara e ficava ali, observando o bloco até enxergar a obra. Fez assim com o Davi, hoje num museu em Florença. Disse ele:

-Talhei o bloco e retirei dali tudo o que não era o Davi. Ficou o Davi.

De modo inverso os americanos constroem suas motos. Esportivas, tunadas, caseiras, customs, choppers, bob-jobbers, touring´s, empetecadas, rat-bikes, triciclos (êpa! Estou no MOTO online), as motos do Condado da Laranja, funbikes e se vacilar até velotrol. Qualquer coisa com duas rodas e com motor na terra do Tio Sam começa com um motor de Harley. Então, seja lá qual for a idéia do sujeito o ponto inicial sempre é o folclórico motor. A impressão que temos é que as motos americanas são montadas em volta do motor. Se não for assim é traição à Pátria e certamente o FBI baterá à porta de quem tem a idéia ultrajante de que às vezes um quatro em linha pode ser melhor que o V-2 de Milwalkee.

Torta de maçã, o monte Rushmore, a estátua de Lincoln, o Capitólio, os flamingos de plástico cor-de-rosa. Coisas de gringo. Estranho não haver em Washington ou em algum lugar um monumento chamado “The Big Bore”.

Disse Henry Ford no início de sua produção em massa de automóveis: – Você pode escolher qualquer cor de carro, desde que seja preto. Certamente os Sr. Davidson disse algo semelhante: – Você pode construir qualquer coisa sobre duas rodas, basta começar com um motor de Harley.

Mas se existe um movimento artístico que coaduna com a folclórica Harley, é a Pop-Art. Mais do que moto, é a própria cultura pop, é Lichenstein, é Warhol. Pop não no sentido povão, mas no sentido daquilo que é onipresente. Pergunte para qualquer cidadão na face dessa terra a marca mais famosa do mundo das motocicletas. Sabemos a resposta.

Aí está a prova. Até para recriar um motor desmodrômico, os gringos começam com um motor de Harley. Eis aí então um HarleyDesmo. Fonte: http://thekneeslider.com/archives/2007/07/12/desmoharley-italian-americ an-v-twin-completed/

O método Italiano

Já que entramos nessa de criar analogias, certamente a moto italiana é barroca. Barroco vêm do termo original da língua portuguesa (em outras línguas se escreve Baroque, como no inglês) e significa pérola imperfeita ou jóia falsa, na verdade adotou-se esse termo para designar o espetacular e o exagerado, o excessivo e altamente detalhado, o apaixonado e fervoroso. Depois dos grandes nomes do Renascimento, Raphaelo, Michelangelo, da Vinci, surge uma estilo artístico que prima pelo excesso, pelo exagero no detalhes. Isso já são os meados do séc. XVI e se estende até meados do XVIII Isso ficou claro quando restaurei uma Vespa Piaggio. Milhões de parafusos, um chicote monstruoso, soluções que fariam um japonês tremer de pavor, mas tudo isso com uma elegância extraordinária. A luz e sombra, os equilíbrio entre o pleno e o vazio, a ilusão de grandiosidade, as linhas angulares, os gestos exaltados e os contrastes de cores. Uma Moto Guzzi, com aqueles cilindros saltando para fora da moto ainda é um resquício da arte de Bernini, uma Ducati ainda nos remete as curvas encontradas na pintura de Rubens e Caravaggio.

Há uma fragilidade no ar, uma iminência de que algo vai acontecer, como bem retratam as pinturas da época. Isso é bem verdade quando as Ducatis, Guzzis e Agustas, não obstante sua indiscutível beleza resolvem mostrar suas entranhas. Vi um motor de Ducati após o rompimento da correia dentada (sim amigos, correia dentada, peçam socorro ao Dr. Tite, M.D. PhD). O barroco não era, por assim dizer, simples e eficiente…

E a característica mais popular do Barroco é o Rococó, esse uma conseqüência daquele, uma conseqüência profana por assim dizer. É o extremo da ornamentação, das formas fluídas e curvas. Está ficando complicado? Faça uma experiência observando lado a lado uma Burgman 400 e uma Piaggio Beverly. Ou uma R1 ao lado de uma Bimota. O método Italiano pode ser confuso, complicado, muitas vezes anti-funcional. Mas seu resultado é indiscutivelmente belo, um prazer estético (e por que não técnico) único.

Fonte: http://thekneeslider.com/archives/2006/07/05/vyrus-985-c3-swingarm-fron t-end-motorcycle/

Ornamento Barroco em portal. Exagero nos movimentos e nos detalhes.

O método Inglês

Neo-clássico. Uma inglês é uma clássica por excelência.

