Esta moto tem custo baixíssimo para quem importa, monta e vende; medida do governo afeta pouco ou nada

O aumento do IPI não é solução para nada

Esta moto tem custo baixíssimo para quem importa, monta e vende; medida do governo afeta pouco ou nada

Esta moto tem custo baixíssimo para quem importa, monta e vende; medida do governo afeta pouco ou nada

Se o aumento do IPI queria dar folego para a indústria de motos nacional instalada em Manaus (AM), o resultado é nulo. Se esse mesmo aumento queria prejudicar os fabricantes que estão fora de Manaus, a resposta é igual: resultado nulo. As razões para isso são muitas. A primeira delas esta relacionada a margem de lucro dessas motos “estrangeiras” – que é muito superior a obtida pelas motos fabricadas no Brasil e que por vezes, dependendo do modelo pode chegar facilmente aos 50%. A outra refere-se ao custo Brasil.

O custo para produzir aqui mata qualquer competitividade. Basta analisar a carga tributária, o custo de logística, o custo de mão-de-obra (não tanto pelos salários, mas pela carga tributária em cima destes), estocagem e custo com a revenda. Tudo isso impacta no custo final reduzindo a margem. Você pode ter a melhor marca de moto do mundo, a preços realmente atrativos e competitivos que entregam margens excelentes, mas se for fabricar no Brasil, somando tudo que impacta na moto vai ter problemas.

Especialistas afirmam que a indústria brasileira da porta da rua pra dentro é competitiva e em constante modernização, mas da porta da rua para fora ela deixa de ser competitiva facilmente. Uma comparação feita por Paulo Skaf, Presidente da FIESP, foi a de um corredor com condições de vencer competindo em uma pista cheia de obstáculos, enquanto os demais concorrentes têm pista livre e sem obstáculos. Mesmo saindo na frente, os percalços do trajeto acabam colocando o Brasil bem atrás na corrida.

O último aumento de IPI pode reforçar o caixa do governo e ajudar a suprir uma parte do que foi cortado por conta das medidas adotadas para ajudar as montadoras nacionais, porém não vai reduzir as vendas e talvez nem impacte no preço, pois existe muita gordura na margem da 50cc.

As cinquentinhas, apesar de não termos dados confiáveis, são uma categoria de moto que vende bastante e não apenas pela economia de combustível ou pelo preço tentador. Esta moto representa aquela parte da obrigação do Estado que não foi feita e este ‘buraco’ acaba sendo preenchido por uma solução de mercado. Existe uma máxima do marketing que diz que ‘se tem quem queira comprar, sempre haverá alguém tentando fazer, construir ou fabricar para vender’. As cinquentinhas representam uma realidade descrita nesta máxima.

O maior atrativo da 50cc é não ter que pagar mais imposto – tipo DPVAT, Taxa de Licenciamento e CNH (pelo menos onde isto não é exigido). O brasileiro não gosta de pagar impostos por que sabe que eles não vão para onde deveriam ir. Como se não bastasse trabalharmos quatro meses para o Governo só para pagamento de impostos, o brasileiro ainda tem os juros escorchantes dos financiamentos e de cartões de crédito. Com a redução dos juros pode melhorar, mas não resolve o problema das motos.

Ocorre que a maioria das 50cc é adquirida mediante financiamento via CDC – Crédito Direto Consumidor. É o mesmo processo de compra de uma geladeira, por exemplo. Por isso, não mudará muita coisa ou não mudará nada. O que faria reaquecer o mercado seria a retirada de PIS e COFINS das motos nacionais, facilitação de crédito, pois aqui não depende apenas das financeiras, mas das concessionárias na análise correta e da informação de dados concretos e não fabricados como foi no passado.

As motos estão entre os bens que mais pagam impostos no Brasil. Confira a lista:

1º LUGAR: CACHAÇA – 81,87%
2º LUGAR: CASACO DE PELE – 81,86%
3º LUGAR: VODCA – 81,52%
4º LUGAR: CIGARRO – 80,42%
5º LUGAR: PERFUME IMPORTADO – 78,43%
6º LUGAR: CAIPIRINHA – 76,66%
7º LUGAR: VIDEOGAME – 72,18%
8º LUGAR: REVÓLVER – 71,58%
9º LUGAR: PERFUME NACIONAL – 69,13%
10º LUGAR: MOTOS (ACIMA DE 250CC) – 64,65%

Outro grande problema, a inadimplência, pode ser resolvido através de uma linha de crédito que refinanciasse a dívida a juros menores com prazos maiores. Essa ação ajudaria a muitos clientes inadimplentes que desejam ficar com suas motos a voltar a pagar em dia.

Outra medida radical poderia ser o combate aos ‘pokemons’ – que são aqueles veículos com busca e apreensão, em nome de laranjas, que rodam pelo Brasil e que são comprados a preços baratíssimos. A solução para evitar ou pelo menos reduzir, seria equiparar as responsabilidades com a alienação fiduciária às mesmas regras de um fiel depositário. Ou seja, quem está pagando um financiamento de uma moto é responsável por essa moto que é da financeira. Se descuidar dos pagamentos o cidadão passa a ser procurado pela justiça. Radical? –Sim, mas necessária para a maioria dos brasileiros que adoram a Lei de Gerson e ajudaria bastante na redução dos índices de inadimplência, pois seria melhor devolver o veículo do que ser preso e perder a primária.

Hoje nada acontece. Quando um veículo com busca e apreensão é pego numa blitz ele é apreendido e o motorista vai pra casa tranquilo. Exatamente por isso que o ‘Pokemon’ continua a ter força – não há fiscalização e nem punição. É muito fácil você ver pessoas rodando em carros de alto padrão que custariam noventa ou cem mil, os quais foram comprados por apenas 20 mil reais. Como não existem oficiais de justiça suficientes para resgatar estes bens, a impunidade e o prejuízo rolam à solta. Um carro é difícil de achar, agora imagine uma moto rodando em cidades de interior ou apenas no campo? As chances de resgate seriam ínfimas, como são hoje.

O aumento do IPI então, se tinha o objetivo de incomodar, nem coçar vai. Agora, se o Governo Federal não ajudar o Setor de Duas Rodas aí sim, o que estava ruim pode ficar ainda pior.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.