1 - Sr Rubens Sucupira 2 - Luis Sucupira

Os Rabos de Burro – o primeiro motogrupo do Ceará

O que é ser um 'Rabo de Burro?'

O primeiro grupo de motociclistas a ficar famoso no Ceará era formado por um mais bem comportado grupo de dissidentes dos famigerados ‘Rabo de Burro’ que eram desordeiros (filhinhos de papai) que andavam de carro na Fortaleza dos Anos 40’ e infernizavam a vida de mocinhas inocentes da antiga Escola Normal.

Na Década de 50, no Pós-Guerra alguns fortalezenses herdaram equipamentos de guerra que não seriam mais usados pelos americanos quando da época da base militar que estava instalada onde é hoje a Base Aérea de Fortaleza. O lugar era chamado de Post Comand que, mais tarde, virou nome de um bairro em Fortaleza chamado PICI. Na realidade Pici é a forma fonética de falar, em inglês, as letras ‘P’ e ‘C’.

No meio dessa sobra de materiais tinham algumas ‘Harley’ e os Jipes. Muitos garotos pegaram essas motos em precário estado de conservação e as recuperaram e, junto com as lambretas, nascia o primeiro grupo de motociclistas do Ceará, que também foi apelidado de Rabos de Burro, mesmo não sendo arruaceiros e nem infernizarem as mocinhas decentes. Na realidade o nome nem era esse. Em vez de rabo usavam um nome mais pejorativo, formado por duas letras, as quais não ouso redigir aqui.

Eles se encontravam no antigo Abrigo Central, que ficava onde hoje está a Praça do Ferreira. Na realidade podemos também afirmar que o Abrigo Central teria sido o primeiro shopping center do Ceará.

Segundo a jornalista e historiadora, Roberta Maia, dar um “pulinho” no Abrigo Central era quase sagrado para muitas pessoas que viveram em Fortaleza até o final da década de 1960. Relembrar o “Velho Abrigo”, construído na administração do prefeito Acrísio Moreira da Rocha, em 1949, para ser um ponto de ônibus, não é muito esforço para quem passou ali muitos momentos da juventude.

Amélia Earhart na Base Aérea de Fortaleza - Primeira mulher a tentar cruzar o pacífico de avião passou alguns dias em Fortaleza. Foto tirada dias antes de desaparecer no mar.

Ir àquele espaço incrustado na Praça do Ferreira era essencial para finalizar bem o dia, depois da jornada de trabalho. O Abrigo Central era o ponto de encontro. Se você queria encontrar um amigo, você podia ficar ali à espera que aquele amigo tinha que passar. Mas, além disso, podia ainda namorar e concorrer aos sorteios de carro que aconteciam ali.

O Abrigo tinha ainda casas de merenda, loja de discos, loja de selos, tabacarias, cafés, confeitaria e engraxates. Para seu Mário Cidrack Filho, 62, que, ainda criança, trabalhava com seu pai na confeitaria que levava o sobrenome da família, o Abrigo “era a referência”. Ele explica que “lá dentro do abrigo tinha de tudo”.

Lá também era possível encontrar outras delícias da culinária, como as vitaminas, sucos e sanduíches. Abacatadas, sucos de cajá, graviola, tamarindo, eram pedidos durante todo o dia nas várias casas de merenda (lanchonetes, para os paulistas). Mas, para o acompanhamento nada melhor que um “cai-duro” ou um “espera-me no céu”. Pois é, tinha até a famosa bananada do ‘Pedão da Bananada!’

Meu pai foi um Rabo de Burro!

1 - Sr Rubens Sucupira 2 - Luis Sucupira

Nesse lugar um grupo de jovens garotos, onde um deles viria a ser, alguns anos depois, o meu pai, juntavam-se com suas motos para organizar passeios. Esses passeios eram mais do que aventuras.

Sente-se e imagine: Naquela época as motos eram todas importadas, não tinham nem de perto a tecnologia de hoje, bebiam horrores de gasolina e não tinham peças de reposição. Não se usava capacete, mas óculos de piloto de caça e um gorro de couro que tapava as orelhas e prendia-se ao pescoço por uma cinta jugular.

Consertar as motos não era motivo de tanto problema, o problema maior eram os pneus. Eles eram uma raridade absoluta e caríssimos. Assim, na falta dos originais, as Harley e as Indian rodavam com pneus de fusca.

Não foi fácil fazer seu Rubens Sucupira falar das suas peripécias como um Rabo de Burro (o nome era dado a eles também por que alguns tinham cabelos grandes e compridos e se pareciam, quando amarrados, com rabos de burro). Ele, acredito, achava que aquilo não era um bom exemplo de história para contar aos filhos e netos, mas era história e história precisa ser contada.

Um dia de tanto insistir, depois de umas vodkas caprichadas, seu Rubens abriu o bico e as histórias desceram à mesa. Foram muitas e tantas que vou tentar resumir ao máximo para vocês. Meu pai está atualmente (em 2011) com 73 anos e posso afirmar sem medo que ele tem aproximadamente 55 anos de motociclismo.

O gorro de piloto com o óculos era o capacete da época

O gorro de piloto com o óculos era o capacete da época

Os passeios noturnos

De volta ao Abrigo Central a turma se juntava e combinava os passeios. O preferido era ir a Mossoró, no Rio Grande do Norte. Hoje ir a Mossoró é fácil. As motos são rápidas, confortáveis e o asfalto existe em todo trecho de 265 quilômetros que separam Fortaleza da Terra que botou Lampião para correr à bala.

