Para superar a crise, não tenha medo de andar na contramão

Crises são o melhor combustível para a verdadeira inovação. Encarar a turbulência do mercado pode ser melhor que fugir dela

*Valter Pieracciani – www.pieracciani.com.br

Sempre que ouço falarem da atual crise, lembro com ironia da velha anedota do motorista maluco. Dirigindo em alta velocidade na contramão de uma das avenidas marginais em São Paulo, ele ouve no rádio: “Atenção! Atenção! Há um veículo trafegando em alta velocidade na contramão da marginal”. Acelerando, ele resmunga, indignado: “um não, vários!”

Deixando de lado os aspectos de alienação do motorista, a história pode ser usada para mostrar como a atual situação pode ser vista de perspectivas diferentes. Enquanto a maioria das empresas está puxando o freio de mão, prevendo um cenário negro para os próximos meses, um reduzido número de organizações “acelera na contramão”, vislumbrando 2009 como um período cheio de oportunidades concretas.

Os líderes dessas empresas têm consciência de que os efeitos da crise dependem 90% da reação que terão a ela e de como irão enfrentá-la. Sabem que suas atitudes e decisões é que determinarão a realidade futura. Em outras palavras, de que a solução para a crise não depende dos bancos que quebraram nem dos espertos que hipotecaram bens e inventaram dinheiro nos EUS. Depende, sim, da sua capacidade de aproveitar o momento para desenvolver e perpetuar uma cultura de inovação. Afinal, a história nos mostra que choques, crises e inversões de sentido na economia são combustível valioso para as empresas inovarem e se consolidarem.

Em vez de encurtar os passos e cair de cabeça na estratégia do “corta o cafezinho”, os líderes de empresas inovadoras estão empenhados neste momento em descobrir as tendências e “novas partes interessadas” (incluindo-se aí as crianças como consumidores do futuro e influenciadores do hoje) a mídia, as ONGs e tantas outras variáveis que terão papel relevante no cenário econômico nacional e internacional. Buscam antecipar-se às suas expectativas e concepção de valor, descobrir e focalizar que tipo de benefícios se tornaram relevantes para seus clientes e que devem ser incluídos em suas estratégias.

É claro que “dirigir na contramão”, adotar o caminho da inovação para enfrentar a crise, exige o desenvolvimento de uma cultura e de uma gestão de inovação. Ou seja, transformar suas empresas em usinas de inovação, que inovam sistematicamente em quatro dimensões: produto/serviço, processos , gestão e negócio. Para isso é preciso diagnosticar, mapear os fatores inibidores e facilitadores da inovação e desenvolver em detalhes um plano de transformação.
Mexer nos processos e em como as coisas acontecem. Entender, nessa nova realidade que a crise se encarregou de nos jogar, o que é importante para o cliente, o que ele de fato valoriza. Capacitar as pessoas e obter sua atenção e energia para um projeto bem estruturado e de curto prazo, para a transformação da empresa. Se não for feito isto elas tenderão naturalmente a cair e introspecção e colocarão energia em sua auto preservação. Perdem todos, empresa e equipes, Reestruturar o ambiente, as relações e comunicações e conduzir mudanças na cultura. Tudo isso conforme um projeto planejado, detalhado etapa por etapa, abrangendo equipes, ambiente, processos e dinâmica de inovação em todas as dimensões e, conseqüentemente, uma cultura que a potencialize.

Neste aspecto, o governo brasileiro (acredite!) está a favor dos seus esforços. Há muito tempo, nossos governantes sabem que a inovação é a saída para a competitividade. A prova é a nova estrutura legal de incentivo à inovação. A “Lei da Inovação” (10.973 de 02/12/2004) e a “Lei do Bem” (11.196/05 de 21/11/2005), que proporcionam a redução de impostos para as empresas que investirem em projetos de inovação.

Não se trata de planejamento tributário, muito pelo contrário. As empresas estão usando esses recursos para estruturarem seus programas de gestão da inovação. São trabalhos técnicos, e os recursos aplicados neles voltam para os orçamentos das engenharias. Essas companhias procuram fazer desse investimento uma vantagem competitiva. Buscando transformar-se em “usinas de inovação”, fazendo da inovação sua tradição.

São poucas as empresas no Brasil a se beneficiar das leis, cerca de 400, mas já é um claro sinal de que há instituições com coragem de andar na contramão de tudo que lemos e ouvimos. São essas as empresas que fazem de forma diferente, e usam a via da inovação como principal alternativa para ultrapassar a crise.

Valter Pieracciani é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas e autor do livro “Usina de Inovações” – Guia Prático para Transformação da sua Empresa

Os 5 passos para a inovação:
 Esqueça, ao menos por enquanto, o paradigma da redução de custos que hoje circula em suas veias.
 Constitua e implante um comitê de inovação.
 Defina uma estratégia de inovação, planeje, defina as etapas, construa o projeto passo-a-passo, deixando claro os prazos e metas.
 Entenda os fatores inibidores e facilitadores da inovação. “Ataque-os” e saia na frente.
 Prepare também um bom plano de comunicação. Não se faz uma empresa inovadora sem a adesão de todos.