Mulher e motos: casamento difícil!

Mulher e motos: casamento difícil!

Já faz uns 3 meses que decidimos comprar duas motos off-road para lazer, e esse processo, infelizmente, ainda não terminou. Antes de detalhar essa história, vamos conhecer os personagens: primeiro eu, que sou grande (1.80m), pesado (110kg) e tenho pelas costas pelo menos uns 20 anos de motociclismo. Não me considero um praticante de esporte motorizado, pois nunca andei em uma pista de velocidade nem nunca fiz trilhas com intenção esportiva, mas também não sou um motociclista “roda presa”, e não me envolvo em acidentes sérios desde meus 15 anos. Viajo de moto com regularidade, no passado com uma Sahara enfrentei boas e longas estradas de terra e praias, e agora ando no trânsito do Rio de Janeiro com uma Harley Davidson Electra Glide com desenvoltura. Pra mim, a moto off-road não poderia ser uma 125cc, tinha que ser algo maior.

Minha esposa, Claudia, é o meu oposto: pequena (1.55m), leve (58kg), nunca teve moto e embora seja uma capoeirista talentosa (já foi professora, inclusive) é na minha opinião uma pessoa muito desastrada, daquelas que nascem com duas mãos esquerdas. Acidentes de bicicleta ou fazendo esportes são comuns, quedas de escada, topadas em quinas ou em móveis também são freqüentes, quebrar pratos ou copos sem querer então, nem se fala. Para agravar a situação, ela ainda não tem carteira de motorista. Nem de carro, nem de moto. Essa situação é em parte por minha causa, pois sempre tive carros grandes (pickups ou SUV) e motos grandes e ela, por causa do tamanho, não conseguia ter segurança sequer para dar umas voltas neles. Com a decisão de ter uma moto off-road, decidimos que era hora de tirar carteira de motorista, moto inclusive. Acho que é uma ótima oportunidade dela aprender a se relacionar com veículos sem se machucar muito, há ótimos equipamentos de proteção no mercado e estarei sempre ao lado, dando assistência.

Não vou entrar em detalhes sobre a questão da carteira de habilitação, mas resumindo posso dizer que o processo é longo, enrolado, burocrático, caro, e ao invés de ensinar o aluno a dirigir com segurança, acaba o transformando em um robô para passar na prova. Ela ainda está na fase das aulas práticas, mas já fez uma prova teórica. Pelo que ela me disse, 70% da prova eram questões sobre meio ambiente e resgate de acidentados. Eu até acho que esses temas são importantes, mas é muito mais importante conhecer as leis de trânsito, as placas, as regras de preferências dos cruzamentos, etc, do que aprender que não pode jogar papel pela janela. Como o tema dessa coluna não é esse, vamos pular esse assunto. XTZ-M

Yamaha XT600E

Yamaha XTZ 125E

A primeira dificuldade que tivemos foi encontrar uma moto off-road adequada para as mulheres, especialmente para as pequenas e iniciantes. Acabei optando pela Yamaha XTZ 125 K (partida a pedal) por falta de outras opções, pois um dos maiores problemas que encontramos foi a altura das motos. Os fabricantes deveriam saber que nem todo motociclista é homem, alto e forte. Há mulheres andando ou querendo andar de moto off-road, que são tipicamente mais baixas dos que os homens e que justamente por estarem iniciando ainda precisam ter a segurança de colocar os dois pés no chão.

