Foto: No come‡o: um pirralho numa cinquentinha

Novos ares

Foto: No come‡o: um pirralho numa cinquentinha

Foto: No come‡o: um pirralho numa cinquentinha

Amigos leitores de Motonline tenho de comunicar uma grande mudan‡a na minha vida profissional e que afeta diretamente a nossa comunica‡Æo: depois de 27 anos como jornalista especializado em motos chegou a hora de mudar de ramo. Pois ‚, nem eu mesmo poderia imaginar uma mudan‡a tÆo radical a esta altura da vida, v‚spera de completar 49 anos de idade. Quando aceitei mudar de  rea passou o filme da minha vida pela frente que come‡ou em uma manhÆ de natal, em 1972, quando meu pai apareceu em casa com uma novidade: uma Suzuki A 50, cor de laranja, linda, grande e pesada para um menino de 13 anos. A primeira coisa que me chamou a aten‡Æo foi o pisca-pisca, que acendia luzinhas coloridas no painel. O interessante dessa hist¢ria ‚ que nunca pedi uma moto pro meu pai, foi ele que tomou a iniciativa, para total desespero do resto da fam¡lia. Lembro perfeitamente da primeira volta. Mal alcan‡ava os p‚s no chÆo e quando parava eu tinha de me equilibrar perto da cal‡ada.

Nem de longe, em seus mais doidos devaneios, meu pai poderia imaginar que um gesto tÆo inocente fosse determinar a vida do filho. De ve¡culo de curti‡Æo, a moto entrou na minha vida para ser tudo. Tudo que consegui, constru¡, criei e direcionei profissional e pessoalmente girou em torno das motocicletas. Foi algo natural, quase gen‚tico, porque meu av“ paterno, minhas tias e tios e at‚ minha mÆe tiveram contato com motos por toda vida, pois l  atr s nos anos 40 as motos j  eram objeto de paixÆo do lado materno da minha fam¡lia. E fui a conseqˆncia natural desse envolvimento.

Foto: Novo desafio: editar a Maxim no Brasil

Foto: Novo desafio: editar a Maxim no Brasil

Fiz tudo que se possa imaginar no universo das motos, menos com‚rcio! Viajei praticamente todo Brasil e mais de 30 pa¡ses gra‡as …s motocicletas. Criei minhas filhas com o resultado da minha paixÆo e estudo das motos. Vivi de e para as motos por mais de 3 d‚cadas. Escrevi um livro, criei o curso de pilotagem, formei motociclistas melhores e mais seguros, editei as principais revistas de moto, criei novos jornalistas especializados, fiz um filme para explicar ao mundo essa paixÆo pela motocicleta, competi em v rias modalidades, ajudei a organizar o mundial de motovelocidade no Brasil, testei algumas centenas de motos, desenvolvi novos produtos para o mercado, tornei a vida de milhares de pessoas mais divertida, fiz uma quantidade inimagin vel de amigos – e poucos inimigos – impulsionei a carreira de v rios pilotos – que s¢ lembram de mim quando os critico – ajudei a amadurecer o mercado, contribu¡ para que muita gente enriquecesse e dei – literalmente – o sangue pelas motos.

Quando vim editar o Motonline a convite do meu amigo Ryo Harada pensei ingenuamente que o mercado retribuiria toda essa dedica‡Æo da mesma forma. Depois de quatro anos esperando percebo que aquele curr¡culo do par grafo anterior tem o mesmo peso para o mercado que um an£ncio de ¬ de p gina em alguma revista. Quando finalmente chegou a hora de buscar nesse mercado que ajudei a construir o devido retorno dei de cara com a dura realidade de ser um ilustre z‚-ningu‚m. Tive de recorrer a um empr‚stimo para editar meu livro de cr“nicas “O Mundo  Uma Roda” porque nÆo encontrei uma empresa interessada em patrocin -lo. Produzi o filme “Alma Selvagem”, junto com o incans vel Renzo Querzoli, na ra‡a, com apoio de alguns amigos/empres rios e com um pouco do nosso dinheiro.

