Luís Sucupira e Ricardo Quinderé em frente ao Museu do Gozagão

Os caminhos que levam a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

A estrada para a terra do Rei do Baião traz muitas emoções

A estrada para a terra do Rei do Baião traz muitas emoções

Todo dia assim que o sol nasce e se põe em Iguatu as asas brancas passam na minha janela lembrando que neste solo da água boa, pelas letras de Humberto Teixeira, foi escrito o poema que virou hino do nordeste pela melodia de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Sexta-feira, 25 de janeiro de 2013. Neste dia é feriado em Iguatu. A cidade comemorava seus 160 anos de emancipação política e eu nada tinha para fazer. “Descansar? Não! Vou andar de moto. Mas para onde eu iria?” Eram quase dez da manhã quando decidi encontrar Ricardo Quinderé, dono do Exposição Hotel e um profundo conhecedor da história da região. Lá decidimos que iríamos a Exu, que fica no Estado de Pernambuco, distante, 210 km de Iguatu.

Um emocionante dia estava apenas começando. Mal sabia eu que estaria desfilando nesta rota por uma parte da história do Ceará e do Brasil.

Várzea Alegre (CE), terra onde o Padre Antônio Vieira defendeu o jumento da extinção e teve a música de Gonzagão como parceira da causa

Várzea Alegre (CE), terra onde o Padre Antônio Vieira defendeu o jumento da extinção e teve a música de Gonzagão como parceira da causa

A viagem começa e cinquenta quilômetros depois chegamos a Várzea Alegre. Naquela cidade cruzamos com a estátua de Padre Antônio Vieira, o primeiro ecologista que se tem notícia no Nordeste brasileiro. Foi por suas mãos que o jumento escapou de ser exterminado quando, na Bahia, um frigorífico capturava estes animais e os levava para serem transformados em carne de charque.

Comovido com a história e a causa de um animal que era bom e lutando contra o homem, que é mal, Luiz Gonzaga compôs uma música que faria o jumento, nosso irmão, ficar mais famoso ainda, passando a ser quase que idolatrado, pois foi bento pelo Papa João Paulo II. Desde então cessaram as hostilidades contra um animal que se fixou sagrado. Segundo Luiz Gonzaga, se não fosse o jumento, “o nordestino não existiria”.

Patativa do Assaré foi outro grande parceiro de Luiz Gonzaga

Patativa do Assaré foi outro grande parceiro de Luiz Gonzaga

Alguns quilômetros perto dali fica Assaré, uma cidade que ficou famosa por conta de um poeta o qual recebera o nome de uma ave que canta muito e encanta quem a ouve – a patativa. O ‘Patativa do Assaré’ foi o maior poeta a cantar as coisas do sertão. Conseguia fazer de todo fato um verso e de qualquer conversa uma prosa. Assim ‘Patativa’ ficou famoso como cantador e poeta. De personalidade forte, ‘Patativa’ chegou a ser preso ao desafiar o prefeito da cidade e mesmo preso compôs um verso onde dizia: “patativa, você está presa para cantar e eu ‘Patativa’ fui preso por que cantei.”

‘Patativa do Assaré’ também foi parceiro de Luiz Gonzaga em várias músicas que através de seu talento emprestado, fez com que Gonzaga fosse o folhetim cantado do sertão, o sujeito que falava a língua do povo que na sua maioria não sabia ler e nem escrever. Também perto dali fica o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, onde o beato José Lourenço recebia o povo que passava fome na seca.

Imagem do massacre de inocentes no Caldeirão de Santa Cruz do Deserto do beato Zé Lourenço

Imagem do massacre de inocentes no Caldeirão de Santa Cruz do Deserto do beato Zé Lourenço

A elite da época (seca de 1915, 1922 e 1932), que preferia manter seus conterrâneos em campos de concentração para morrerem de fome, sede e doenças, não estava gostando de saber que o Caldeirão poderia vir a ser uma nova ‘Canudos’ e o beato Lourenço um novo Conselheiro. Assim protagonizou um dos piores massacres patrocinados pelo Estado Brasileiro – bombardearam pela primeira vez na história desse país, uma cidade de mais de duas mil pessoas, civis desarmados e indefesos, famintos e agarrados a vida apenas pela fé, matando quase mil deles instantaneamente.

