medo

O medo e o coxinha

Texto de João Eurico Aguiar Lima

Medo é bom e faz bem à saúde. Principalmente à dos dentes, já dizia o meu avô quando eu fazia alguma trela na sua oficina. Eu era criança e aprendi a ter medo. Muito da minha sobrevivência até à idade atual é devido ao medo que senti em um ou outro momento. Mesmo assim, o medo é visto com preconceito e de um modo geral as pessoas “sem medo” são muito prestigiadas. As vezes são tidas como corajosas. Ledo engano.

Coragem não é ausência de medo. Ausência de medo é ignorância dos riscos e frequentemente isso pode ser fatal. Coragem é sentir o medo e enfrentá-lo, ajustar o seu comportamento diante de riscos conhecidos, no sentido de minimizá-los. Por isso que medo é bom. Porque muda o nosso comportamento diante de uma situação potencialmente perigosa. Mas e o excesso de medo? Como já dizia outro avô, “Tudo demais é muito”. Medo demais pode paralisar. Quando suprimimos desejos por causa de medos estamos abrindo mão de muitas chances de fazer coisas que nos deixam felizes.

Os “coxinhas” definitivamente tem o fator medo muito preponderante no seu comportamento. É o medo de danificar a moto, medo de ter um prejuízo com um acessório quebrado, o medo de se perder, o medo de se molhar, o medo de passar frio, o medo de sentir calor, o medo de se atrasar, o medo ser assaltado, o medo do que os outros vão pensar, e até mesmo o medo de cair e se machucar. O medo é algo que nossa mente constrói. O perigo é real, mas o medo é inventado por nós, como o péssimo filme do Will Smith e seu filho Jaden demonstrou. Prova de que até em um filme horrível ainda é possível tirar alguma coisa boa.

Quando um motociclista paralisa sua utilização da moto por causa do seu medo talvez seja hora de vender a moto ou talvez mudar de categoria. Não é incomum ver pilotos que deixam suas motos na garagem diante da mera possibilidade de chuva ou que se recusam terminantemente a colocar suas bigtrails em estradas de terra. Isso é o que me dói mais. Quando deixamos de fazer coisas por causa do medo trocamos um risco (medido e calculado e portanto contornável) por uma certeza: estamos deixando de viver. Estamos fazendo errado! Estamos deixando de lado uma oportunidade para enfrentar o medo e desse enfrentamento alavancarmos um comportamento mais preciso, melhor.

O medo é um instrumento fabuloso para o auto-conhecimento e por isso mesmo o auto-melhoramento. O medo nos aponta nossas deficiências e principalmente nossa ignorância. Se sentimos medo de alguma coisa existe uma grande chance de sermos, em alguma medida, ignorantes a respeito dessa coisa. Ora, contra a ignorância a melhor coisa é a informação que traz conhecimento. Se temos medo de alguma falta de habilidade a solução não é se render a esse medo e permanecer inábil. A solução é buscar conhecimento de como se faz a coisa bem feito e praticar para melhorar. Se temos medo de pilotar a moto em alguma circunstância temos que nos informar sobre como pilotar melhor e praticar, e praticar, e praticar, até que o medo seja reduzido da forma paralisante para a forma da cautela saudável, que nos mostra nossos limites.

Senna se destacava em piso molhado - imagem de divulgação FIA

Senna se destacava em piso molhado - imagem de divulgação FIA

Lembro certa vez que Ayrton Senna declarou que ao participar de uma prova de kart levou um couro danado quando a pista ficou encharcada devido à chuva. Imagino se Ayrton Senna chegou a ter medo de pilotar kart na chuva, nem que por um segundo. Isso é pura especulação minha, mas o fato é que depois desse dia de derrota (medo?) Ayrton procurava pilotar sempre que chovia, mesmo sem ter competição alguma. Ele aproveitava todas as chances que tinha para pilotar na pista molhada e acabou transformando sua imperícia (medo?) de andar na chuva numa das suas maiores habilidades e diferenciais competitivos.

Nos fóruns sobre motociclismo encontro frequentemente as postagens de iniciantes expressando seus medos diante de exames de habilitação de moto nos DETRANs da vida. Pessoas que afirmam que “sabem fazer tudo direitinho” mas que ficam “nervosas” diante da perspectiva de falharem no teste. O medo de ser reprovado acaba se transformando numa profecia auto-cumprida. A pessoa tem  a habilidade, mas o medo a faz por tudo a perder. Qual a solução para o medo diante do fracasso no teste? A resposta mais fácil é ligar o “Fuck it!” e desencanar. De fato funciona, mas acaba dando margem para a preparação inadequada. Não se importar com as coisas às vezes é útil, mas se usado sem moderação pode levar a um estado de letargia tão paralisante quanto o medo excessivo. Isso equivale a não ter o medo.

