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Nova olinda, CE: a intrigante e curiosa terra dos Kariris

Nova Olinda, CE – Loja de Espedito Seleiro

Nova Olinda, CE – Loja de Espedito Seleiro

Tapera, CE. Cinco gerações antes. Caminhando a passos lentos depois de refrescar-se nas águas frias de um riacho, chega na cidade um frade capuchino . De hábito marrom-escuro, sandálias em couro surrado, entra lentamente na cidade. Busca uma casa para pouso.  Logo adiante vê uma casa grande e imagina ser a frequentada por pessoas abastadas que não negariam um pouso ao frade. Bate na porta… Alguém atende e ao vê-lo maltrapilho puxando um jumento, a pessoa lhe nega o pouso.

De Tapera a Nova Olinda cinco gerações depois

De Tapera a Nova Olinda cinco gerações depois

O frade retira-se. Está irado, pois seria aquela a única vez nos quase mil quilômetros a pé que já havia andando onde seu pedido de pouso fora negado. Na sua mente a revolta pelo desdém e falta de misericórdia com um homem de Deus, um servo de Senhor. Imaginava ele que se um servo do Senhor havia sido tratado daquela forma, imagina que fariam o mesmo com o próprio Cristo.

Dormira embaixo de um tamburil. Mesmo assim, ninguém da cidade o acolheu e alimentou. Haveria de caber uma punição. Pela manhã os moradores pediram que rezasse uma missa. Não lhes negou o alimento da fé. Pediram ainda que rebatizassem a cidade com novo nome, pois tapera era algo de pouca imponência.

O pedido foi atendido. A missa estava rezada e os fiéis abençoados, mas na hora de fechar a bênção, no momento de rebatizar a cidade sentiu um forte impulso de punir a todos pelo descaso com um servo de Deus e retirou suas sandálias de couro surradas, bateu uma na outra e profetizou que “Tapera será Nova Olinda para que se lembrassem da sua origem” – Olinda, Pernambuco – e disse que continuaria “Tapera por cinco gerações”.

A maldição pegou e somente após cinco gerações, Tapera deu lugar a NOVA OLINDA. E assim aconteceu. Cinco gerações mais tarde, em 14 de Abril de 1957, Nova Olinda foi emancipada como município cearense, deixando definitivamente de ser uma tapera. Nascia a lenda da maldição do frade capuchino.

Toda cidade tem suas atrações. Em Nova Olinda, distante 170 km de Iguatu, no Ceará, todas as atrações convergem para um processo contínuo de renovação onde se prova que uma cidade que cuida da sua história pode estar garantindo seu futuro.

A nossa segunda incursão pela região da Chapada do Araripe foi à busca da história de ‘Espedito Seleiro’ e de conhecer a Fundação Casa Grande exemplo de educação infantil mundialmente reconhecida.

Chegamos à Nova Olinda ainda cedo. De cara já percebemos como a cidade dá valor a sua cultura e tradição. Basta olhar as placas de sinalização turística e ver o nome de ‘Espedito Seleiro’. Não precisa nem perguntar, pois elas entregam você na porta dele.

Espedito (com ‘s’ mesmo) é um homem simples e dotado de grande talento para a arte em couro. Na região do povo Kariri, o ciclo do couro passou às margens do caminho das águas do rio da família dos Kariu-Kariri, soerguendo na Aldeia de Água Saída do Mato que virou Tapera e depois Nova Olinda. Chegamos num domingo e Espedito está a trabalhar como faz todos os dias, há muitos anos. Aos 72 anos de idade Espedito ainda nos surpreende pela conversa fácil e pela forma como explica a sua arte. O atelier fica do outro lado da rua. É La que ele se esconde para criar peças únicas.

Espedito Seleiro – Mais de 60 anos dedicados a arte em couro. No alto à esquerda JAN vestindo o gibão e transformando-se no VAQUEIRO MESSIAS!

Espedito Seleiro – Mais de 60 anos dedicados a arte em couro. No alto à esquerda JAN vestindo o gibão e transformando-se no VAQUEIRO MESSIAS!

A arte de domar o couro ele herdou de seu pai aos oito anos de idade e pelo jeito, aprender cedo é uma das tradições da cidade. Ainda criança Espedito ficou sabendo que seu pai que já vestia em couro o músico sanfoneiro e o vaqueiro, as senhoras elegantes e o senhor de fazenda e ainda o mais temido de todos os cangaceiros – ninguém menos que Lampião que usava sandálias feitas por seu pai. Lampião sempre exigia que elas fossem perfeitamente retangulares e sem salto ou qualquer sinal que marcasse o local do calcanhar. Essa era a sua estratégia para confundir a direção das suas pegadas e ganhar tempo fugindo das volantes.

Espedito continuou a tradição e pela saúde esbanjada ainda vai nos presentear com anos de arte de grande qualidade, exportada para os quatro cantos do mundo e com seu ótimo humor.

