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Paris, problemas, eleições e mágica

No domingo rodei de bicicleta um pouco mais de 40 km, em pleno dia de eleição presidencial. A cidade estava bem mais agitada que o normal. Tirando uns poucos cartazes de tamanho padronizado colados aqui e ali, a eleição é muito discreta. Excepcionalmente havia Velib disponível. Normalmente aos domingos é muito difícil encontrar alguma Velib disponível, a qualquer hora do dia. Estão todas pelas ruas. Muita gente prefere pagar a multa pelo tempo excedente do que correr o risco de devolver a bicicleta e não encontrar outra para voltar a pedalar. Infelizmente vi muitas Velib danificadas por vândalos. Cheguei a ver uma estação de 30 bicicletas com mais de 10 destruídas. Deprimente! Aliás, vandalizar qualquer bicicleta é normal por aqui. Gostaria de entender o porque.

Como qualquer turista pedalando, andei fazendo umas besteiras no trânsito. É comum a sinalização para ciclistas estar apagada e quando você se dá conta já está fora do espaço definido para ciclistas. Outro problema é que a cidade é realmente interessante e pedala-se com olho na paisagem. Mesmo assim é muito raro ouvir uma buzinada, um grito de repreensão, um palavrão, ver um gesto grosseiro. Quem conhece Paris diz que no passado era muito diferente.

Ontem passei o dia caminhando. Foi 12 horas de rua e um único buraco numa faixa de pedestre. Por muita sorte não cai ou torci o pé. Repito mil vezes: buraco por aqui é muito raro. Que inveja, que vergonha! Você caminha sem interferências, sustos, problemas, principalmente postes de fiação. Você consegue enxergar a arquitetura, as pessoas, os veículos em movimento; você se integra à vida da via, bairro, da cidade. Sente-se calmo; dá prazer. As pessoas são leves. Postes, como os que temos em nossas cidades, cria uma parede, uma barreira, que prejudica não só a visão, mas também gera algumas distorções sociais. Quando fiz rádio falei várias vezes sobre o assunto o que me resultou numa não muito discreta ameaça a minha integridade.

Cadeirantes tem dificuldade de locomoção. Muitas calçadas são realmente estreitas, cheias de obstáculos para a passagem da cadeira, incluindo bicicletas estacionadas. Guia rebaixada não é regra. Se os ônibus transportam com facilidade e cortesia cadeirantes e carrinhos de bebe, no sistema de metro e trens metropolitanos praticamente inexiste elevador e até mesmo escada rolante até a rua é pouco comum. Taxi não se encontra com facilidade.

A quantidade de desabrigados e pedintes pelas ruas é grande, chega a incomodar. Tenho lembrado muito da Nova Iorque que vi em 1994, ainda em plena crise, a palestra de um dos responsáveis pelo “Tolerância Zero” que vi na Prefeitura de São Paulo, e da mesmíssima Nova Iorque que tive o imenso prazer de vivenciar no ano passado. A melhora de qualidade de vida para todos é clara. Paris parece desconhecer a experiência, ou ter outra visão do caminho para a solução de seus problemas. Francês tem uma visão própria do universo; interessante, mas muito particular. Somos todos humanos, apesar dos egos. As soluções não diferem muito onde quer que seja (incluindo no Brasil).

Elegeram um socialista, François Hollande, um pouco porque não gostam da pessoa Sarkosi como porque acreditam que ele possa gerar as mudanças sociais desejadas. Um dos pontos de seu programa é o congelamento do preço dos combustíveis usando o estoque regulador das empresas petrolíferas. Infelizmente mesmo aqui há muita gente que cai na ilusão inocente de que as coisas se resolvem com soluções milagrosas. Todas as experiências desastrosas resultantes de congelamento de preço não vale nada, mesmo num país de bem educados. Por outro lado, entre todos candidatos não foi colocada uma proposição para resolver a questão da segurança no trânsito, que custa ao dinheiro público uma barbaridade. Quem chamou atenção para o fato foi um jornalista que participava de uma mesa redonda num dos principais canais de TV. Os outros cinco presentes olharam para ele com espanto e fizeram ponderações por puro ego e obrigação de trabalho.

Como curiosidade, até patética: Hollande e Sarkosi, os dois candidatos do segundo turno, prometeram não assinar a anistia de todas as multas de trânsito de todos franceses, como é a tradição de primeiro ato praticado por todos presidentes da história da França. Quando me contaram pensei que fosse piada. Não é. Somos todos humanos.