As motos off-road disponíveis no mercado, entre 125cc e 250cc, são todas muito altas e caras, não apesar disso não têm sequer regulagem de altura. Até mesmo com a XTZ ela só consegue colocar a ponta dos dois pés no chão se estiver calçando uma bota. Uma das exceções na altura é a XT 225 das mais antigas, que tem o banco um pouco mais baixo, mas acaba sendo uma moto pesada para uma iniciante, além de ter saído de linha e ser conhecida por uma manutenção complicada. Não deveria ser assim, pois o preço dessas motos off-road novas é muito alto para o que oferecem: a XTZ 125 com partida elétrica é vendida por mais de 8 mil reais no Rio de Janeiro, e a com partida a pedal por 7.500 reais. Um absurdo! Essas motos são 125 cilindradas, e por isso são consideradas “de entrada” para os motociclistas mais novos! As versões street custam em média 5.500 reais, que considero bem mais razoável, mas pelo visto off-road é luxo…

Essa distorção de preços é tão grande que o mercado de usadas acaba ficando muito depreciado: acabei comprando em uma concessionária Yamaha uma XTZ 125K 2005 preta com 4 mil km rodados por 4.900 reais, revisada, com garantia, etc, etc. Soube que essa moto entrou na concessionária por coisa de 4 mil apenas. Imagine a situação do antigo proprietário que em 2 anos e 4 mil km depois perdeu 40% do valor da moto. Esse não é um caso isolado, no fórum do Motonline há relatos de outros casos parecidos de depreciação exagerada nessas 125cc.

Vamos voltar ao cenário da compra, mais especificamente ao dia que fechamos o negócio: era um final de semana de junho, olhamos a moto, ela gostou embora tenha achado alta demais. Não houve desconto no preço, mas como a moto era nova decidimos fechar negócio. Infelizmente o motor não ligava direito. Funcionava mal, de forma irregular, típica situação onde há “goma” de gasolina no carburador, aliás, só tinha um litro de gasolina velha no tanque, ou seja, só ligava com a torneira na reserva. Como a moto era nova, muito nova mesmo, e a loja era uma concessionária oficial da marca com um vendedor sempre dizendo “a moto será toda revisada, terá garantia após a entrega, blá, blá, blá” fechei o negócio com a ressalva de que pagaria 2 mil a vista e 2.900 quando a moto estivesse revisada, de forma que eu pudesse confirmar se o motor estava em bom estado antes de passar os documentos. E assim foi feito. A previsão era receber a moto na primeira semana de julho, bem antes do aniversário dela, que foi no dia 11. Tudo ia muito bem…

Acho que todos vocês conhecem histórias de descaso de concessionárias, certo? Essa é apenas mais uma. Ninguém revisou a moto, alegam que só fazem a revisão na véspera de entregar a moto “para evitar que ela fique parada muito tempo”. Exigi a revisão prometida pelo vendedor antes do pagamento da segunda parcela e ele disse “isso não é comigo”, dizendo que eu tinha que me entender com o chefe da oficina. Depois de muita briga acabei conseguindo a tal revisão e a moto ligou, funcionou relativamente bem, mas com alguma irregularidade. O chefe da oficina disse “é por causa da gasolina velha”. É incrível como essas concessionárias são mesquinhas com a gasolina. Todas as motos que eu comprei em concessionárias, inclusive minha Harley Davidson, vieram com o tanque praticamente seco, suficiente para chegar até o primeiro posto de gasolina. Aliás, com a Harley nem isso, pois eu tive uma pane seca na esquina do posto, deu pra chegar no embalo. Custa colocar 3 litros de gasolina nova no tanque? Onde já se viu limpar e regular carburador com gasolina velha?

Como o motor não apresentou nada de grave, faltava talvez só uma regulagem no carburador, paguei a segunda parte e aguardamos a documentação para retirar a moto. Quero deixar claro que em todas essas visitas à concessionária a Claudia estava comigo e vivenciou todo o processo, até porque a moto é dela e está em nome dela. Como o processo é difícil e pouco transparente, por várias vezes ela me disse que teria sido facilmente enrolada, por não conhecer todos os detalhes do motor, etc, e que minha participação estava sendo decisiva para o sonho de ela se tornar uma realidade. Eu a tranqüilizei dizendo que era uma concessionária séria e que problemas desse tipo acontecem, mas que tudo se resolve, etc, etc. Era um presente de aniversário, eu não queria que esses “ainda” pequenos problemas se transformassem em um transtorno.

