Arrumando o pneu da moto: único problema em toda a viagem

Na Bandit 650S a Machu Picchu

Relato de Gustavo Héctor Brun

Saímos de Ijuí no dia 5 de janeiro às 6:00 horas. Essa é uma regra que tento cumprir nestas viagens já que com a moto as primeiras horas da manhã são preciosas pois estamos descansados, e depois de um café as primeiras centenas de quilômetros ficam bem prazerosas. Assim, a regra é durante o dia avançar pelas estradas e quando o sol começa a descer, buscar onde pernoitar.

Gustavo e sua Bandit: o corpo cansa, mas a mente descansa

Gustavo e sua Bandit: o corpo cansa, mas a mente descansa

No início da viagem encontrei com Francisco e sua CB 1300 em São Luiz Gonzaga. Às 9:30 estávamos na fronteira. Esse passo de fronteira é pela ponte internacional e por ser um passo com pedágio nunca tem muita fila. Das fronteiras essa foi sempre a mais rápida… poucos minutos para Chico, mais alguns para mim, que fiz carta verde e os papeis para entrar na Argentina. Seguimos pelas rutas 14 e 34, para pegar a 12 que nos levaria ao oeste da Argentina.

 

Francisco e sua CB 1300; boa companhia é fundamental

Francisco e sua CB 1300; boa companhia é fundamental

No fim da tarde chegamos a Corrientes e antes da ponte, para passar ao Chaco, fomos parados por um policial. O primeiro e último pedido de propina tinha que ser divertido, mas me estressei um pouco. Ele pediu grana para o churrasco porque andávamos pela “via errada”. Eu sabia que essa regra não existe. Nunca dei dinheiro e não dou, sempre me desculpo com o argumento de que pago tudo com cartão “por segurança”.

A Bandit antes da saída: Alforges e bauleto permitem boa divisão da bagagem

A Bandit antes da saída: Alforges e bauleto permitem boa divisão da bagagem

– Llevo tarjeta, no llevo dinero por seguridad, eu justifiquei.

Pero como paga las multas, perguntou o policial incrédulo…

– No banco! Como todo o mundo! Respondi. O policial ofereceu Fanta gelada para Chico (eu não aceitei) e ainda tentou tirar uma grana… kkkkk… No fim, saímos na estrada com dois copos de Fanta para o Chico e sem deixar dinheiro. Motos com placa do Brasil podem ser uma tentação para policiais corruptos e mal pagos. Mas os motoqueiros não devem se amedrontar, eles só podem demorar e isso pode ser um motivo de descanso.

No fim chegamos a Resistência, fomos acolhidos pelo fotógrafo Juan Franco num Hotel do lado da Galeria, em Mitre y Roca. Gostamos e voltamos doze dias depois… O dono do hotel tem uma V-Strom e acho que isso fez a diferença no atendimento que davam para as nossas crianças Suzuki 650S e CB 1300. Sempre buscamos hotel com vagas para elas e essa é a única condição na nossa busca.

Depois do café da manhã, abastecemos as motos e saímos pra estrada. Contabilizamos as barras de cereal, duas caixas e mais umas vinte… Parecia exagero no inicio, mas no decorrer da viagem seriam aliadas, pois não almoçamos e preferimos andar. Levo uma pequena sacola térmica no baú, com água fria e Red bull. Quando se vai passar horas na estrada e com temperaturas que variam entre 40 e zero graus, melhor levar o básico: alguns analgésicos e antitérmicos. Usei Tilenol em La Paz. Mas voltando ao segundo dia, depois de abastecer as motos e lubrificar as correntes (eu com óleo grafitado e Chico com graxa branca), pegamos a estrada 12.

Borboletas na bolha e barrinhas de cereais na bagagem

Borboletas na bolha e barrinhas de cereais na bagagem

São 800 km, quase tudo em linha reta. Tem que ter cuidado com combustível. Dá para fazer sem problemas, mas não pode deixar de calcular de cidade em cidade. No mapa diz tudo em linha reta. Eu tirei o GPS e quando cheguei no trevo com a 94 era para virar à direita. Fizemos 50 km a mais e tivemos que voltar. Depois passamos por Pampa del Infierno com muito sol. Entre o trevo da ruta 6 e Pampa de los Guanacos haviam nuvens de borboletas que nos acompanharam e as motos ficaram decoradas todo o trecho com as asas de borboletas até o altiplano.