Casa Grande – Fundação Museu do Homem Kariri e Fundação Casa Grande

Casa Grande – Fundação Museu do Homem Kariri e Fundação Casa Grande

A Casa Grande: de mal-assombrada a Memorial do Homem Kariri

Com apenas 15 mil habitantes Nova Olinda é famosa também por um projeto inovador a Fundação Casa Grande.

Na década de 70, a Casa Grande foi abandonada e ficou em ruínas. Por conta da lenda da maldição do frei lendas de botijas enterradas, da alma do frade que vagava nas horas mortas da noite, arrastando suas sandálias com um candeeiro na mão se espalharam pela cidade e a transformaram em uma casa mal assombrada.

Em 1983 Alemberg Quindins, neto de Neco Trajano e sua esposa Rosiane Limaverde, iniciaram uma pesquisa de campo coletando lendas regionais que resgatassem a pré-história do homem kariri. E assim descobriram todo um acervo arqueológico e histórico de valor inestimável exposto no Memorial.

Os índios kariri sempre foram conhecidos por ser uma civilização avançada. Confeccionavam suas ferramentas, dominavam o fogo, possuíam uma vasta cultura e tinham um processo estruturado de registro e transferência de conhecimento utilizando pedras, barro e cerâmica.

 

Adenilson, 13 anos, (camisa azul) e Glauber (camisa amarela) de 10 anos. Jovens radialistas no comando de uma FM na Casa Grande

Adenilson, 13 anos, (camisa azul) e Glauber (camisa amarela) de 10 anos. Jovens radialistas no comando de uma FM na Casa Grande

Em 1992 a velha Casa Grande da Fazenda Tapera, aquela que se negou a dar pouso ao frade, que era mal-assombrada, foi totalmente restaurada e tombada passando a funcionar como o Memorial do Homem Kariri. É nela que funciona também a Fundação Casa Grande.

Hoje a Fundação Casa Grande é uma referência internacional no trato da preservação cultural, da educação para as artes e na defesa dos direitos da criança e do adolescente. Lá existe um museu com várias peças importantes e que conta a história, lendas e a cultura dos índios kariri.

Foi lá que encontramos Adenilson Cardoso, de 13 anos de idade, e Glauber Filho, de apenas 10 anos, conduzindo a programação da Casa Grande FM. Todos os operadores de rádio e os locutores são crianças ou adolescentes e muitos saíram de lá para trabalhar profissionalmente em outras rádios. Um deles é fotógrafo profissional no Rio de Janeiro.

Acervo do Museu do Homem Kariri mostra uma civilização que dominava o fogo e construia suas próprias ferramentas

Acervo do Museu do Homem Kariri mostra uma civilização que dominava o fogo e construia suas próprias ferramentas

Há ainda um teatro e em volta dele podemos ver painéis fotográficos de celebridades que visitaram o projeto, apresentaram-se ou deram palestras para os jovens talentos no teatro batizado de Engenho de Artes Cênicas, de arquitetura rústica, tecnologicamente muito bem equipada e que homenageia Violeta Arrais uma das mais importantes figuras na construção dos conceitos que regem a Fundação Casa Grande.

Vimos fotos de Regina Casé, Luciano Hulk, Falcão, Lobão, Maurício de Sousa entre tantos outros interagindo com crianças e adolescentes. Lá encontramos aos domingos jovens e crianças utilizando internet, estudando, aprendendo e divertindo-se no parquinho. A programação é intensa e as crianças só faltam por motivo de doença.

Em frente a Casa Grande e ao lado vestido com gibão de couro trabalhado pelas mãos de Espedito Seleiro

Em frente a Casa Grande e ao lado vestido com gibão de couro trabalhado pelas mãos de Espedito Seleiro

Quando acreditamos que havíamos encerrado a região que compreende Nova Olinda e Santana do Cariri nos deparamos com as suas lendas e belezas naturais onde existe uma ponte de pedra, castelos encantados, princesas que viram cobras, furnas, pinturas rupestres, máscaras para rituais religiosos e impressões de mãos e desenhos feitos em paredes de cavernas e grutas. Mas isso é assunto para a nossa próxima viagem. Será preciso deixar as motos na cidade e entrar mata a dentro e isso vai exigir um fim de semana inteiro de trabalho.

Onde se hospedar – Existem pousadas que são dos pais de algumas crianças que trabalham no projeto. A pousada da mãe do pequeno radialista Adenilson Cardoso oferece diária com almoço, jantar e lanche por 50 reais a diária individual. Mas há outras e é fácil saber onde – basta perguntar às crianças do Projeto Casa Grande – elas sabem tudo sobre a cidade e a região.

Como chegar – A partir do Crato uns 50 km. De Iguatu são 170 km passando por Antonina do Norte, Assaré – Terra de Patativa do Assaré e em seguida Nova Olinda.

Onde comer – Há um restaurante na Fundação Casa Grande, mas existem outros nos arredores da cidade. A cozinha da Fundação é aberta, limpa e você da sua mesa vê a comida sendo feita.

APOIO CULTURAL – Make Safe – alarmes presenciais, Icamotos, Motonline, Revista Motoboy e Posto Icavel.

Esta é a 7a. da série de 24 matérias redescobrindo o Centro-Sul do Ceará.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.