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O PPB vai mudar em 2012; e daí?

Complexo industrial no PIM: fabricantes e fornecedores são vizinhos

Complexo industrial no PIM: fabricantes e fornecedores são vizinhos

Para quem lida com o tema das motocicletas no Brasil, falar sobre o PPB é algo quase natural. Natural? Responda rápido: o que significa PPB? Essas três letras juntas e nessa ordem, representam até certo ponto a história da indústria de motocicletas no Brasil e, para qualquer consumidor brasileiro, a possibilidade de comprar e usar um produto mais evoluído em termos de tecnologia e qualidade de construção.

O PPB – Processo Produtivo Básico – determina as regras que os fabricantes de motocicletas, bicicletas e similares instalados no PIM – Polo Industrial de Manaus (AM) – devem seguir para poderem usufruir das isenções fiscais que a SUFRAMA – Superintendência da Zona Franca de Manaus – concede para quem investe e produz na região. Hoje o objetivo do PPB é fazer com que a indústria continue investindo para nacionalizar ainda mais seus processos, possa desenvolver tecnologia local e com isso aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado interno e também para exportar.

Linha de montagem Honda: 99% das peças nacionais

Linha de montagem Honda: 99% das peças nacionais

O novo PPB entrará em vigor em 1º de janeiro de 2012 e adotará um sistema de pontos. Cada modelo de motocicleta produzido no PIM deverá cumprir um determinado número de pontos para receber a autorização de produção da Suframa. Este número de pontos está estabelecido levando-se em consideração a complexidade do processo de produção e o investimento realizado. Além disso, algumas etapas deverão ser cumpridas obrigatoriamente: injeção de peças plásticas, soldagem do chassi e montagem completa da moto. É importante destacar que a regra vale para fabricantes de motos ou de motopeças.

Nos bastidores deste novo PPB há alguns fatos que devem ser enfatizados, pois eles por si só explicam o rigor das novas regras. O forte crescimento que o mercado brasileiro experimentou a partir de 2000, atraiu para a região vários novos fabricantes. Neste mesmo período – 2003 – entrou em vigor a regra do PROMOT – Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares).

Com as portas escancaradas, o atraente mercado brasileiro de motocicletas experimentou uma enxurrada de novas marcas de motocicletas e a Suframa aprovou em um curto período vários projetos de fábricas de motocicletas. Se a chegada das novas marcas aumentou a concorrência, o PROMOT elevou a qualidade e a tecnologia dos produtos fabricados por aqui.

Dados de emplacamentos de janeiro a setembro/2011 da Fenabrave mostram que as empresas associadas à Abraciclo (*) representam mais de 98% do total

Dados de emplacamentos de janeiro a setembro/2011 da Fenabrave mostram que as empresas associadas à Abraciclo (*) representam mais de 98% do total

Apesar do grande número de novas marcas, o consumidor brasileiro deixou claro que não aceita qualquer moto e a qualquer preço. Os números do mercado (Fenabrave) mostram que mais de 98% das motos vendidas no Brasil são fabricadas no PIM dentro das regras do PPB e do PROMOT. Estes fatos e números mostram, entre outras coisas, que quem não conseguiu melhorar seus produtos e enquadrá-los dentro das regras, se ainda não fechou as portas, está muito próximo de fazê-lo, sobretudo com o horizonte de curtíssimo prazo que acena a entrada em vigor do novo PPB.

Portanto, para quem compra e utiliza uma motocicleta no Brasil a importância do PPB é clara e explícita: qualidade, responsabilidade e compromisso. Qualidade do produto, responsabilidade com o meio-ambiente e com a sociedade e compromisso com o desenvolvimento do Brasil. Parece slogan de campanha política, mas não é. O novo PPB representa o aprimoramento de um processo que envolve mais de 40 anos de investimento de dinheiro privado e público e o segmento tem uma cadeia produtiva que sustenta alguns milhões de pessoas. Apenas para dar uma ideia da dimensão disso, a fábrica da Honda em Manaus emprega mais de 11 mil pessoas. Mas isso não foi sempre assim.

Para entender a evolução do PPB, é preciso voltar no tempo para o ano de 1967. Naquele ano, o Governo Brasileiro decidiu criar a Zona Franca de Manaus (ZFM). “Integrar para não entregar” foi o slogan criado e utilizado para justificar a criação da ZFM. O ciclo da borracha havia praticamente terminado e a Amazônia estava pronta para ser loteada por estrangeiros em busca de suas outras riquezas naturais. Era preciso fazer algo. E o Governo Brasileiro fez. Essencialmente, a ZFM era uma região onde produtos importados – acabados ou desmontados – eram isentos de alguns tributos. Rapidamente esta medida desenvolveu o comércio local, criou empregos, gerou riqueza e serviu para fixar a população na região e atraiu outros brasileiros para fazer turismo e compras. Além disso, logo desenvolveu-se um polo industrial – sobretudo eletro-eletrônico e de duas rodas, que atraiu diversas empresas

Montagem na Yamaha: PPB incentiva produtos com mais tecnologia

Montagem na Yamaha: PPB incentiva produtos com mais tecnologia

Para a indústria de motocicletas, naquele momento passou a valer o Índice de Nacionalização, que se baseava em peso e valor das motos montadas. Este índice aumentava ano a ano independentemente do volume de produção e do modelo fabricado. Cada marca precisava aumentar o conteúdo nacional das motocicletas com base em valor e em peso. Um exemplo: a moto “A” do fabricante “B” tinha custo de R$5.000,00 e peso total de 120 kg. No primeiro ano de sua fabricação deveria ter 30% do peso e do custo em peças feitas ou compradas no Brasil. No ano seguinte, este índice aumentava e assim gradativamente.

Com o crescimento da indústria e o desenvolvimento da região, o índice de nacionalização saiu de cena e surgiu o PPB. Este era um conceito completamente novo e se baseava nos processos realizados na fabricação das motocicletas. Também estabelecia exigências cada vez maiores e era independente do volume e modelo. Com o tempo este novo PPB passou a exigir também determinada quantidade de peças plásticas injetadas em cada moto/modelo, incluiu variações de acordo com o volume produzido e estabeleceu prazos para que cada fábrica pudesse cumprir estas novas regras.

Os incentivos da Suframa sempre sofreram algum tipo de combate, em maior ou menor intensidade, dependendo do momento econômico brasileiro. Quando este período era ruim, de baixo crescimento econômico do País, aumentavam os ataques aos incentivos na ZFM e a alegação sempre foi que os incentivos não traziam os resultados esperados como a geração de empregos e o crescimento e desenvolvimento regional. Mas sempre se soube que não se tratava de um problema dos incentivos na região, mas de momentos econômicos ruins pelos quais passava todo o Brasil.

O Salão Duas Rodas deste ano mostrou, de certa forma, que a existência destas regras beneficiam todo o segmento. Praticamente todas as marcas apresentaram novos produtos, mais evoluídos e com mais tecnologia, o número de visitantes superou a marca de 250 mil pessoas e, ao contrário da indústria de automóveis, as motocicletas importadas não chegam a representar nem 1% do total de motocicletas vendidas no mercado brasileiro, o que equivale a dizer que todas as melhores motocicletas do mundo são produzidas aqui mesmo.

Obs.: Para facilitar a discussão sobre esse assunto, criamos um tópico no fórum para os motonliners. Clique aqui para acessar o tópico