Peças raras

Peças raras

A Kasinski trouxe poucas Comet e Mirage 650, que foram vendidas rapidamente, agora revendedores e consumidores querem mais

No Salão da Duas Rodas de 2005 o estande da Kasinski reservou duas belas surpresas. A Comet 650 Firefox e a Mirage Power 650. Ambas imediatamente se tornaram alvo de muito interesse, principalmente porque os valores anunciados na época eram muito tentadores. A semelhança da Kasinski Comet 650 Fire Fox com a Suzuki SV 650 vai muito além da aparência. Temos de lembrar que a Kasinski importa os modelos Hyosung, empresa coreana que começou em 1978 adquirindo tecnologia Suzuki. Quando decidiu por desenvolver uma esportiva de média cilindrada, imediatamente a base foi a Suzuki SV 650. Já a Mirage Power 650 é cria da própria Hyosung, usando como base o motor V2 da Comet, bem como a suspensão dianteira invertida. Qualquer semelhança com a Harley-Davidson V-Rod não é mera coincidência, porque a inspiração é evidente. As vendas só começaram – e já terminaram – em maio de 2006, com apenas 17 unidades de cada. Se foi um estudo de mercado, a julgar pela euforia dos revendedores, a Kasinski pode encomendar o próximo containner. Comet 650R

Comet 650R

O estilo da Comet é claramente inspirado nas motos italianas, principalmente a Benelli. A carenagem integral tem linhas retas e um único farol com duas lentes superpostas, acompanhado de duas entradas de ar falsas, já que não dispõe de sistema de indução de ar. A pintura perolizada reforça o bom acabamento geral. Destaque para a suspensão dianteira invertida (upside-down) a exemplo da já conhecida Comet 250, com tubos de 41 mm e múltiplas regulagens. O painel traz o conta-giros redondo analógico e um display com informações digitais sobre velocidade, temperatura da água e nível de gasolina. Apesar da aparência moderna, esse display já está fora de moda porque torna-se de difícil leitura à luz do dia. O quadro tubular fica levemente aparente, imitando alumínio, mas é de aço.

A arquitetura do motor segue fielmente a matriz Suzuki: dois cilindros em V a 90°, duplos comando no cabeçote, quatro válvulas por cilindro e refrigeração líquida. A potência declarada é de 79,5 cv a 9.500 rpm e o torque é de 6,93 kgf.m a 7.500 rpm. Até as medidas de diâmetro e curso são iguais, porém a Suzuki declara que as peças não são intercambiáveis.

Basta se posicionar para perceber uma inegável semelhança com a Suzuki TL 650 (vendida exclusivamente na Europa). Os semiguidões ficam ligados diretamente nas bengalas e a posição é bem radical. As pedaleiras são elevadas e recuadas, como em toda esportiva, mas tem a possibilidade de várias regulagens de altura e distância para permitir que sujeitos fora de medida se encaixem nela. Na configuração original serviu como uma luva para os meus 1,70m. Comet: freio dianteiro

Comet: freio traseiro

Comet: Painel

Comet: pedaleira

O ronco do motor é grave e típico de um V2, com uma fraca vibração no início. Um grande silenciador se encarrega de limitar os decibéis, mas já andaram colocando uma ponteira esportiva! A moto avaliada estava com apenas 130 km rodados, por isso fui com calma nos primeiros quilômetros. Mesmo assim foi possível perceber que o grande trunfo desse motor é a força em média rotação. Não gosta muito de rodar em baixa, mas acima de 7.500 rpm se transforma e acelera bem. Não é aquela explosão dos quatro cilindros, mas a distribuição é bem linear. Acima de 8.000 já se percebe as vibrações, sensíveis, mas totalmente dentro do previsto para um motor em V. A velocidade máxima foi de 206 km/h (no velocímetro, cerca de 190 km/h reais) e a aceleração de 0 a 100 km/h feita em 4,2 segundos. A média de consumo no teste foi de 14,7 km/litro (autonomia média de 250 km), que pode ser considerada alta, mas o acelerador ficou quase o tempo todo no talo!

Assim que chegaram as curvas percebi que a suspensão dianteira estava “cabeceando”. Com ajuda meu amigo e piloto de teste, Leandro Mello alteramos a regulagem da suspensão dianteira e melhorou muito. Porém uma dos itens que vai requerer um estudo mais apurado por parte da Kasinski é a suspensão, tanto dianteira quanto traseira, porque estão “esportivas” demais para nosso solo. Assim como o conjunto de freios a disco (dois dianteiros e um traseiro) que atuam bem enquanto estão frios, porque depois de quentes ficam “borrachudos”. E a manete não tem regulagem! Boa parte do problema do freio vem do peso exagerado: 208 quilos (em ordem de marcha).

