O filósofo e o idiota

O filósofo e o idiota

Cristo Redentor, à noite

O Essa pergunta pegou a todos de surpresa e, num primeiro, momento pensei em responder de forma irônica, mas decidi refletir sobre a questão. Para isso viajei no tempo, cerca de 10 anos atrás, quando estive na Alemanha visitando minhas filhas e tive a oportunidade de jantar com um importante filósofo estudioso da doutrina antroposófica (vá pesquisar “antroposofia” no Google!). Sempre fui interessado e defensor da pedagogia Waldorf (e tome Google!), por isso seria uma oportunidade rara de debater o assunto com um especialista. Com muita dificuldade para dialogar, misturando alemão, inglês e italiano, a ponto de me sentir um maluco sem idioma nem pátria, conversamos sobre tudo. De carros a política econômica, de esportes de inverno a literatura portuguesa e inglesa, e principalmente sobre nossas experiências de viagens. Só não falamos de futebol em comum acordo. Quando o jantar já estava chegando ao fim – sim, os alemães têm o hábito de convidar para qualquer reunião com hora para começar e terminar – intercedi e perguntei: “tá, mas e a filosofia?”. Ele levantou, pegou um livro de umas 400 páginas e jogou no meu colo: “tá tudo aí, é só ler, mas eu não queria desperdiçar o tempo falando d e filosofia”. Rudolf Steiner, criador da antroposofia

– Desperdiçar o tempo? Mas você é o especialista! – Justamente por isso, eu sou tão especialista em um assunto que não quero me tornar um “Fachidiot”! A expressão “Fachidiot” (pronuncia-se fahidiôt) significa fielmente “idiota em um assunto”. Quer dizer o seguinte: são aquelas pessoas que de tanto se especializar em apenas UM assunto acabam se tornando um idiota em outras áreas. Qualquer um que olhe à sua volta poderá identificar vários desses idiotas em um assunto. O ambiente de trabalho é onde mais tem dessa gente. Conheci várias pessoas com esse perfil. O maior deles – literalmente – foi oAyrton Senna. Era verdadeiramente incapaz de conversar ou olhar o mundo se não fosse pela ótica do automobilismo. Nas raras vezes que tentou desviar o assunto derrapou feio. Talvez isso explique o motivo de eu ter uma certa alergia a encontros de motos e motoclubes (com exceção dos nossos Motonliner Meetings, claro). O assunto invariavelmente é só moto! Nada de anormal, afinal é que nos leva a essas reuniões, mas sempre me admiro quando desvio o assunto e descubro pessoas cheias de informações sobre os mais variados temas do conhecimento humano. Imagine o volume de sabedoria que se desperdiça nesses encontros! Faça uma experiência: no próximo encontro procure desviar o tema da conversa, em vez de motos questione sobre a atividade do motociclista e se prepare para que um universo de conhecimento se descortine à sua frente. Quem teve a chance de ler o meu livro “O Mundo É Uma Roda” notou que a segunda parte é dedicada a temas e situações variadas para que leitores menos especializados em motos também pudessem se divertir. E o maior fenômeno desse livro é a enorme quantidade de elogios que recebo de esposas, filhos e pais dos leitores! Recentemente uma esposa de leitor me escreveu afirmando que não agüentava mais ver o marido rir sozinho na sala e decidiu pegar o livro. Resultado: também leu compulsivamente. Porque uma das minhas preocupações, depois daquele jantar com o filósofo alemão, foi não cometer o suicídio cultural de me tornar um “Fachidiot”. Desde então tento fugir desse discurso monocórdio que tem a moto como tema central. Até mesmo nos testes! Acredito mesmo que todas as pessoas buscam esse ecletismo na vida, mesmo ao entrar em um site no qual o assunto é motociclismo. Pode-se notar esse fenômeno ao visitar o fórum Motonline ou a comunidade Motonline no Orkut. Geralmente os tópicos acabam derivando para assuntos correlatos. É um ganho excepcional pra todo mundo. O que eu já aprendi ao ler os tópicos do fórum e do Orkut daria para encher uma enciclopédia. Até receita de chocolate quente você encontra no fórum Motonline! E com conhaque!!! Eu até entendo a preocupação de alguém em questionar o que o Cristo Redentor tem a ver com o motociclismo, mas a resposta é “tudo”. Tudo a ver! Claro, duvido que algum cidadão brasileiro chegue à base daquela estátua de 38 metros, independentemente de qualquer significado iconográfico, construída em 1930, com mão de obra essencialmente braçal e não se emocione. E se tem uma coisa que tem muito a ver com moto é emoção!

Doctor Tite



Tite

Geraldo "Tite" Simões é jornalista e instrutor de pilotagem dos cursos BikeMaster e Abtrans.