A travessia do Titicaca meio acidental e o "ataque" das crianças numa das paradas

A travessia do Titicaca meio acidental e o "ataque" das crianças numa das paradas

Tudo parecia desabitado, mas quando paramos uma outra nuvem de crianças veio a nosso encontro para ver as motos. Repartimos barras de cereal… kkkk… As estradas são seguras. Só fica ruim entre Monte Quemado e Joaquin Gonzales por causa dos muitos consertos e alguns buracos. Tem que ter cuidado com os porcos suicidas. Deve ser uma espécie típica que nessa região tem o mal hábito de atravessar na frente das motos. Se vir um porco, passe beeeeeeeem devagar. Dizem que de cada 10 desses bichos, cinco atravessam sem motivo aparente. O Chico por pouco não se mistura com a carne de um desses na ida e eu na volta tive que driblar uns três porquinhos.

Comboio no Chile: ajuda mútua é fundamental

Comboio no Chile: ajuda mútua é fundamental

Chegamos à ruta 9 quando já era o fim da tarde e seguimos até a linda cidade de Salta. Paramos num hotel e jantamos entre prédios de arquitetura colonial. O trato cordial e o respeito é um traço do povo de Salta. Cidade com personalidade, pelos benefícios geográficos, sua estética, seu clima, tudo muito atraente. Sempre pedimos hotel com WIFI. Levar telefone com plano internacional e conexão WIFI ajuda a manter o contato com a família. Fazer o Passo de Jama é uma das grandes atrações de de Salta. Adorei esta cidade! Com as motos prontas, gasolina e corrente lubrificada, fomos dormir e saímos cedinho no dia seguinte rumo à Bolívia.

Cidades bolivianas: ruas estreitas e comércio sem aquele ar de shopping center

Cidades bolivianas: ruas estreitas e comércio sem aquele ar de shopping center

O terceiro dia era ainda um desafio de 720 km, de Salta a Potosí, passando por Villazón. Deixamos a Argentina e suas belas paisagens do norte para entrar na Bolívia. Belas montanhas e suas estradas excelentes com suas infinitas curvas foi uma experiência única. As pessoas no sul da Bolívia tem uma humildade que parece um traço natural. Parecem mais calmos, afetivos e os sorrisos são muito mais comuns. Esse trajeto foi demorado pela passagem da aduana, mas a partir daí deu para fazer um bom ritmo.

Estradas retas no meio do deserto

Estradas retas no meio do deserto

Em todos os países é necessário ter os documentos da moto e do condutor. Só no passo do Peru para o Chile que complicam com três vias que devem ser carimbadas pela imigração e pela aduana. A Potosí chegamos de noite. O GPS não oferece distinção das ruas, o que tornou mais interessante a busca por um Hotel. As pessoas de Potosí foram muito simpáticas e a cidade oferece um estilo particular. As ruas estreitas só permitem a passagem de um carro, não foram feitas para trafegar carros e sim pedestres.

Paisagens deslumbrantes por todo o roteiro

Paisagens deslumbrantes por todo o roteiro

No quarto dia saímos do hotel em Potosí em busca de gasolina. Achamos um posto, mas o atendente só começava a despachar a partir das 9:00. Às 8:45 já tinha fila e nós nas motos olhando para ele que estava disposto a começar seu trabalho às 9:00 e não antes dessa hora. Partimos rumo a La Paz e as estradas continuaram excelentes, mas a entrada nalgumas cidades é um pouco caótico. Nessa época, recomendamos colocar a capa de chuva nesta região que está acima dos 3 mil metros de altitude. A chuva aparece de repente e a temperatura baixa rápido e a roupa molhada não permite que o corpo conserve a temperatura.

Arrumando o pneu da moto: único problema em toda a viagem

Arrumando o pneu da moto: único problema em toda a viagem

Em Oruro muitos desvios e barro dificultaram a passagem das motos. Até tivemos que passar por uma trilha em declive, mas as motos se comportaram bem. Nesse dia passamos pelo Poopo, lago irmão do Titicaca e do Illimani, que com seus 6.465 metros parece um gigante cuidando da Bolívia. A altitude que começava se faria sentir nessa noite ao chegar a La Paz, onde comecei a me sentir cansado. Um bom exercício de paciência é passear nessa hora.

Num mesmo dia, parte de zero grau para chegar a 40 graus

Num mesmo dia, parte de zero grau para chegar a 40 graus

Enfim, chegamos a La Paz e decidimos parar. Aproveitamos para descansar, conhecer algo do centro da cidade, suas comidas, seus gostos. A cidade é diferente das que tinha visto. Não foi pega pelos tentáculos da globalização, não tem esse ar de shopping das cidades modernas. O mercado junta as pessoas, o transporte público é colorido e forma parte da dinâmica dos cidadãos. A gastronomia é boa e recomendo o chá de coca , que é um pulmão artificial para turistas ativos.

