Notas de guidão

Notas de guidão

Às vezes é bom variar. Com tanta incompetência, tanta violência e roubalheira e enfim, esse bode geral, vale recordar algumas histórias que beiram o non sense e nos fazem rir. Todos nós passamos por momentos cabulosos. Esses são alguns momentos interessantes vividos pelo escrevinhador aqui.

Um tamanduá, por favor.

Faço free-lance com um mecânico amigo meu. Além de aprender muito, dou uma força em eventuais trabalhos, como uma ou outra restauração.

E dia desses apareceu uma Shadow com um raro problema, CDI pifado. A Shadow não costuma dar esse pepino, mas aquela resolveu encrencar. E o tal CDI não morreu de vez, ás vezes o motor ia bem, depois pipocava, voltava a funcionar, falhava, funcionava…Claro que testamos tudo antes de experimentar um outro CDI. Trocada a peça, a moto virou um relógio. Sorte do dono que comprou um usado de uma moto incendiada que estava em outra oficina, pois um novo é um desacato de tão caro. Mas isso não vem ao caso.

Como sou chegado em eletrônica e tanto eu quanto o meu amigo Márcio, o dono da oficina, somos curiosos, resolvemos vandalizar o velho CDI. Eu acreditava que algum regulador de voltagem estivesse queimado.

Bingo! Mas o motivo do curto foi surreal. Quando abrimos a caixinha saíram dezenas de formigas, inclusive algumas carregando uns troços brancos, acho que ovos. Sim, as formigas povoaram o CDI da Shadow e lá pelas tantas fecharam um curto. Cheguei a medir uma formiga no multímetro. De fato o inseto em questão é um bom condutor de eletricidade! Uma delas ou várias fecharam dois terminais de um regulador e foi feito o estrago. É irônico, mas uma formiga pode parar uma moto!

Por via das dúvidas, eu que detestava lavar moto agora comecei a passar até inseticida!

Fosco e enrugado Na mesma oficina conheci um sujeito que, ao longo da vida, foi descobrindo como manter sua moto em ordem. Uma de suas descobertas me surpreendeu.

Falávamos sobre fluído de freio quando ele me interrompeu:

-Eu lavei a moto com fluído de freio!

Fiquei atordoado! Como alguém fala uma coisa dessas com tanta naturalidade! Mas depois ele explicou:

-Passei um pouquinho para ver o que acontecia. Ficou brilhante, uma beleza! Então mandei ver um pano embebido no tanque inteiro. Depois o brilho foi sumindo, foi ficando fosco e depois enrugou todo. Descobri que ataca a pintura.

Se esse cara tivesse a decência de ler o Motonline, não faria uma experiência tão bizarra…

No meio da m… Ia feliz da vida pela Marginal do Tietê, sentido zona Lost, com minha Bat-CB, um cebezão com uma trolha na frente, uma carenagem medonha de feia. Peguei no lixo de uma oficina. Era preta e parecia um morcego, combinava direitinho com a moto que era vermelha.

Mas aquela trozoba me salvou de coisa pior. Naquela época o rio estava sendo dragado por umas máquinas monstruosas, que por incrível que pareça chamam por aí de dragas. Eu ia observando a labuta das dragas, pegando o lodo do fundo do rio, girando 90 graus e depositando na margem. Numa dessas viradas, a draga estancou e parte do transcendental conteúdo espirrou, justo quando o infeliz aqui passava. Foi um espetáculo! Sem piscar ou abrir a boca, fui rumando para um posto de gasolina. O frentista logo entendeu o problema, afinal atingi dois dos seus sentidos, a visão (medonha) e o olfato (impublicável).

-Sai daí e não se mexe, mano! Vou meter água!

Obedeci e lá veio o cara com aquela máquina de pressão que todo mundo conhece, mas como eles não anunciam aqui no motonline não vou citar a marca. Foi uma cena dantesca, tomar banho no posto, de roupa e capacete.

Quando olhei para a moto, descobri que boa parte da derramada tinha ficado na carenagem. Santa carenagem!

Imagine se fosse um coxinha, com aqueles macacões de couro de lagartixa que custam alguns milhares de dólares, montado numa reluzente speed zerada? Infarto na certa! Choro e ranger de dentes!

Me disseram depois, olhando pro velho cebezão: A natureza é sábia. A m…só podia cair em cima de outra m… Comentário infeliz, pois não. E mentiroso.

Pois quando eu dei um trato na combalida CB e tirei a carenagem, não durou nem uma semana. Levaram na mão grande!!! Por acaso alguém aí quer comprar a linda carenagem para instalar numa Hornet? Melhor que alarme e ainda defende o condutor de conteúdos indesejáveis!