Naquele tempo eles rodavam em estradas de chão e à noite. Seu Rubens explica que “à noite era mais seguro, pois as motos se alinhavam em paralelo, todas com faróis acesos e, assim, iluminavam a estrada. À noite era mais fácil sermos vistos pelos caminhões e era melhor de vê-los também. A poeira do dia era terrível e cegava todo mundo.”

Gasolina nas costas e remendo de pneus a frio

A moto da época para todas as estradas

Não existiam postos de combustível e nem borracharia na beira da estrada e por isso era necessário levar gasolina de reserva e remendo a frio para pneus que furassem. A Harley consumia entre 8 km/l e 10 km/l, tinha marcha no tanque e avanço manual. Segundo seu Rubens, “era muito difícil domar aquilo, mas era divertido.”

Rodavam a noite toda e ao chegar à Mossoró iam tomar banho e ver as ‘meninas’ na praça. “Éramos 15 garotos de famílias abastadas e conhecidas em Fortaleza, por isso não dava para fazer muita bagunça”, destaca seu Rubens. Quem pensa que eles bebiam e pilotavam engana-se. Rodavam a base de gasolina e para os pilotos, água e bolachas. Não havia garupas. Quando chegavam, depois do banho, iam à praça e lá o “mel corria solto”. A pousada ficava na praça e assim não precisavam usar as motos.

O Predador e a freirinha

A freirinha e o motociclista

Durante anos andaram juntos e poucos acidentes ocorreram. Um deles aconteceu com um amigo deles, cujo nome ele pede que preserve. Esse amigo a quem vamos chamar de ‘Predador’ acidentou-se e ficou internado na Santa Casa de Misericórdia. Enquanto isso a moto dele era consertada. No dia marcado para a sua saída o pessoal dos Rabos de Burro foi buscá-lo, mas ele já havia saído de lá sem avisar a ninguém. A turma saiu pela cidade a procurá-lo e soube que ele havia pegado uma moto emprestada de outro amigo e que fazia alguns dias que não o via e nem devolvia a moto.

Então voltaram e decidiram falar com a madre superiora e lá ficaram sabendo que uma freirinha havia sumido do hospital. Resumo da ópera: a freira fugiu com o motociclista Predador e acabou casando com ele e viveram felizes para sempre. Dá um filme!

Seu Rubens também não era da turma dos santos e gostava de fazer das suas também. Tinha uma lambreta e um jipe e com a lambreta andava pra cima e pra baixo com minha mãe. Quando ainda era solteiro tinha o hábito de andar em pé, em cima da cela da moto. As meninas adoravam e os seus pais detestavam aqueles rebeldes sem causa, cabeludos, que gostavam de iê-iê-iê, de boemia e de muita festa.

Falando em festa, eles também acabaram com algumas e não era brigando. Bastava um não ser convidado que ele e os outros aprontavam. Numa dessas festas, um debut de 15 anos, eles levaram pimenta malagueta braba, da pior que tinha e jogaram no salão. As pessoas começaram a dançar e assim também a pisar as pimentas. Não demorou para todo mundo ficar com os olhos ardendo. Paravam de dançar e a banda parava de tocar para que lavassem o piso que os Rabos de Burro tinham enchido de pimenta.

Olhos no céu!

"Não éramos garotos maus. Apenas queríamos nos divertir e andar de moto." Rubens Sucupira

O Abrigo Central acabou, foi destruído para dar lugar a Praça do Ferreira onde fica a Coluna da Hora e anos depois os garotos viraram pais e avôs, mas nunca deixaram a paixão pelas motos. Meu pai, o Sr Rubens, ainda brilha os olhos quando vê as motos passarem, mas não pode mais andar nelas.

Durante anos a nossa casa esteve cheia de lambretas, vespas, piaggios, Harley e Indian. Até uma Yamaha 125 dois tempos tinha lá, toda equipada com bauletos e rádio PX. Nessa moto meu pai ajudou a fazer a escolta do Papa João Paulo II quando em visita à Fortaleza. Depois ela foi aposentada e ele nunca mais andou de moto. Sr Rubens é diabético e cuida-se de um C.A. de próstata, tudo controlado e confesso que a saúde dele é melhor que a minha, segundo seus exames, mas já não dá mais para ele.

“O tempo passou”… Diz seu Rubens, com os olhos firmados no céu como quem tenta enxergar as imagens de um passado lúdico, inocente e rebelde. Mais um gole na vodka, uma pausa… E finaliza: “Nós não éramos garotos maus. Só queríamos nos divertir e andar de moto.”

Hoje eu entendo o que era ser um motociclista de verdade. Não reclamavam de nada. Segundo seu Rubens Sucupira “o motociclista é imune ao tempo e ao clima, mas sempre é abatido pela emoção toda vez que ouve o som daquele bicho que anda em duas rodas chamado motocicleta.” Depois dessa afirmação fui eu que passei a olhar para o céu tentando encontrar aquelas imagens vividas por ele. Quem sabe, lá no fundo do meu coração, eu não seria também um Rabo de Burro? Enquanto eu ficava abraçado ao meu silêncio ele ligou o órgão Yamaha e tocou Glenn Miller.

Para encerrar eu queria deixar esse vídeo que considero um resumo daquilo tudo que meu pai me disse. Valeu, seu Rubens! Obrigado, pai!

http://youtu.be/vksdBSVAM6g

Obs.: Para facilitar a discussão sobre esse assunto, criamos um tópico no fórum para os motonliners. Clique aqui para acessar o tópico.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.