Nesta mesma época, Pedro Américo, Ministro dos Transportes de Getúlio Vargas, teve uma ideia salvadora. Levou os cearenses que passavam fome para lutar na Revolução Constitucionalista contra o ‘levante paulista’. Estávamos na Era Vargas. Milhares de cearenses foram salvos da fome e da seca lutando na guerra. Muitos morreriam em consequência do frio e das balas, mas nunca de fome e sede.

Bárbara de Alencar, primeira prisioneira política do Brasil

Bárbara de Alencar, primeira prisioneira política do Brasil

Assim, acreditava Américo, seria melhor. Era arriscar uma chance de sobreviver ou ter a certeza de morrer de fome. Mais tarde, a mesma cidade que ajudaram a combater para não morrer de fome, a fizeram renascer através da incrível capacidade de trabalho do nordestino de transformar um problema e assim, com a ajuda deste povo, a ‘Terra da Garoa’, transformou-se na terceira maior cidade do mundo.

Setenta quilômetros depois passamos pela entrada do Crato, terra de onde Padre Cícero Romão Batista, que, brigado com o bispo da cidade, juntou vários seguidores, andou dez quilômetros e fundou Juazeiro do Norte, hoje a maior cidade da Região do Cariri. Esta mesma região viu surgir a Confederação do Equador onde nordestinos cansados do descaso do Império decidiram separar-se do Brasil. Dentre eles dois antepassados meus – Padre Sucupira, fuzilado no Rio de Janeiro após ter sido excomungado a pedido por não ter aceitado a proposta de perdão do Imperador, e Bárbara de Alencar, considerada localmente como a primeira prisioneira política da história do Brasil. Morreu depois de várias peregrinações em fuga da perseguição política em 1832 na cidade piauiense de Fronteiras, mas foi sepultada em Campos Sales, no Ceará. Bárbara veio de Araripe, já bem perto de Exu.

Visão da Chapada do Araripe, verde depois de uma pequena chuva

Visão da Chapada do Araripe, verde depois de uma pequena chuva

No caminho de Crato a Exu passamos por um longo túnel de árvores que pintam o céu de verde na Chapada do Araripe. Sua exuberância encanta. As chuvas tinham voltado e, mesmo que ainda poucas, já deixavam a mata em um tom de verde viçoso, dizendo que ali a seca já havia ido embora. Na moto, embaixo do capacete, fico pensando como o nordestino é um forte. Como este povo vive de teimoso. O quanto eles conseguem a cada dia e a cada dificuldade reinventarem-se e seguir em frente.

No meio dessa sorte de desgraças o nordestino produziu inúmeros talentos. Foi um desses ‘cabras’, hoje consagrado como Rei, que estamos prestes a visitar. No meio da Chapada do Araripe paramos para apreciar a paisagem. O clima mudou rapidamente em poucos quilômetros. O bafo revoltoso e sufocante presente no calor do sertão havia dado lugar ao cheiro doce e fresco do mato molhado e a uma brisa que ajudou a baixar em alguns graus a temperatura do motor da moto e em mim.

Ricardo Quideré, meu companheiro de viagens e um grande conhecedor das histórias da região será meu guia nesta saga de contar o aberto e o escondido do sertão central do Ceará

Ricardo Quideré, meu companheiro de viagens e um grande conhecedor das histórias da região será meu guia nesta saga de contar o aberto e o escondido do sertão central do Ceará

No lugar onde paramos era o fim da subida da serra. Ricardo Quinderé me conta que naquele lugar Luiz Gonzaga, sempre que descia a Chapada do Araripe, mandava o motorista parar. Ele chamava aquele ponto de ‘Verifique’. Segundo Gonzaga antes da descida era importante ver como estava o carro, então “verifique os freios, a gasolina, o motor.” Neste mesmo lugar existia antes uma barraca que vendia lanches aos viajantes. Hoje o Ibama a retirou de lá. O nome da barraquinha dado pelo Rei era ‘Verifique’.