E se a idéia for passear com a namorada na garupa, esquece! A posição do piloto é esportiva e até divertida, com o corpo bem encaixado na carenagem, já quem vai na garupa pagará os pecados. Banco alto e pedaleiras muito elevadas fazem do ato de rodar nessa garupa um exercício de contorcionismo.

Como opção de esportiva diferente, a Comet 650 Fire Fox é bem interessante – e rara! Existe a possibilidade de os revendedores Kasinski se unirem para trazer mais deste modelo. O que pode atrapalhar é o preço. Na Europa a Hyosung Comet 650 concorre na mesma faixa de preço que as 500. Aqui ela está sendo vendida a R$ 30.900, o que a coloca muito próxima da Honda CB 600F Hornet. No salão foi anunciado que ela chegaria por R$ 25.000 o que poderia ser uma pedra no sapato da Hornet. Não há nada nessa Comet 650 que justifique um preço tão alto. A título de comparação, na Espanha ela está na mesma faixa de preço da Honda CBF 500 e quase 2.000 Euros a menos que a Hornet 600.

Mirage Power 650

Mirage Power 650

O nome dela no exterior é Áquila, ou “águia”, uma alusão diretíssima à americana Harley Davidson. Para começar, a fábrica foi buscar na Harley a inspiração para usar a transmissão por correia de borracha, quase uma marca registrada da fábrica americana. O desenho lembra muito a V-Rod, com os tubos do quadro passando sob o tanque e foi desenvolvido para ser uma custom moderna, inclusive usa o mesmo garfo dianteiro invertido da Comet. E já que o tema é “inspiração”, a traseira e a grossa ponteira do escape lembram muito a Yamaha Warrior. Mirage: Motor V2

Mirage: Correia

Mirage: Farol

Mirage: Freio dianteriro

Mirage: Painel

Mirage:traseira

Não é para ser uma custom clássica, tanto que o pneu traseiro é mais largo e com perfil mais baixo do que da sua irmã esportiva Comet. Percebe-se que muitas peças são aproveitadas nas duas, inclusive e obviamente o motor V2. A configuração é a mesma, porém a potência é menor, com 71,2 cv a 9.000 rpm e torque de 6,28 kgf.m a 7.500 rpm.

A posição de pilotagem lembra a extinta BMW RC 1200 Cruiser, com um guidão bem largo e afastado da coluna de direção. A diferença está na leveza; enquanto a BMW exigia uma força descomunal para virar o guidão, nesta Kasinski o guidão é tão leve que até brinquei que parece uma moto com direção hidráulica. Os pés ficam avançados, mas apoiados em pedaleiras convencionais, nada de plataformas. O piloto fica ereto, bem apoiado no banco, mas o garupa também não terá vida mansa, porque sua posição é bem crítica como a maioria das custom dessa categoria.

Como ela adota a mesma bengala invertida da Comet, a suspensão dianteira tem várias regulagens. Na traseira os dois amortecedores reguláveis nas molas são bem eficientes e fazem esta Mirage Power muito confortável. E também estável, devidamente limitada pelas pedaleiras que raspam facilmente no asfalto. É uma moto para ser pilotada por horas a fio, de preferência em linha reta e com bom asfalto.

O acabamento explora ao máximo os cromados, como convém às custom. Também tem duas caixas de entrada de ar, mas apenas uma leva ao filtro de ar, a outra é só para dar simetria. E a exemplo da Comet, os freios são a disco duplo na frente e simples atrás e também merecem flexíveis mais resistentes. Decididamente infeliz é o painel, tanto no formato quando nas funções. Todo digital, fica absolutamente ilegível quando o sol bate em cima da tela de cristal líquido.

O comportamento é muito parecido com o da esportiva Comet, naturalmente com mais disposição em baixa rotação. O motor cresce de giro com vigor e acima de 8.000 rpm dispara e aparecem as vibrações sentidas nos pés e mãos. A velocidade máxima foi de 185 km/h (no velocímetro) e a aceleração de 0 a 100 km/h em 6,2 segundos. O peso exagerado de 220 kg (em ordem de marcha) compromete boa parte do desempenho, bem como a falta de proteção aerodinâmica.

O maior problema desta custom não está na sua parte técnica, mecânica ou ciclística, mas no aspecto mercadológico. Aliás, as duas Kasinski 650 estão muito mal posicionadas no mercado. Com o preço sugerido de R$ 34.900, essa moto tem exatamente o mesmo preço de uma Harley-Davidson Sportester XL 883 Custom e de uma Ducati Monster 695. No mercado espanhol, onde estas Hyosung são vendidas, elas custam, em média, 2.000 euros a menos que estas concorrentes citadas. Não há razão evidente para que custem bem mais no Brasil. Mas se o objetivo for rodar com uma moto diferente, praticamente imune a roubos e com cotação de seguro mais baixo, pode ser duas boas opções.

Preço e ficha técnica no site oficial da Kasinski: www.kasinski.com.br