O caminho é educação e não proibição

O caminho é educação e não proibição

Toda hora que a imprensa busca informar sobre os problemas do trânsito brasileiro e suas conseqüências devastadoras com a dor das famílias, o rombo nos cofres públicos, os leitos hospitalares repletos de acidentados, eis, que surge um especialista em trânsito.

Mas, me vem várias questões a cabeça: como esses, “ditos”, especialistas podem apontar a motocicleta como problema no trânsito, anuindo veemente a proibição do trânsito em corredores, se jamais pilotaram uma motocicleta?

Senhoras e Senhores, com todo respeito, essa pretensa proibição das motocicletas trafegarem nos corredores não é pedagógica, não visa educar, mas visa aumentar a arrecadação das multas de trânsito, portanto, não fica difícil concluir que é mais uma política demagógica.

Estranhamente, falam-se muito em proibir as motocicletas de trafegar nos corredores, mas não falam dos carros, caminhões e ônibus que mudam de faixa sem sinalizar; que mudam de faixa, exatamente, na faixa branca contínua nas proximidades de um farol ou sinaleiro. Tudo que ocorre de perverso no mundo do trânsito brasileiro e, especialmente, no paulista é culpa das motos.

Hoje os motoristas dos veículos de quatro ou mais rodas se comportam como aquele que fura uma fila na bilheteria de um cinema. Os motoristas precisam ser lembrados que não estão só cometendo infração as leis de trânsito, mas estão faltando com educação, agindo feito sociopatas. Sua pressa em chegar ao destino é mais valioso do que a vida humana.

É interessante que não vemos os mesmo políticos, deputados e especialistas defendendo a isenção nos equipamentos de segurança ou aumentando verba para a educação no trânsito.

É interessante saber que o trânsito não é prioridade de Governo algum, nem Federal, Estadual ou Municipal.

O DENATRAN está subordinado ao Ministério das Cidades, portanto, não pode fazer absolutamente nada, salvo com a anuência do político que ocupa o cargo de Ministro.

A CET/SP é uma empresa de economia mista, cuja Prefeitura Municipal de São Paulo detém a maioria das ações de seu capital de pouco mais de R$ 34 milhões de reais, o que privilegia ao Prefeito colocar quem bem entender no cargo de mandatário da entidade, não necessariamente um especialista em trânsito.

Portanto, entidades como DENATRAN e CET/SP que deveriam ter total autonomia para, realmente, impor uma, verdadeira, política nacional de trânsito para por fim a matança de 35 mil brasileiros por ano, nada podem fazer, salvo atrelado a vontade política; e aí, já sabemos para onde vai o desejo dos nossos políticos.

A CET/SP oferece gratuitamente um curso denominado “Pilotagem Segura”.

O curso tem como foco melhorar o comportamento e os procedimentos do motociclista que resultem numa real e maior segurança para o próprio, seu passageiro ou garupa e para os demais usuários da via, entenda-se: pedestres e motoristas.

Fiz o curso oferecido pela CET/SP em dezembro de 2009 e fiquei surpreso, primeiro em fazer a inscrição usando a Internet, via e-mail, sem qualquer burocracia estatal e depois pelo conteúdo, com apostila “Pilotagem Segura – Manual do Motociclista Responsável” desenvolvida pela própria CET, e esforço pessoal dos instrutores.

O curso é divido em 2 (dois) dias, sendo o primeiro dedicado a teoria, com uma prova de 90 questões ao final da aula. É ministrado por 2 instrutores: teórico que, inclusive, fará a avaliação durante os exercícios práticos e o instrutor prático, aquele que mostrará os exercícios a serem desenvolvidos com a motocicleta.

A aula começa com o instrutor solicitando a cada participante se apresentar, informando profissão, experiência com motocicleta e se já sofreu acidente.

É muito interessante ouvir as histórias trágicas ou não dos participantes: um bateu na traseira de uma carreta, alcoolizado, sem capacete, ficou meses na UTI e buscava, a bem da verdade, a confiança da família para voltar a pilotar uma motocicleta, vou chamá-lo de aluno A; outro colega de sala, um motoboy, era o verdadeiro gato com sete vidas, literalmente, foi o que mais histórias ou estórias narrou e foi nele que foquei algumas indagações que me veio a mente, vou tratá-lo como aluno B; por fim dentre tantos outros, o que me chamou atenção foi um rapaz habilitado há exatos 30 dias, este vou tratá-lo como aluno C.

O curso teórico transcorreu perfeitamente, com muita informação, abordando desde um breve histórico da motocicleta, passando por utilização adequada dos freios, pilotagem em rodovias, motociclista meio ambiente e cidadania, imagem do motociclista, condições adversas (pilotagem com chuva, neblina), imagem do motociclista no trânsito, vários assuntos buscando não só instruir, mas fazer o cidadão refletir.

Quando se falou em pilotagem segura, foi passado um filme de no máximo 30 minutos, pois é muita informação a ser passada, num curto espaço de tempo. E nesse filme foi mostrado o que chamo de “choque emocional ao motociclista”: trata-se de uma série de depoimentos de ex-motociclistas, agora seqüelados por acidentes de trânsito.