Vamos encurtar essa história: no dia de pegar a moto, o vendedor perguntou pra ela, “como você quer pagar os 390 reais do despachante?”. Como assim, despachante? Nós moramos ao lado de um posto do Detran, e pra fazer a transferência é necessário apenas pagar um DUDA (creio que 70 reais, aproximadamente) visto que todos os custos de licenciamento da moto para 2007 já estavam pagos (eu conferi…). “ahhh, mas é que aqui na loja todas as motos são transferidas para o nome da loja e depois para o novo proprietário, e pra isso usamos um despachante”. Evidentemente que não aceitei, e fui falar com o gerente. Na proposta de compra da moto não havia nada a respeito do despachante, e 390 reais por algo que eu posso fazer de graça é demais, não acha? A explicação do gerente é que esse procedimento de transferir para a loja e depois direto para o cliente, via despachante, evita problemas jurídicos contra a concessionária, porque “já houve um caso que…” entre outras desculpas que resumidamente contra argumentei:

– Olha, entendo isso tudo, e entendo que a concessionária quer com isso reduzir seu risco. Mas se o risco é seu, o custo também é seu, portanto não vou pagar pelo despachante. Aliás, como não está na proposta de venda e não está incluso no preço do produto, podemos facilmente caracterizar como venda casada, que é crime, até porque você está retendo o bem, sob a condição de pagar tal taxa. Se era para pagar 5.290 pela moto, porque não me passou esse preço ao invés dos 4.900?

Ele respondeu sem pensar e entregou o ouro “é que por esse preço cheio não venderia”. Discussão vai, discussão vem, e por alguns instantes pairou no ar a intenção do gerente em melar o negócio e devolver o dinheiro, já que a margem da moto era pouca, etc, etc. Como vi que a Claudia estava ensaiando um choro nervoso pelo sonho desfeito, acrescentei:

– Quero que você veja que minha esposa está chorando por causa do transtorno que você está nos causando. Quero que você veja também que essa semana (peguei a carteira de identidade dela) é o aniversário dela e que esse é o meu presente. Se sua intenção é melar o negócio saiba que isso pode sair muito mais caro pra vocês, pois não só eu não aceitarei a devolução do dinheiro como são evidentes os danos morais que você está nos causando. (e saquei o celular para fotografar tudo, registrando a cara do gerente, o choro da Claudia, e tudo mais).

Com um pouco mais de conversa o gerente retornou “Estou vendo que você é uma pessoa de bem, e por isso vamos abrir uma exceção e você poderá realizar a transferência por sua conta própria, sem pagar o despachante”.

Essa é uma das coisas que mais me irrita nesse país: a presunção de que somos bandidos mal intencionados! É preciso mostrar que não somos bobos, que estamos agindo dentro da lei, com boa fé, para que o bom senso prevaleça. A presunção de culpa e má fé do cidadão é o padrão nesse país. Experimente solicitar um conserto do seu telefone ou da banda larga da internet: o operador irá mandar primeiro você realizar inúmeros testes imbecis para constatar que você não está mentido, e que realmente há um defeito, depois ele dirá “se o técnico for até a sua casa e não constatar o defeito você pagará xxx reais pela visita”. Só posso concluir que deve haver milhares de pessoas ligando para reclamar de defeitos inexistentes só de curtição, daí tal postura defensiva. Só pode ser isso!