Cusco tem cenários muito bonitos; cidade puramente turística

Cusco tem cenários muito bonitos; cidade puramente turística

O sexto dia saímos muito bem. Descansados, bem alimentados com a gastronomia local e já no ritmo do altiplano. Por sorte erramos a estrada e tivemos que pegar a balsa para cruzar pelo Titicaca. A intenção era ir pela ruta de Desaguadero, mas errei e fomos pela ruta 2. Daí que aproveitamos e fizemos navegar as crianças. As balsas cruzam por um lago de uma cor azul incrível numa altitude única. Subi a moto com desconfiança, pois ficaria sobre uma tábua e dos lados só os buracos do corpo da embarcação. Para sair, não é possível puxar os 240 kg sem a ajuda de alguém. Mas o esforço vale pelas paisagens. Flutuar nessas águas com a Bandit foi a realização de um desejo. Um desejo cultivado por anos em que o Titicaca aparecia como um sonho contado nos livros de geografia.

Deserto sem fim; cuidado com a gasolina

Deserto sem fim; cuidado com a gasolina

Tínhamos atingido uma meta, a do lago. Agora buscávamos chegar a Cusco e depois de visitar as ruínas Incas e depois cruzar pela planície até o Chile. A travessia até Cusco, depois de fazer os trâmites de fronteira, foi muito tranquila. Como os porcos no chaco argentino, nas altiplanícies temos as llamas, os guanacos e outros quadrúpedes móveis  que gostam de cruzar diante das motos. No Peru o tráfego é mais intenso e desequilibrado do que na Bolívia. Aí estávamos andando na altura e encontramos muitos turistas em moto. A finalidade dos passeios em moto, escutei dizer, está entre o esporte e o turismo. Pode ser, porque depois dessa experiência, posso dizer que o corpo trabalha tanto quanto a mente descansa.

Gasolina reserva em alguns trechos é muito importante

Gasolina reserva em alguns trechos é muito importante

Na cidade de Cusco a população muda, as regras são as do turismo internacional. As pessoas que na beira da estrada aprendemos a reconhecer mudam e se tornam objetos de observação. Até Cusco víamos pessoas que tinham a humildade como cultura, com uma comunicação maior e uma tecnologia menos sofisticada. É bom ver o contraste para entender o que ocidente fez com as civilizações e até onde pode chegar. As regras do ocidente se curvam ante o espírito humilde que convive com uma natureza hostil e bela.

Depois de visitar as Igrejas que tiravam o ouro dos Incas e visitar por US$ 300 as ruínas que os Incas fizeram para que depois de séculos seus descendentes cobrem dos europeus, …kkkk… enfim, depois de fazer o papel de bons turistas, voltamos ao mundo selvagem das estradas. Saímos de Cusco, passando por Juliaca bem cedo pois esperávamos cruzar por uma das estradas mais altas a 4.800 metros. Foi sem dúvida a parte mais emocionante da viagem. Quando começamos a subir para fazer esses 270 km de Juliaca a Arequipa, passamos por um deserto e não imaginávamos que esse lugar fosse tão hostil, com uma natureza muito dura.

Lindas paisagens acompanham os viajantes

Lindas paisagens acompanham os viajantes

As estradas muito boas e o combustível para as motos nunca falta. Mas tem que ser calculado. Depois de 4 horas de deserto e frio de altitude, chegamos a Arequipa que é um oásis. Uma cidade linda! Tem turismo, mas não é agressivo como em Cusco. É uma cidade com tanta história que necessita de uma pesquisa e um tempo para ela mesma. A dica gastronômica são os bares em frente a praça que oferecem Cuí, um roedor nada gostoso e que demora para servir. Escolha outra coisa do cardápio.

No retorno, o pacífico

No retorno, o pacífico

A estrada de Arequipa (Peru) para Arica (Chile) oferece a mesma segurança e as paisagens naturais que mudam a cada curva. Fizemos a estrada por Moquegua e Tacna. Cruzamos para o Chile e vimos o entardecer no pacífico. Esse dia passamos por quilômetros e quilômetros de deserto, só areia. Trafegar é tranquilo, mas é bom levar água, algum alimento leve e o necessário por se acaso fura um pneu.