No meio da m… Reloaded

Essa foi da pesada. Estava indo para Sampa e quando passava por uma avenida, ainda em Jundiaí, minha cidade, vi ao longe viaturas, fiscais, policiais e aquele circo todo. Logo imaginei que era uma blitz. Fui chegando perto e vi que o asfalto estava mais preto do que de costume. Imaginei que estavam asfaltando a esburacada Av. 14 de Dezembro. Fui chegando mais perto e vi um fiscal (aqui chamamos de amarelinho) fazendo sinal com as mãos espalmadas para baixo, pedindo para reduzir a velocidade e apontando para os próprios olhos, pedindo para eu ficar atento. Quando vi já era tarde! Uma camada espessa, com uns 10cm de altura de pura matéria prima parlamentar, a quintessência, aquele lodo que as empresas especializadas tiram do fundo das fossas. Uma carreta cheia daquilo balançou demais, abriu a tampa e vazou tudo!

E as geniais autoridades de trânsito acharam muito genial mesmo não desviar o trânsito, permitindo um outro genial espetáculo, veículos passando naquela gosma e levando cada vez mais adiante o perigoso resíduo. E lá fui eu, quando vi já era tarde. Levantei os pés na altura das orelhas e passei ali, com o pneu traseiro careca, balançando mais que gelatina na mão de bebum.

O cheiro ficou insuportável, mas a pressa era maior. Não lavei. Na volta, já de noite, fui parado por um comando daqueles, logo após o primeiro pedágio da Bandeirantes. O guarda (eles odeiam que chamem de guarda) rodeou e queria embaçar com as minhas soluções Pardal, minhas soluções iluminativas com leds. (já escrevi sobre isso aqui). Contornei.

Não contente, o tal guarda resolveu examinar os pneus. Eu ia dançar, afinal o danado estava liso, bem como minha conta bancária, causa e efeito, sabem como é…

Mas quando a autoridade, digo, o guarda, se abaixou para ver o pneu traseiro, deu um pulo e um grito. Acompanhei pelo rabo do olho e sem rir, perguntei:

-Algum problema seu guarda?

A resposta foi de um refinamento britânico. O dito cujo enfiou a cara no lugar mais fedorento que havia num raio de 20 quilômetros, que era justamente a traseira da moto!

-Some com essa m…daqui!

Obedeci prontamente! Uns são salvos pelo gongo, outros…

Perfex Finesse Glamour

Uma vez um cara me convenceu a visitar um bar chique lá num bairro (também chique) de São Paulo, uma tal de Vila Olímpia. Fui lá acompanhar o cabra. Ele de Vespa, toda esbugalhada e eu de CB400 82, toda esbugalhada e com um detalhe pra lá de fashion. Os retentores da bengala estavam estropiados e para não vazar e manchar minha calça, que precisava durar uma semana, amarrei um PERFEX em cada bengala, ali onde emenda com as canetas (ou um troço desses). E como eu era produtor de conteúdo de um site de e-commerce, no setor de brinquedos, vivia ganhando badulaques dos clientes. Ganhei inclusive várias buzinas para bicicletas, não aquelas em forma de corneta, mas aquelas com o traseiro de borracha, para bicicletas infantis. Instalei todas no mata cachorro da CB, para acionar com os pés. Ficava um estouro de feiúra, mas como eu deixava a moto estacionada na rua, espantava a malacada, que teria vergonha de andar com uma moto cheia de buzininhas roxas.

Pois bem, entramos no boteco, sentamos à mesa e pedimos uns negócios pra tomar. Não notamos que na janela ao nosso lado, na calçada, estavam estacionados dois canhões, zerinhos, daquelas que as marias-gasolinas têm vertigens quando ouvem o ronco.

Lá pelas tantas se achegam duas boazudas e vão animadamente puxando conversa. Um problema de gestalt creio eu. Figura e fundo. Bar chique, dois caras, dois capacetes, duas motos caríssimas no lado de fora…os camaradas feios de doer, mas isso é de menos…

Eu já tinha sacado o vacilo das figurinhas, mas mesmo assim dei corda. Chopp 30 reais, couvert 50 reais, batata frita 20 reais…esculhambar umas patricinhas…não tem preço!

Quando o assunto emplacou nas motos, elas perguntaram e eu respondi:

-Não, a minha não é essa Kawasaki aqui, é aquela prata ali…não dá pra ver, tem um carro na frente. Elas pediram licença para ir ao banheiro e eu fui filmando. Saíram do bar, contornaram o carro e foram espiar que moto era a minha. Deu para ver a cara delas quando apontavam horrorizadas o par de perfex, um rosa e um azul pra combinar, além das simpáticas buzinas! Estado de choque total! Perderam preciosos quinze minutos de suas vidas conversando com dois “Zé Arruela”.

Depois de alguns minutos, o meu camarada começou a pentelhar:

-Pô cara, elas estão demorando…Será que elas desencanaram da gente?