O estilo neo-clássico nasceu como uma resposta firme ao estilo romântico, ali pelo final do séc. XVII e início do XVIII. O estilo romântico trazia movimentos leves, pinceladas soltas, uma leve sacanagem no ar, como podemos conferir nas pinturas de um grande expoente dessa escola, o espanhol Goya. Como resposta, resgatando a sisudez e a grandiosidade dos movimentos, aparece o movimento neo-clássico, inspirado na própria arte greco-romana de tempos passados, lá pras épocas dos gladiadores. Um grande nome é Davi, renomado pintor, mas não podemos esquecer de Willian Turner, talvez o maior de todos os pintores ingleses. Turner ilustra bem a característica estética inglesa. Começou no Neo-clássico, foi um precursor do Impressionismo e há quem diga que foi também precursor do abstratismo. Foi um artista completo que soube viver o seu tempo e interpretar o mundo ao seu redor.

Assim é com uma moto inglesa. Como diz o João Tadeu, uma moto com cara de moto. Transpira realeza, inspira respeito, ilumina, assim como a obra de Turner. Não é à toa que Marlon Brando não usa uma Harley no filme The Wild One. Está montado em uma Triumph. Coisa de nobre.

Quem não conhece a Norton, a Triumph, BSA não tem idéia do que está perdendo. E mesmo quando há necessidade de se renovar, não deixa por menos. Basta lembrar o efeito mesmerizante da Speed Triple quando foi lançada no final do anos 90.

Keelmen Heaving in Coals by Night, 1835, National Gallery of Art, Washington, D.C.

Marlon Brando no filme “The Wild One”

O método Japonês

Toda a indústria japonesa está impregnada de cultura tradicional daquele genial povo e isso não é mero acaso. Aprofundei meus conhecimentos depois de um papo sobre tal cultura com o nosso Harada San. E fui resgatar meus conhecimentos sobre o Teatro Kabuki. Pesquisem sobre o assunto e verão de onde vem a estética mangá, só para citar um exemplo.

É a arte da perfeição, sem abrir mão da diversão e do contentamento estético. O teatro Kabuki difere do enormemente do teatro ocidental e era vanguardista já nos séculos passados, ou como afirmam algumas traduções, é o teatro fora do comum. Há algo de cerimonioso nas motos nipônicas. São completas sem exagero, são precisas e definidas como as máscaras do Teatro Kabuki. Ninguém me tira da cabeça que os designers japoneses fizeram uma sutil citação dessas máscaras nas carenagens das motos speedy. Até então as carenagens das motos mundo afora, como as européias, eram rombudas e desajeitadas. Mesmo ao recriar as customs americanas, foram de uma elegância sem par, retirando as linhas desnecessárias, realçando a leveza naquilo que essencialmente era pesado. A moto nipônica é uma cerimônia do chá sobre rodas. E a citação da cultura não para por aí, a Valkirye Rune por exemplo é a manifestação em forma de moto do traço autoral dos desenhistas dos mangás. Katana e Hayabusa completam o cenário.

Máscara Kabuki e inspirações japonesas

O método Alemão

O que dizer dos teutônicos? Ora, toda vez que ouço Wagner imagino que as Walkirias não chegam galopando em Walkiries (ô trocadiho infame), mas em BMW´s. Tudo é próprio e de uma obviedade acachapante. Mas para ser óbvio sem ser entediante é necessário um caráter obstinado e genial.

Wagner, o compositor do final do séc. XIX, era ambicioso. Bach, Mozart e Beethoven também são gênios que não cabem no papel. Tudo bem que alguns desses eram austríacos, mas ali entre alemães e austríacos a fronteira cultural é bem flexível. Sendo assim podemos colocar a KTM e outras regionais no meio dessa rolada. Esse gênio e obstinação de transformar o atual e confortável em novidade, derrubando tudo e arriscando no novo é coisa germânica mesmo. Pode até dar errado, mas ninguém pode apontar a estética alemã como uma mesmice. Isso é moto alemã.

Certas coisas nos parecem óbvias, mas só se tornam óbvias depois que os alemães inventam. Essas máquinas têm algo de Bauhaus, às vezes uma simplicidade que assusta, mas ser simples e elegante não significa ser simplório e bonitinho. A começar pelo próprio emblema desta valente bávara, a BMW. Aquilo é uma hélice em movimento. Essa escola chamada Bauhaus, de onde tantos gênios saíram e onde a própria idéia de design se consolidou ainda está impregnado na estética daquele país, e claro, em suas motos. Inconsciente coletivo. Aliás, coisa de Jung, outro alemão…não, Suíço! E tem algo de suíço numa mastodôntica BMW? Não consigo desligar a máquina de fazer analogias estéticas. Consultem H.R. Giger! Foi fazendo essa analogia que descobri porque certas BMW´s me faziam lembrar do filme Alien.

O método Brasileiro

Para não atormentar os ufanistas de plantão, vou tecer aqui breves comentários sobre o jeito lisarbiano-bruzundanguense de metodologia em projeto e eventuais comparações estéticas e artísticas.