Foi entÆo que caiu a ficha – e olha que demorou – que o mercado est  pouco interessado em quem faz ou deixa de fazer pelo motociclismo. A £nica coisa que interessa a essas empresas ‚ saber o que vende e o que nÆo vende. NÆo nasci para ser comerciante. Estudei e formei meu car ter para ser produtor de conte£do. O meu maior “case” profissional foi o Motonline, onde recebi a sociedade junto com Harada e Durval para editar com total liberdade. Naquela ‚poca lembro que tinha uma m‚dia di ria de 1.800 visitas e entrego-o de volta com uma audiˆncia m‚dia de 15.000 visitas/dia. Esse ‚ meu melhor e mais querido port-f¢lio. A interatividade que consegui nesses quatro anos de Motonline me deu mais satisfa‡Æo e reconhecimento profissional do que os outros 22 anos atuando em revistas. A experiˆncia da m¡dia eletr“nica na Internet mudou completamente minha visÆo de jornalismo. Infelizmente existe uma miopia geral no mercado que ainda supervaloriza a m¡dia impressa. Deixo a sociedade com meus colegas com a sensa‡Æo de ter feito uma bela li‡Æo de casa e sem nenhuma m goa pessoal, pelo contr rio, nossos la‡os de amizade sempre continuarÆo.

O Motonline tem conte£do igual ou melhor do que o de qualquer revista. Traz os mesmos testes sem o “rabo-preso” a um departamento de publicidade cravando uma espada na cabe‡a do editor. Mesmo assim vejo empresas cujos donos se dizem grandes amigos meus enfiando verbas milion rias na m¡dia impressa enquanto n¢s temos de passar o chap‚u e quase implorar para receber uma inser‡Æo publicit ria.

Oras, se o mercado de motos, que cresce exponencialmente em vendas, nÆo quer – ou nÆo tem interesse – em valorizar meu trabalho, naturalmente eu tamb‚m nÆo quero mais brincar com essas regras.

Foi por isso que aceitei a proposta de mudar de ares: lan‡ar uma nova revista no mercado. Totalmente in‚dita e que nada tem a ver com motocicletas. Trata-se da revista Maxim, l¡der mundial no segmento de revistas masculinas, presente em 26 pa¡ses e que tem uma venda mensal de 6,5 milhäes de exemplares. Lan‡ar uma revista nova no mercado ‚ um enorme desafio. Exige um estudo de viabilidade profundo. Fiz uma imersÆo nesse universo com uma temporada na sede da editora em Nova York para absorver a nova linguagem e trazer ao Brasil um padrÆo de qualidade tÆo bom – se poss¡vel, melhor – do que o apresentado no exterior. Recebi uma tarefa de extrema responsabilidade, mas que foi o maior reconhecimento pela qualidade do meu trabalho como jornalista. Na verdade, ultimamente eu at‚ tinha esquecido que era jornalista!

Gra‡as a esse desafio ficou muito dif¡cil administrar meu tempo de forma a atender as solicita‡äes do Motonline. Minha caixa postal tem algo perto de 700 mensagens de leitores esperando por uma resposta. Desde as mais prosaicas como “qual ¢leo usar em minha moto”, at‚ as mais complexas como “que moto eu compro?”. Se os fabricantes tivessem a pequena no‡Æo de quanto eu influenciei a compra de suas motos certamente eles j  tinham me “comprado” (no bom sentido) h  d‚cadas.

Sei que vou sentir muita falta de nossas conversas di rias. J  tinha se tornado rotina abrir meu PC todas as manhÆs e come‡ar o dia me divertindo com as respostas aos leitores. Fiquei quase viciado, para desespero da dona Tita que tinha de me dividir com 60 pessoas por dia! Espero submetˆ-los …s minha cr“nicas eventualmente (‚ uma amea‡a, nÆo uma promessa!).

Terei de deixar todos os amigos sem as respostas que tanto se acostumaram a receber. Mas certamente o Motonline continuar , assim como continuaram todas as revistas por onde passei. Ningu‚m ‚ insubstitu¡vel. Ali s, ningu‚m nem nada ‚ insubstitu¡vel, nem o Geraldo Simäes e nem o mercado de motos!