Depois de descer novamente a Chapada Chegamos a Exu – Pernambuco. Exu é ainda uma cidade muito pequena aonde tudo de bom que lá chegou veio pelas mãos prestigiadas de Luiz Gonzaga que tinha grande acesso ao poder e usava isso em benefício de melhorias para a sua terra.

A Missa do Vaqueiro surgiu depois de uma música de Luiz Gonzaga

A Missa do Vaqueiro surgiu depois de uma música de Luiz Gonzaga

Ainda há pouco progresso na cidade, fruto de anos de desavenças entre as famílias Sampaio e Alencar. Era uma grande onda de ‘um mata o outro por que mataram um’, que nada se podia fazer. Nascer com o sangue, mesmo que seja a metade ou um terço, de um Sampaio ou Alencar, já seria o mesmo que receber junto com um “seja bem vindo ao mundo” também um “descanse em paz”. Durante anos naquela cidade se nascia marcado para morrer. Pior, na cadeia não havia nenhum preso.

Luiz Gonzaga era fã de Lampião. Tinha na sua casa uma foto em tamanho real do Rei do Cangaço. Vestiu-se assim durante muitos anos, até que esta guerra entre duas famílias ficou totalmente descontrolada. Para dar o exemplo, o Rei decidiu deixar de lado a roupa de cangaceiro e passou a usar o gibão de vaqueiro.

Estacionadas no museu do Gonzagão

Estacionadas no museu do Gonzagão

A guerra entre os Sampaio e Alencar acabou, mas os atos de Luiz Gonzaga em defesa da paz não. Outro assassinato, o de um vaqueiro chamado Raimundo Jacó, morto em Serrita, fez com que Luiz Gonzaga cantasse sua morte. A homenagem ficou tão grandiosa e emocionante que a ‘Morte do Vaqueiro’ virou uma missa – a Missa do Vaqueiro anualmente é rezada e frequentada por milhares de vaqueiros que chegam a Serrita, um lugar que antes só era mato, para receberem homenagens e agradecer muito a Deus, mesmo que seja pelo pouco que eles receberam. “Bom vaqueiro nordestino morre sem deixar tostão e seu nome é esquecido nas quebradas do sertão” – cantava Luiz.

Na hora do almoço eu e Ricardo assistimos a um desfile de depoimentos falando e contando histórias sobre Luiz Gonzaga. Dominguinhos fala da forma como ele provocava do fole que era única e isso acabou influenciando todos os sanfoneiros do Brasil a ponto de hoje existir uma orquestra sanfônica. Um menino chega pedindo um tostão. Ricardo pergunta se tem fome e manda fazer um prato caprichado de comida que o moleque divide com um amigo.

Luís Sucupira e Ricardo Quinderé em frente ao Museu do Gozagão

Luís Sucupira e Ricardo Quinderé em frente ao Museu do Gozagão

Mas no momento em que baixamos a cabeça e olhamos para nossos pratos, apenas ouvindo o que se falava na TV sobre Luiz Gonzaga um som, vindo das entranhas, sobrenatural mexe com a gente. Vem um arrepio forte e uma sensação de força em meu peito e um nó na garganta. É um sentimento tão forte, tão poderoso que só poderia ser gerado pelo aboio. O aboio é tão imponente que até o mais xucro boi quando escuta obedece e entende. Hora a boiada caminha lento, hora mais rápida, hora para. Não é feito com nenhum instrumento ou parte de um boi. Vem de dentro, vem das entranhas e se solta como uma voz no tempo em forma de música sem letra definida, mas com endereço e sentido certos.