Adoramos copiar, mas de um jeito diferente dos chineses. Nós nos contentamos com a cópia, enquanto os chineses almejam um dia a autoria, o traço próprio. Nossos movimentos artísticos, não obstante as toneladas de tinta e papel já gastos sobre esse assunto, são miseráveis e caricaturas decadentes de manias européias. Há exceções, sem sombra de dúvida! Mas as exceções são varridas para debaixo do tapete. Somos caipiras, sim sinhô! Mas por não assumir nosso bichim-di-pé, fingimos ser outra coisa, e como não somos outra coisa, não sabemos direito o que nós somos. Os rednecks, o termo que designa o caipira gringo, conseguiram desenvolver uma cultura que predominou no mundo. Sim, a cultura gringa é caipira, mas para nós, metidos à coisa nenhuma, ser caipira é ser uma besta quadrada, um sujeito por fora. Querem ver? Entrem no site da Confederate e leiam o texto de entrada. Caramba, quer coisa mais caipira para um gringo que uma moto com o nome Confederate?

Para nós do torrão de terra inzonzeiro, ser caipira é ser tonto. O bacana é ser esperto e se dar bem a qualquer preço, comprar uma mansão, botar aquele pagodinho com vocalista língua-plesa pra tocar nas alturas e jamais abandonar a churrasqueira fuleira, herança maldita do tempo de pobre humilhado. Aprendi uma coisa, prefiro ser o ingênuo da história, o capiau, e não o espertalhão. Num mundo de espertões, ninguém confia em ninguém e sabemos o resultado disso. Dizem que o problema é educação. Não acredito, certamente o buraco é bem mais embaixo, mas aqui não é o espaço pra tais elucubrações. Noves fora a gozação, continuemos… Quando vejo alguém se babando diante de uma Harley ou Triumph, dá até vontade de cutucar o cara e lhe sussurar no ouvido: Isso que você admira não é resultado do esforço de um monte de gringos bacanas importantões e modernosos. É coisa de caipira. Assistam o filme The Worlds Fastest Indian sobre a vida de Burt Munro e entenderão o que quero dizer.

E não me aporrinhem dizendo que eu sou baba-ovo de gringo. Eu não costumo me vestir de caubói nem tampouco vivo travestido de integrante dos Hell Angels. Muitos brazucas até aceitam macaquear a caipirice alheia, principalmente a gringa, mas têm pavor de serem reconhecidos como caipiras. Harley, por exemplo, é moto de caipira americano. Isso é inegável.

Vamos analisar um exemplo artístico: Na minha opinião o maior pintor que o Brasil conheceu foi Almeida Junior. Um caipiraço ituano que foi reconhecido pelo imperador como um gênio e enviado rapidinho para se aperfeiçoar em Paris. Isso sem contar o gigante que foi Aleijadinho, citado como um dos maiores artistas do movimento barroco. Infelizmente essa citação está no Wiki em inglês. Na nossa língua, no verbete barroco, esqueceram do cara. E Aleijadinho era um caipira. Em suma, ser caipira é ser autêntico consigo mesmo e com suas origens. Todas as culturas veneram seus artistas. A Espanha venera Dali e Gaudi, a Inglaterra o Turner, a Irlanda o Joyce, a Alemanha Bach e nós…? Nós só lembramos do trolha ou da trolha que ganhou o último BBB. Nas últimas décadas enterramos com cal toda a nossa grandiosidade do passado, não citamos nossos escritores, não conhecemos nossa arte, pouquíssimos são capazes de citar um verso de um grande poeta ou assobiar um trechinho de uma música clássica brasileira. Sem referência estética do passado simplesmente a criatividade morre de fome.

Mas e as motos? Viajei na maionese e não escrevi nada sobre as motos brasileiras. Mas elas são todas projetadas fora do Brasil, certo? Errado! Tivemos a Amazonas, fruto do desespero de alguns que queriam uma moto grande num momento em que um General Estrelado que odiava estrangeiros resolveu transformar o Brasil num caramujo, se fechando para o resto do mundo.

Embora desajeitada que só ela, a Amazonas resolvia o problema da falta de perspectiva. Fugindo do universo motociclístico tínhamos o Gurgel, coisa nossa, bem capenga e feio, mas com o mercado fechado até que foi um milagre. E chegamos ao esplendor do séc.XXI com a Pop. Imagino se algum designer sonhou com um grilo sem pernas, ou como dizem as más línguas, deixaram uma Mobylette e uma Falcon juntas na garagem e dessa união nasceu aquela coisinha fofa.

Não quero ofender ninguém, mas minha cabeça de designer ainda não entendeu como num país miserável como a Tailândia uma 100cc popular é muito mais bonita que a nossa. Perdemos o senso estético? Bem isso é assunto para outras linhas.