O motociclista gordo

O pobre coitado era gordo e costurava o trânsito numa Crypton.

A motinha parecia apenas um detalhe no meio daquela montanha. Dentro de um capacete apertado estavam as bochechas espremidas, uma testa suada e olhos cansados. O Sol nordestino tava pegando pesado.

Aquele indivíduo parou seu pequeno veículo sobre a faixa de retenção. Semáforo da avenida fechado e a galera se aproximando pelos retrovisores. Será confortável ser gordo, estar numa moto pequena, com banco preto, no Nordeste e às 12 horas? Porém, certo cara disse que tudo o que é ruim pode piorar.

Um sujeito delegado estressado irritado e com ressaca parou sua picape Super Hiper Mega Heavy Duty TurboDiesel 4×4 atrás dele. Acelerava e freava seu monstro. Rugia forte. Puxava e repuxava a gravata do pescoço. Engatava e desengatava o câmbio. Estava com muita pressa e não ficava quieto. Com um motor urrando nas suas costas, o gordinho se derretia de medo e suava feito uma freira caminhando em Sobral. “Sai da frente, presunto motorizado”, disse o Estressado, com a cabeça pela janela. E ainda ficou buzinando e aproximando aquela imensa grade cromada às costas dele, que pensou estar parado no mais demorado semáforo que existia. Mas nos segundos derradeiros (quase no Verde) o doido acelerou o TurboDiesel e fez os pneus cantarem.

O gordinho saiu na frente. A Cryptonzinha se arrependeu de ter nascido com 105 cilindradas. Mesmo assim fazia, com certa lentidão, o que seu pesado proprietário ordenava. Desviava de buracos (sempre eles), assustava velhinhas, atemorizava crianças e impressionava marmanjos (coisa de Paul Walker e Vin Diesel). No entanto, tudo piorou novamente.

Eis que apareceu outro semáforo, lá na frente. “Parar e ser esmagado ou seguir e ser atropelado?”, pensava o motoqueiro. Decidiu parar. Parece que o maluco da picape se distraiu porque viu uma mina bonita e quis fazer charme. Mas não. Ele viu, na verdade, sua mulher saindo da perfumaria com um monte de sacolas (pensou logo no valor da fatura do cartão de crédito). Ficou mais irritado e acionou o sistema 4×4 com reduzida. Queria esmagar tudo e chegar em casa tão logo possível.

O gordinho percebeu, acelerou tudo e soltou a embreagem com determinação. Sua motinha começou empinar e saiu feroz como a R1 do Valentino Rossi quando está na segunda posição e na última volta. O maluco foi atrás. Gordo irritado é capaz de tudo. Até de saltar lombadas e buracos (eles de novo!). Eis que “surge uma luz no fim do túnel” (que expressão batida!): um caminhão de lixo entrou naquela rua e quis tomá-la para si. Foi a chance do gordinho, que puxou o punho e deu uma estilingada forte. A Yamahinha cantou pneu em quarta marcha (isso aqui não é história de pescador!). Numa brecha de 71,4 cm (setenta e um, vírgula quatro centímetros!), entre o caminhão de lixo e um poste inclinado, ela passou feito uma flecha.

O delegado estressado irritado e com ressaca ficou preso atrás daquele letárgico e sujo caminhão. Conseguiu entrar numa ruazinha, mas deu de cara com um caminhão de propaganda-volante…

O gordo continuou na avenida. Com o coração a mil, mas vivo e com mais uma emocionante história pra contar.