Vamos voltar ao caso da moto da Claudia. Os documentos de transferência ainda não chegaram (faltou papel no Detran, foi o que disseram), mas a moto já foi retirada e constatei que o problema do carburador não foi resolvido. É quase impossível ligar o motor pela manhã, e está falhando muito em baixa rotação, embora a marcha lenta esteja estável. Tudo indica que é um problema de agulha, provavelmente agarrada ou mal regulada, mas o que é surpreendente é que esse carburador foi revisado, removido e limpo antes da moto ser entregue. Deve ser o mesmo padrão de revisão que foi usado na minha Drag Star no passado, que vibrava muito na estrada por causa da roda dianteira desbalanceada, e que a concessionária dizia que “era coisa da minha cabeça”. Claro, deveria ser coisa da minha cabeça, não é? Mas eu resolvi em outra loja, balanceando a roda, nem precisei ir a um psiquiatra…

Pra encurtar a história: o aniversário dela já passou, mas a moto ainda não anda direito e já voltou três vezes para a concessionária por causa da carburação. Os documentos de transferência não chegaram até hoje, mas “vão chegar amanhã” é o que eu ouço todos os dias. Uma semana depois de termos iniciado a compra da moto dela, eu comprei pra mim uma XT600 2004 novinha, com 8 mil km, em uma loja independente de boa qualidade e que só trabalha com motos grandes. Estive na loja duas vezes: na primeira eu dei o sinal e combinei a revisão de entrega, e na segunda vez, alguns dias depois, eu conferi a moto, paguei o restante e vim pra casa com ela, já com todos os documentos em mãos. Atendimento de primeira qualidade e a moto está redondinha, nada pra fazer, como deveria ser em qualquer compra de motocicleta. Infelizmente essas lojas boas e independentes, como outras que existem aqui no rio, só trabalham com motos grandes deixando as motos pequenas como um mercado quase que exclusivo das concessionárias. Se eu, que sou experiente, conheço todos meus direitos e tenho noções de mecânica suficientes para mostrar o que está errado estou sendo enrolado, imagine uma mulher, iniciante, comprando sua primeira moto usada em uma concessionária? O lema “em concessionária é mais garantido” nunca foi tão falso. Só estou insistindo na concessionária porque é meu direito e dever deles, e vou continuar insistindo enquanto o documento não chegar. Depois, se a moto não ficar boa, vou levar a uma loja que conheço que tem um mecânico sério e vou pagar o reparo do meu bolso.

Hoje passou na TV uma matéria sobre as motos e as mulheres, todas felizes com suas scooters (Pop, Biz, Neo, etc) zero quilometro, econômicas, coloridas e provavelmente financiadas diretamente nas concessionárias a juros abusivos e cheio de tarifas extras. Esse é o mercado que os fabricantes estão visando: a venda de motos femininas, novas, de baixíssimo preço, com parcelamentos facilitados. O resto é exceção, inclusive as off-roads.

Pela matéria da TV vocês, mulheres, já são responsáveis mais de 10% do total de motos novas vendidas nos últimos 12 meses, portanto exijam seus direitos na hora de voltar à concessionária, nem que seja por um simples serviço de manutenção. Não deixem que te enrolem com esse papo de que “vai sair daqui toda revisada e garantida” porque o serviço de concessionárias em geral é péssimo, especialmente em garantia (onde a remuneração deles é menor), pra eles não custa nada fazer você retornar três ou quatro vezes até resolverem o problema definitivamente.

E na hora de trocar de moto, mulheres, não deixem que desvalorizem sua moto mais do que 10% abaixo da tabela FIPE. É comum ver concessionárias Yamaha aceitarem motos Honda na troca, mas na hora de aceitar a sua, comprada lá, jogam o preço lá embaixo dizendo que não há mercado de usadas para o seu modelo. Isso não é privilégio da Yamaha não, pois acontece com qualquer marca, por exemplo, com a Suzuki e Sundown, com mais ou menos freqüência dependendo da região. Fujam das concessionárias picaretas, se não deu certo na primeira vez, procure outra loja da marca ou até uma loja independente, que geralmente preza pela qualidade dos serviços e pelo atendimento. Vocês, mulheres, têm uma árdua tarefa a cumprir, que é conseguir um bom atendimento nas concessionárias e preços justos na hora da troca. Nós, homens, não conseguimos, mas estamos aqui pra ajudar.