Na passagem para o Chile foi necessário trocar moeda. O mais prático é levar dólares e ir trocando. Quando sobra se troca as moedas locais nos passos de fronteira. É bom levar o cartão desbloqueado pois é possível fazer saques em todas as cidades. Em Arica encontramos o movimento de uma pequena cidade de praia. A saída de Arica para Clama foi legal porque encontramos um uruguaio radicado na Venezuela que nos acompanhou ate Iquique. Nós seguimos esse dia até Calama, fazendo 700 km. Logo depois da saída fomos formando um grupo: o venezuelano, dois canadenses, três equatorianos, um brasileiro, um argentino e dois chilenos.

No comboio, entrevista dos chilenos que iam para o Dakar

No comboio, entrevista dos chilenos que iam para o Dakar

Até então éramos um grupo de desconhecidos, mas essa tarde tínhamos uma estrada e um conjunto de interesses em comum. Eu levava um galão de 15 litros de gasolina que ficou a disposição do grupo, mas fui eu que necessitei da ajuda deles mais a frente, quando a Bandit ficou instável e constatei um pneu furado. Consertei com um macarrão de borracha e uma cápsula de C2. Mas todas as pessoas que vinham foram parando, até o time de Equador que estava indo ao Dakar ofereceu o carro de apoio que tinham para filmar. Foi engraçado ter tanta assistência. Até nos filmaram consertando o pneu.

Já na rotina, ao décimo primeiro dia saímos de Calama cedinho para enfrentar o Passo de Jama. É bom fazer cedo, pois a partir das 16 horas começa a esfriar e a coisa complica. Lembremos que estamos a 4.000 m de altitude. Nós passamos de manhã. O frio ainda mostrava suas marcas ao lado da estrada… zero grau. E mais na frente, umas duas horas depois, o branco se estendia por todo o altiplano e a temperatura subia.

Daí começamos a descer para Jujui. A estrada sinuosa é um convite a alguma ousadia e, por estar mais “perto”, curimos melhor a estrada. Acho que a confiança depende não só do conhecimento, mas também das circunstâncias. Na Bolívia as estradas são boas, mas se perdes uma curva, irmão… quem te socorreria no deserto? Daí que multiplicávamos os cuidados. Por momentos dirigia que nem vovozinha em bike. Já descendo em Jujui, por eu ser argentino, confesso que tinha mais confiança e me diverti mais. Eram as últimas curvas da viagem. O espetáculo fica também por conta a paisagem, que mais parece arte, técnica pictórica. O clima… muito quente. Nesse dia passamos de zero a quarenta graus à tarde.

Ora é a neve e ora sal

Ora é a neve e ora sal

Nessa noite dormimos em Jujui. No dia seguinte chegamos ao hotel onde dormimos a primeira noite em Resistência, cidade cheia de esculturas. No último dia, cruzando por Porto Mauá, chegávamos em casa. Foram 7750 km em 13 dias. Por estradas de 5 países pudemos reconhecer diferentes modos de ser americanos. Reconhecer a identidade do sul é uma marca que levamos e estamos agradecidos a todos os que nos acompanharam. Sei que alguns pensam que é difícil. Não é. Nem é perigoso. Os limites são criados pelos nossos fantasmas.

Dicas finais

Se pretende fazer algo parecido, anote esta lista de coisinhas que considero imprescindível levar, além claro da seguinte documentação: Documentos da moto no seu nome, passaporte. carteira de motorista. carta verde, seguro saúde internacional.

Roupa: uma calça jeans, (não se usa mais que umas horas de noite); Jaqueta e Calças de moto, botas impermeáveis, luvas, capa de chuva; segunda pele, 5 camisetas, 5 meias, cuecas tipo box (o elástico das outras pode incomodar e dependendo do hotel onde ficar, pode lavar e secar meias e cuecas à noite); blusa de lã, luvas de lã para vestir por baixo das de moto nas temperaturas abaixo de zero.

Para a moto: lubrificante de corrente, filtro de óleo, pano para limpar, GPS, kit concerta pneus, alforges (o frontside meu já tem duas viagens longas e são firmes e não entram água). Se servir de ajuda, os pneus Michelin Pilot Road 3 são muito bons. Esse sistema de dois compostos que desgasta de modo diferente – mais duro no meio e mais mole nas laterais tem desempenho excelente. Já rodei 13.500 km e ainda tem borracha para queimar por mais alguma milhares de km.

Por fim, deixo uma mensagem: “Por existir não podemos deixar de viver, ou em outros termos… Pelo amor à vida não se pode perder as razões do viver”. Rocha