Passado o almoço fomos ao Parque Asa Branca onde ficam, respectivamente, o Museu do Gonzagão, o mausoléu da família, uma pequena pousada e a casa onde ele morou nos seus últimos sete anos de vida. O pernambucano do Século XX apresenta objetos, fotos, documentos e homenagens recebidas quando em vida. Uma delas a Medalha do Pacificador dada pelo Ministério do Exército. Luiz Gonzaga era corneteiro e assim o fez a pedido do pai Januário que trazia um recado da sua mãe Dona Santana pedindo que o filho, mesmo no exército, nunca viesse a matar ninguém. Luiz atendeu e várias vezes foi preso por responder ao major. Isso de fato foi a maneira que encontrou para não pegar em armas e acabou sendo o corneteiro da tropa.

Luís Sucupira e a Versys agora batizada de Asa Branca

Luís Sucupira e a Versys agora batizada de Asa Branca

Andar pela casa de Luiz Gonzaga é outra viagem no tempo. Ver como vivia, de forma simples, sem pompa e quase nenhuma circunstância nos faz repensar quais seriam os símbolos do sucesso. Talvez esteja aqui o significado entre ser eterno pelos seus feitos ou esquecido pela ostentação. Gonzagão era maçom e usava isso para ajudar ainda mais seus irmãos. Doou centenas de sanfonas, uma delas, a um jovem e talentoso rapaz pobre chamado hoje de Dominguinhos.

Na lanchonete, onde paramos, ouvimos ainda mais uma história de Luiz Gonzaga. Contam que um dos vigias ‘via seu Gonzagão andando pelo parque’ e outros contam que ainda escutam, em algumas madrugadas alguém tocar sanfona no mausoléu da família onde estão enterrados Januário, Dona Helena (sua esposa) e Luiz Gonzaga. Ao entrar no mausoléu, este repórter, que escutava a música que lá fora estrebuchava no alto falante, passou a escutar a mesma música em um tom mais suave, pacificador… um leve eco que parecia um ‘delay’ e um sentimento de que Gonzagão ainda estava vivo e, quem sabe, bem ali, olhando pela sua cidade e pelos seus irmãos nordestinos.

Mapa do roteiro Iguatu - Exu

Mapa do roteiro Iguatu - Exu

Nascido em 13 de dezembro, chamou-se Luiz por ser dia de Santa Luzia; Nascimento veio a pedido do padre por ser mês de dezembro, época que Jesus nasceu e Gonzaga para reforçar o nome de santo. Pelas mãos deste homem que fez fama, cantou o nordeste e as suas tradições, que defendeu os bichos, as pessoas e a terra, que posso afirmar: nestes 210 quilômetros de passeio (420 ida e volta) feitos em um dia, aprendi e revivi a saga de um povo cantada em folhetim através de uma sanfona, um triângulo e uma zabumba.

E tive a certeza de que não é o Nordeste Brasileiro que passa pelo Brasil, mas é sim, o Brasil que deu certo, o Brasil que deu errado e o Brasil que tenta se consertar que passa obrigatoriamente pelo Nordeste Brasileiro, pois não existe um único lugar neste país e em muitos lugares do mundo que não exista um nordestino disposto a lutar, juntar um dinheirinho e voltar para a sua terra para aqui morrer em paz.

Cheguei a Iguatu com sol se pondo. Tirei o capacete, a balaclava, abri a jaqueta e olhei para o céu e as mesmas ‘azas brancas’ que inauguraram meu dia estavam voltando, dizendo a mim que a esperança de dias melhores não havia batido ‘asas do sertão’. Agradeci a Deus pelo dia inesquecível; enxuguei o rosto, suspirei e subi para o apartamento cantando “vai boiadeiro que a noite já vem. Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem”. De hoje em diante a Kawasaki Versys atende pelo nome de ‘ASA BRANCA’.

Serviço:

Parque ASA BRANCA – Exu(PE): Rodovia BR 122

Museu do Gonzagão / Entrada – R$ 10,00



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.