O melhor ainda é usar o medo como impulsionador para praticar mais a pilotagem, exercitar as manobras em que tem mais dificuldade e tornar-se craque nelas. Praticar, praticar, praticar e quando estiver exausto de tanto praticar…. ir lá e praticar mais um pouquinho. Praticar até o ponto em que faria as manobras de olhos fechados, ou com um pé nas costas, ou com as mãos amarradas .. .ou tudo isso junto (aí é cabra bom mesmo!). Com frequência, quando vou fazer passeios off-road com amigos “coxinhas”, vejo alguns jovens ficarem absolutamente exaustos no meio do mato. Considerando que eu já não sou um menino (do alto dos meus 49 anos, mas num corpinho de apenas 48), ficava sempre intrigado ao ver amigos em plena forma física, capazes de correr meias maratonas, às vezes maratonas inteiras, andar de bike, fazer academia 3 vezes por semana, mas que no meio da trilha ficavam mortos. E eu inteiro.

Como explicar isso se eu não pratico atividade aeróbica ou musculação alguma de forma frequente? Porque eles estavam tão cansados e eu não? Resposta: Tensão. A tensão sobre o guidão causada pelo medo paralisante exaure as energias de qualquer um. A maior prova de quão intensa intelectualmente é a atividade de pilotagem de motocicletas é a desenvoltura com que pilotos mais experientes, mesmo mais velhos, se saem de situações extenuantes mesmo sem terem o preparo físico mais top da turma. Não que preparo físico seja dispensável, pelo contrário. Forma física é fundamental. Mas de nada adianta ser o rato de academia de ginástica se não tiver uma atitude mental superior diante do medo e a tensão impostas pela pilotagem.

Os amigos que pilotam comigo já conhecem o passeio até a Ilha do Coqueirinho Solitário ao sul de Tamandaré, Pernambuco. Durante muito tempo propus que esse passeio fosse considerado um ritual de iniciação ao grupo de bigtrail off-roaders. Lembro da primeira vez que eu fui a essa praia com a F 800 GS. Ainda muito grosso e sem tanta habilidade, e com a moto novinha, sozinho, fiz a loucura de ir até a Ilhota passando pelo areal divisor entre homens e pratos de papa. Depois de muitos sustos cheguei à parte de areia dura da praia completamente exausto. Esgotado mesmo. Parei a moto numa rocha, descansei, tirei fotos e imediatamente passei a pensar em como fazer para encarar a volta.

O medo era paralisante. E se eu cair? Quem vai me ajudar? Sozinho numa praia deserta a coisa tinha um potencial enorme de virar uma grande m****. Não tive muita alternativa além de encarar o medo e fazer o percurso de volta. Quando cheguei de volta a Tamandaré eu estava ainda mais exausto como não sabia possível. Fiquei um tempo super bolado com o resultado desse episódio. Ora! Se para percorrer um pequeno trecho de uns 1000 metros de areião eu fazia um esforço semelhante a parir trigêmeos… de que valia eu ter uma bigtrail? Qual o sentido? Alguma coisa tinha que ser feita. Passei a usar os medos de cair, de ficar sozinho, de ter gasto uma grana numa moto que não iria usar plenamente, de dar vexame, de ter um prejuízo numa queda, como drivers para me fazerem melhorar.

Emagreci, melhorei meu condicionamento físico, me informei sobre como pilotar na areia, assisti vídeos, pedi dicas a pilotos experientes, pratiquei areia em pequenos trechos, juntei tudo isso e adicionei uma pitada de “dane-se” e um mês depois encarei EXATAMENTE o mesmo trecho, ainda sozinho. Tirei de letra! Foi um passeio! Cheguei lá dando risada e muito feliz com a conquista. Foi uma experiência libertadora que há muito eu não sentia. Uma coisa assim meio que de infância, quando tinha feito uma trela na oficina do meu avô e ele não tinha me pego. A sensação foi muito boa e como sempre acontece eu queria dividir isso com o mundo. Queria proporcionar isso para todas as pessoas com as quais eu encontrasse. Queria fazer as pessoas enfrentarem os seus medos porém sem aboli-los. Queria ensinar as pessoas a usarem seu medo para as fazerem mais felizes! Por mais paradoxal que seja.

Comecei a levar alguns amigos ao passeio do Coqueirinho Solitário, como ficou mundialmente conhecido(?), e obtive resultados muito gratificantes. Vi homens crescidos sentirem medo e enfrentá-lo com coragem (às vezes com uma pitada de irresponsabilidade) e conseguirem chegar à praia do coqueirinho com uma expressão de realização misturada com alívio. Vi lágrimas de alegria. Vi também alguns jurarem que jamais voltariam a fazer um passeio comigo (rsrsrs) Well.. não se pode acertar todas. Desde então o tema me fascina, e de vez em quando encontro novos amigos pilotos que dão a chance de ajudá-los a superar seus próprios limites, quando pelo menos não os conhecerem mais nitidamente. A todos eu deixo 10 mil dos meus melhores obrigados pois é muito gratificante. Espero continuar fazendo isso por muito tempo. Enquanto isso, lembro aqui a Litania Contra o Medo do Frank Herbert:

E para quem achar essa litania muito complicada, deixo o link para o brilhante poema do Chico Buarque de Holanda, que é mais didático e não menos forte:  clique aqui