Aqui a CET busca, pedagogicamente, alertar o motociclista, o cidadão já formado, que já passou pelas falhas do sistema educacional brasileiro e que não tem como criar consciência pela educação tradicional, mas pela educação de choque, se é que se pode assim denominar.

No segundo dia, são exercícios práticos com motocicletas fornecidas pela própria CET, todas de 125cc da Honda e Yamaha.

Fiquei feliz em saber que a Honda dá um grande apoio logístico a CET, tanto colaborando com a formação dos Instrutores, nos seus cursos ministrados em Indaiatuba, interior de São Paulo, como na manutenção das motocicletas da marca e a Yamaha com a manutenção das motocicletas do seu brasão.

Ao final do dia, voltamos para sala de aula, onde há um “feed back” do instrutor teórico com os alunos, apontando possíveis falhas e aqui voltamos aos alunos A, B e C: – ao aluno A foi dito que estava aprovado; comento que este aluno se mostrou não só apto tecnicamente, sem chamar atenção, foi excepcional nos exercícios, mas emocionalmente. Se pudesse, falaria para a família dele lhe dar um voto de confiança; – ao aluno B que foi aprovado com ressalvas: Apesar da grande habilidade, tinha que ficar mais calmo na pilotagem, não se preocupar em aparecer para os outros. Bom, este sujeito durante a aula prática inventou em fazer slalon de pé na motocicleta, dentre outras invenções a mais. Numa conversa com ele, lhe perguntei por que corria já que não tinha prazo para entregas, diante de um contrato de trabalho com CLT, seguro de vida, seguro saúde, etc…, a resposta de bate pronto foi: “ai maluco é muito loco andar a 120Km/h num corredor.” Aqui se desfaz o mito de que se corre só para cumprir prazos. Corre-se porque o cidadão não tem só educação, falta-lhe equilíbrio emocional e psicológico para pilotar uma motocicleta e dividir o espaço social denominada vias de trânsito. Perguntado se o curso mudou algo em sua vida, ouvi a afirmação de que iria maneirar; sinceramente, não acreditei e seria caso de uma avaliação psicológica – ao aluno C foi aprovado com ressalvas. Pasmem!! E assino embaixo a orientação do instrutor: evitar pegar trânsito, especialmente corredores, até que melhore a aptidão no manuseio da motocicleta. Este aluno, caros leitores, é a prova cabal da falência do sistema de habilitação desta nação chamada Brasil. Do primeiro exercício ao último, a evolução deste aluno foi incrível, mas longe de possuir uma Carteira Nacional de Habilitação que lhe confira o direito de sair em vias públicas numa motocicleta. E o pior: a CET não tem autonomia para vetar a utilização de motocicleta por este cidadão, ou seja, é o próprio Estado matando;

Onde quero chegar com tudo isso?

Enquanto o DENATRAN não tiver autonomia política, financeira, administrativa, o trânsito brasileiro não vai mudar. Cabe apenas lembrar o leitor que os DETRAN´s de todos os Estados são ou deveriam ser subordinados ao DENATRAN.

Enquanto a CET/SP não tiver autonomia política, financeira e administrativa, o trânsito paulista não vai mudar.

Mas em relação a CET/SP há uma luz no final do túnel. Toda essa estrutura educacional oferecida pode e deve ser aprimorada.

Se o Poder Público ignora as ações da CET, já que ano a ano a Prefeitura de São Paulo diminui a verba para a entidade (de R$ 79 milhões em 2007 para R$ 52 milhões em 2008), vide informações institucionais, demonstrações contábeis no link: www.cetsp.com.br

A iniciativa privada, especialmente, aqueles que vivem e se utilizam do motofrete tem o dever cívico em colaborar de alguma forma para ampliar os inúmeros cursos oferecidos gratuitamente, não só aos motociclistas, mas para motoristas profissionais ou não, pedestres e ciclistas.

E mais, os motofretistas ou motoboys deveriam passar por um curso como esse a cada 6 (seis) meses com acompanhamento psicológico.

A segurança no trânsito, bem como a educação no trânsito, são deveres dos cidadãos e deveria ser uma prioridade de Estado, que por sua vez prefere proibir a investir em educação.

O cidadão precisa se preocupar mais com a segurança do usuário, do que com o fluxo dos veículos, pararem com essa inveja boba dos motociclistas passarem e os carros ficarem imóveis no caótico trânsito, afinal é o livre-arbítrio.

Mas, o Brasil só terá uma cultura de segurança no trânsito se o Governo Federal, por meio de seu Ministério da Educação, incluir a matéria pertinente ao tema na grade curricular dos ensinos médio e fundamental. Mas incluir verdadeiramente e não demagogicamente como vemos diuturnamente com outros assuntos, com profissionais preparados a passar conhecimento e chamar atenção de nossas crianças, numa questão que mata 35 mil pessoas por ano só nesse país.

Se as crianças obtiverem formação educacional de segurança no trânsito, não é necessário afirmar como serão bem mais preparadas para participar do trânsito quando adultos.

Todavia, isso não é tudo! Afinal como diz meu estimado Professor Damásio de Jesus: “O que reduz a criminalidade (infrações de trânsito) é a certeza de punição”.